1. (UFSC 2020) 

 Você vivencia realmente o textão que publica na internet? 

1Este textão aqui não quer passar nem perto de te dar uma lição de moral. 2Viver de textão (como é o meu caso e de outros tantos colegas) faz com que a gente jamais tenha certeza do que está dizendo, principalmente porque as palavras escritas são estáticas. O mundo, não.

Quando pergunto se você realmente vivencia o textão que compartilha na internet, minha preocupação não é com apontar hipocrisia ou incoerência na sua vida, mas que a gente consiga experimentar de verdade as coisas que prega exaustivamente.

Ontem fui visitar um amigo e ele levantou a lebre do textão versus vida real. Particularmente, fiquei bolada com a quantidade de vezes em que exaltei iniciativas que nunca consegui ter na vida fora dos ecrãs.

A gente se empolga com a hashtag #MeToo e tolera vagabundo assediando a colega de trabalho; reclama da piada impertinente do Silvio Santos, mas não consegue retrucar o primo mala que fez a mesma coisa no almoço de família; fica chocado com a negligência política em relação à saúde pública enquanto se enche de comida ensebada e cachaça. O textão tem sido um ensaio sem fim para o que queríamos da vida real – mas não temos muita disposição de bancar.

Depois da conversa que tivemos sobre isso, saí da casa do amigo decidida a só abrir a boca para pregar sobre o que eu realmente fosse capaz de realizar no dia a dia. Não se passaram 24 horas desde então e eu já:

3Fui assediada sem esboçar reação, porque estava começando a chover e não quis ficar discutindo com um estranho enquanto meu cabelo se desfazia;

- Me atrasei para a terapia, tempo contado e precioso de organização da minha vida;

- Julguei secretamente uma mulher dando refrigerante para um moleque de fralda;

- Ri da letra de uma música que, na verdade, deveria me dar motivos para chorar;

- Burlei o boicote de anos a um restaurante porque estava morrendo de fome e pressa.

Pode ser que eu esteja enganada (adoraria!), mas como parte responsável pela existência de textões, meu único conselho útil nesse sentido, hoje, seria: 4se te falta coragem para pôr em prática o que colocamos na internet, desligue o textão e vá ver TV.

Disponível em: https://luizasahd.blogosfera.uol.com.br/2018/02/23/voce-vivencia-realmente-o-textao-que-publica-na-internet. [Adaptado].

Acesso em: 31 ago. 2019.

Considere os trechos a seguir, extraídos do Texto 4, e a variedade padrão da língua escrita.

I. Este textão aqui não quer passar nem perto de te dar uma lição de moral. (referência 1)

II. Viver de textão [...] faz com que a gente jamais tenha certeza do que está dizendo [...]. (referência 2)

III. Fui assediada sem esboçar reação, porque estava começando a chover e não quis ficar discutindo com um estranho enquanto meu cabelo se desfazia. (referência 3)

IV. [...] se te falta coragem para pôr em prática o que colocamos na internet, desligue o textão e vá ver TV. (referência 4)

Em relação aos trechos, é correto afirmar que:

01) em I, os termos “Este” e “aqui” pertencem a classes de palavras diferentes, mas desempenham o papel de indicar que a autora se refere ao seu próprio texto.

02) em II, a locução “a gente” apresenta valor semântico de pronome de primeira pessoa do plural.

04) em III, a reescrita da sentença com o sujeito no plural fica “Fomos assediadas sem esboçar reações, porque estava começando a chover e não queríamos ficar discutindo com um estranho enquanto nosso cabelo se desfazia.”.

08) em II e IV, as sentenças são escritas com verbos impessoais.

16) em III, as palavras “assediada”, “começando” e “discutindo” desempenham a mesma função gramatical.

32) em IV, a autora expressa seu posicionamento crítico à forma de fazer crítica por meio de “textão” publicado na internet.

 

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:

Trecho da peça teatral A raposa e as uvas, escrita por Guilherme de Figueiredo. A cena ocorre na cidade de Samos (Grécia antiga), na casa de Xantós, um filósofo grego, que recebe o convidado Agnostos, um capitão ateniense. O jantar é servido por Esopo e Melita, escravos de Xantós.

(Entra Esopo, com um prato que coloca sobre a mesa. Está coberto com um pano. Xantós e Agnostos se dirigem para a mesa, o primeiro faz ao segundo um sinal para sentarem-se.)

XANTÓS (Descobrindo o prato) – Ah, língua! (Começa a comer com as mãos, e faz um sinal para que Melita sirva Agnostos. 1Este também começa a comer vorazmente, dando grunhidos de satisfação.) Fizeste bem em trazer língua, Esopo. 2É realmente uma das melhores coisas do mundo. (Sinal para que sirvam o vinho. Esopo serve, Xantós bebe.) Vês, estrangeiro, de qualquer modo é bom possuir riquezas. Não gostas de saborear 3esta língua e 4este vinho?

AGNOSTOS (A boca entupida, comendo) – Hum.

XANTÓS – Outro prato, Esopo. (Esopo sai à esquerda e volta imediatamente com outro prato coberto. 5Serve, Xantós de boca cheia.) Que é isto? Ah, língua de fumeiro! É bom língua de fumeiro, hein, amigo?

