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AGOSTINHO nasceu no dia 13 de novembro de 354, em Tagasta, na atual Argélia, norte da África. Seu contato com a filosofia começou pela literatura e pela oratória. O interesse pela literatura clássica latina foi decisivo para sua vida filosófica. O estudo de Cícero e de Vergílio propiciou um conhecimento elevado tanto dos recursos da linguagem, como de conceitos e problemas filosóficos. Até mesmo sua rejeição inicial pelo texto bíblico deve-se ao gosto desenvolvido nesse padrão literário: Agostinho inicialmente julgava que o Velho e o Novo Testamentos não estavam à altura dos grandes autores, nem pela forma nem pelo conteúdo.

Dotado de boa formação literária, o jovem Agostinho inclinou-se também para o maniqueísmo. É importante entender em que se baseava seu interesse. O maniqueísmo procurava responder perguntas capitais para a filosofia, e prometia faze-lo com integral apoio na razão, isto é, rejeitando todo argumento de autoridade. Além dessa generosa promessa de racionalidade, o dualismo maniqueu procurava explicar a existência do mal no mundo como consequência de alguma coisa própria ao homem, e não a Deus, princípio do bem. Essas duas promessas atraíram Agostinho, que estudou com atenção as respostas maniqueístas a diversas questões, na expectativa de encontrar explicações racionais para tudo.

Em linhas gerais, o maniqueísmo pretendia que nosso mundo seria resultado de um embate entre dois princípios – ou dois príncipes, se quisermos uma linguagem alegórica. De um lado, o princípio do bem (ou Príncipe da luz), e de outro o princípio do mal (ou Príncipe das trevas). Um dos resultados desse combate seria justamente o homem: com uma parte luminosa, a alma, e outra parte tenebrosa, o corpo. Assim, o mal seria consequência dessa nossa parte de origem e natureza malignas, o corpo.

Na sua teoria do conhecimento, o maniqueísmo julgava que para ser inteiramente racional, só poderia aceitar como verdadeiro aquilo que estivesse imediatamente presente. Isto é, só poderíamos dar assentimento àquilo que nossos sentidos captam, aqui e agora, ou àquilo que intuímos prontamente com o intelecto, como as verdades da matemática.

Mas Agostinho decepcionou-se com o dualismo maniqueu. As promessas não foram cumpridas. Seu contato com os grandes mestres dessa corrente doutrinária não o satisfez intelectualmente. Quando pôde debater com eles, considerou que as explicações não eram suficientes. Devemos notar, porém, que Agostinho não abandonou aquelas duas exigências: explicação racional e responsabilidade humana pelo mal. A solução maniqueísta não o contentava, mas os valores da razão e da responsabilidade moral restavam intactos para ele. Mais tarde, na vida madura, a filosofia agostiniana afirmará que a racionalidade não exclui a autoridade, e que a responsabilidade humana pode ser pensada em outros termos.

A decepção com o maniqueísmo e a ambição de viver de seu talento como orador o levam a Roma, onde se torna professor. Sua vida profissional não é bem sucedida naquela que seria a Cidade Eterna, a capital do poderoso Império Romano. Mas do ponto de vista intelectual, Agostinho distancia-se do maniqueísmo e tem importante contato com o ceticismo acadêmico. Se o diálogo Hortensius, hoje perdido, exerceu uma influência já nos primeiros anos, ainda na África, outras obras de Cícero, como De natura deorum ou Academica, o levam a compreender melhor as dificuldades da razão humana para atingir a verdade. Nem os sentidos nem o mero modelo matemático seriam suficientes para encontrar todas as respostas. Embora também não se torne um cético, Agostinho vai levar consigo, para toda a vida, a noção da falibilidade da razão humana, e da necessidade de uma procura para além do que está imediatamente presente.

É nesse contexto que o contato com o platonismo mostra-se frutífero. Depois de deixar Roma, por ter obtido um elevado posto em Milão, na corte do Imperador, Agostinho tem a oportunidade de contato com o platonismo, em especial com o pensamento de Plotino. Embora tenha mudado para a Milão em busca de sucesso profissional, as consequências desse novo passo foram inteiramente outras. A vida na corte propiciará o encontro com Ambrósio, e a revolução que daí resulta levará Agostinho a abandonar o cargo e os projetos de vida a ele associados.

Ambrósio era o bispo de Milão. Agostinho, em princípio, não confiaria num bispo, seja porque exigia uma fé que o maniqueísmo ensinara a desprezar, seja porque valorizava a Bíblia, um livro aparentemente mal escrito. Mas Ambrósio era um sofisticado estudioso do platonismo, e interpretava a Bíblia à luz das Enéadas de Plotino. Com o platonismo, Agostinho foi encontrando outro modo de resgatar a razão, e explicar o mal.

A lição platônica que Agostinho reteve pode ser assim resumida. Ao desconfiar do que se apresenta aos sentidos e ao intelecto, não devemos desesperar do acesso racional à verdade. Devemos apostar que a verdade está mais além, que a verdade será encontrada somente depois de um esforço racional que nega as verdades aparentes, em proveito de uma verdade que transcende a aparência. O trabalho da filosofia é um longo e penoso estudo de depuração, para que nossa razão encontre as condições adequadas de conhecimento da verdade.

Ao mesmo tempo em que valorizava a razão, com o imperativo de uma depuração crítica de suas condições, o platonismo apresenta para Agostinho outra maneira de entender o mal. Enquanto o maniqueísmo considerava que o corpo era naturalmente mau, Agostinho encontra no platonismo elementos para uma explicação diversa. O mal deve ser investigado na vontade humana. A responsabilidade humana não está na sua natureza, no seu corpo. Na verdade, Agostinho insistirá que a causa do mal deve ser procurada na alma, isto é, no livre-arbítrio da vontade. Podemos dizer que a partir desse momento sua vida foi uma permanente investigação desse problema. Até a idade mais avançada, já de volta à África, já como bispo de Hipona, essas concepções de vontade e liberdade estarão em permanente elaboração.

Milão já não mais retinha Agostinho. Em licença do cargo, retira-se em Cassicíaco, ainda no norte da Itália, com um grupo de familiares e amigos, onde conduz discussões filosóficas que se tornaram célebres. Essas conversas foram anotadas e depois publicadas por ele na forma de diálogos, como o Contra Acadêmicos, a Ordem e a Vida feliz. De volta de Cassicíaco, Agostinho deixa definitivamente seu cargo na corte imperial, e volta para a África, com o projeto de fundar uma comunidade filosófica, longe das ambições do mundo.

A vida na África tampouco será como o planejado. Após um curto período de elaboração e redação de textos iniciados em Cassicíaco e em Roma (no caminho de volta à África), logo Agostinho se vê ordenado sacerdote da igreja católica e, não muito depois, Bispo da importante cidade de Hipona. Embora dedicado também às funções pastorais, Agostinho não abandonará a filosofia, e continuará pensando, escrevendo e polemizando. Exatamente por ser Bispo de Hipona caberá a ele enfrentar polêmicas com o donatismo e o pelagianismo, e grandes desafios teóricos, como a trindade divina, justamente na obra A Trindade, e a interpretação da significação do sítio e do saque de Roma, por Alarico, em 24 de agosto de 410, na célebre Cidade de Deus.

Agostinho morreu em 28 de agosto de 430, quando as consequências materiais e militares da queda de Roma já eram sentidas em toda a África do Norte, e estavam às portas de Hipona.

As confissões, e seu famoso livro XI

Retornemos agora aos primeiros anos de Agostinho como bispo, quando escreveu suas Confissões, para com isso retomarmos a linha de amadurecimento de sua filosofia.

A interpretação do cristianismo como a verdadeira filosofia exigia ainda a crítica do platonismo. Podemos dizer que essa crítica concentra-se na questão das condições da reconciliação entre o homem e Deus. Se for correto dizer que o platonismo propunha um esforço ascendente, em que a inteligência humana por suas próprias forças alcançaria a contemplação da verdade, Agostinho entende que a filosofia deve ser atenta à necessidade de uma mediação estabelecida “de cima para baixo”. Isso quer dizer que a promoção das condições para o contato entre o homem e a verdade suprema será da iniciativa divina, e não apenas do esforço humano (ainda assim, indispensável).

As Confissões, escritas aproximadamente entre 397 e 401, são um monumento filosófico. Investigam a condição humana e, em particular, a inteligência e a vontade na busca de Deus. Em especial, o Livro XI permite estudar de que modo Agostinho manejou a matriz filosófica platônica,
para explorar seus limites e exibir a necessidade de ir além dela.

Considerado um estudo dos conceitos de eternidade e tempo, o Livro XI das Confissões deve ser lido como parte de um projeto geral. O leitor deve levar em conta o ‘fracasso’ enunciado ao final do Livro X, para entender o papel dos livros XI-XIII, que totalizam a obra. Em resumo, podemos dizer que o Livro X encerra as narrativas baseadas na vida de Agostinho. Depois de apresentar sua primeira infância no Livro I, as Confissões acompanham a vida do ‘narrador’ até o seu momento presente. Se nos primeiros livros o autor, que é também narrador, fala de um Agostinho distante, primeiro criança, depois adolescente etc., seria de se esperar que as narrativas finalmente encontrassem o presente do narrador. E isso acontece e não acontece.

É claro que os Livros I-IX versam sobre o passado de Agostinho, e o Livro X versa sobre seu presente. No entanto, paradoxalmente, o Livro X exibe o desencontro profundo de Agostinho consigo mesmo. Quando o leitor esperava encontro, depara com abismo. O final do Livro X é uma apresentação meticulosa da distância que um homem tem de si mesmo. Com isso, esgota-se uma estratégia narrativa. Narrar a própria vida não propiciou uma reconciliação. O narrador foi descobrindo a distância que tinha não apenas de Deus, mas também de si mesmo. Ora, nesse contexto teórico, o Livro XI tem a tarefa de examinar outra e mais importante narrativa: a narrativa baseada na palavra divina, a narrativa da criação, segundo o livro do Gênesis: “No princípio Deus fez o céu e a terra.”

Daí se compreende que o Livro XI seja marcado pela afirmação da iniciativa divina, e pelo imperativo de que mesmo assim a razão humana se aplique. Seja como vontade, seja como inteligência, cabe à razão o esforço de secundar a ajuda divina.

O leitor terá proveito em estudar o Livro XI à luz do platonismo, no contraste entre o eterno e o temporal, como no uso das estratégias de depuração, da abordagem negativa etc. Mas também deverá ser atento à reformulação da solução platônica pela necessidade de amoldamento humano à mediação promovida pelo Deus absoluto. A investigação da palavra divina, pela palavra humana, será uma procura de comunicação entre os dois polos. Será igualmente proveitoso estudar como o texto vai marcando o papel da vontade, mediante metáforas como o espírito que arde, ou o fogo do amor, ao mesmo tempo em que a afirmação da vontade depende da sua assimilação ao amor divino: “faço isto por amor ao teu amor” (Confissões XI, 1,1).

Antologia de Textos Filosóficos. Disponível em SEED-PR

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