AGNOSTOS – Hum. (Xantós serve-se de vinho) /.../ XANTÓS (A Esopo) Serve outro prato. (Serve) Que trazes aí?

ESOPO – Língua.

XANTÓS – 6Mais língua? Não te disse que trouxesse o 7que há de melhor para meu hóspede? Por que só trazes língua? Queres expor-me ao ridículo?

ESOPO – Que há de melhor do que a língua? A língua é o que nos une todos, quando falamos. Sem a língua nada poderíamos dizer. A língua é a chave das ciências, o órgão da verdade e da razão. Graças à língua dizemos o nosso amor. Com a língua 8se ensina, 9se persuade, 10se instrui, 11se reza, 12se explica, 13se canta, 14se descreve, 15se elogia, 16se mostra, 17se afirma. É com a língua que dizemos sim. É a língua que ordena os exércitos à vitória, é a língua que desdobra os versos de Homero. A língua cria o mundo de Ésquilo, a palavra de Demóstenes. Toda a Grécia, Xantós, das colunas do Partenon às estátuas de Pidias, dos deuses do Olimpo à glória sobre Tróia, da ode do poeta ao ensinamento do filósofo, toda a Grécia foi feita com a língua, a língua de belos gregos claros falando para a eternidade.

XANTÓS (Levantando-se, entusiasmado, já meio ébrio) – Bravo, Esopo. Realmente, tu nos trouxeste o que há de melhor. (Toma outro saco da cintura e atira-o ao escravo) Vai agora ao mercado, e traze-nos o que houver de pior, pois quero ver a sua sabedoria! (Esopo retira-se à frente com o saco, Xantós fala a Agnostos.) Então, não é útil e bom possuir um escravo assim?

AGNOSTOS (A boca cheia) – Hum. /.../ (Entra Esopo com prato coberto)

XANTÓS – 18Agora que já sabemos o que há de melhor na terra, vejamos o que há de 19pior na opinião deste horrendo escravo! Língua, 20ainda? Mais língua? 21Não disseste que língua era o que havia de melhor? Queres ser espancado?

ESOPO – A língua, senhor, é o que há de pior no mundo. É a fonte de todas as intrigas, o início de todos os processos, a mãe de todas as discussões. É a língua que usam os maus poetas que nos fatigam na praça, é a língua que usam os filósofos que não sabem pensar. É a língua que mente, que esconde, que tergiversa, que blasfema, que insulta, que se acovarda, que se mendiga, que impreca, que 22bajula, que 23destrói, que 24calunia, que vende, que seduz, é com a língua que dizemos morre e canalha e corja. É com a língua que dizemos não. Com a língua Aquiles mostrou sua cólera, com a língua a Grécia vai tumultuar os pobres cérebros humanos para toda a eternidade! Aí está, Xantós, porque a língua é a pior de todas as coisas 

(FIGUEIREDO, Guilherme. A raposa e as uvas – peça em 3 atos. Cópia digitalizada pelo GETEB – Grupo de Estudos e Pesquisa em Teatro Brasileiro/UFSJ. Disponível para fins didáticos em www.teatroparatodosufsj.com.br/ download/guilherme-figueiredo-araposa-e-as-uvas-2/ Acesso em 13/03/2019.)

2. (EPCAR (Afa) 2020) Leia o trecho abaixo e responda à questão a seguir.

“Mais língua? Não te disse que trouxesse o que há de melhor para meu hóspede? Por que só trazes língua? Queres expor-me ao ridículo?” (referência 6)

Em relação à análise morfossintática desse fragmento, assinale a alternativa correta.

a) Em “Não te disse que trouxesse (...)?”, é possível perceber o coloquialismo no uso concomitante de 2ª e 3ª pessoas gramaticais.

b) Em “Por que só trazes língua?”, o pronome interrogativo, deslocando-se para o final da oração, seria grafado junto e com acento.

c) Em “Queres expor-me ao ridículo?”, o pronome oblíquo poderá, de acordo com a norma padrão da Língua, vir antes do verbo ‘querer’.

d) Em “(...) o que há de melhor para meu hóspede?”, o pronome demonstrativo exerce a função sintática de sujeito da oração.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:

Cadê o papel-carbono?

1Outro dia tive saudade do papel carbono. E tive saudade também do mimeógrafo a álcool. E tive saudade da velha máquina de escrever. E tive saudade de quando, no dizer de 2Rubem Braga, a geladeira era branca e o telefone era preto.

Os mais jovens não sabem nem o que é papel carbono ou mimeógrafo a álcool. Mas tive saudade deles, ou melhor, de um tempo em que eu não dependia eletronicamente de outros para fazer as mínimas tarefas. Uma torneira, por exemplo, era algo simples. Eu sabia abrir uma torneira e fazê-la jorrar água. 3Hoje tomar um banho é uma peripécia tecnológica. 4Hoje até para tomar um elevador tenho que inserir um cartão eletrônico para ele se mover. Claro que tem o Google, essa enciclopédia no computador que facilita as pesquisas 5(para quem não precisa ir fundo nos assuntos), mas muita coisa me intriga: por que cada aparelho de televisão de cada casa, de cada hotel tem um controle remoto diferente e 6a gente não consegue usá-los sem pedir socorro a alguém?

7Olha, tanta tecnologia!... Mas além de 8não terem descoberto como curar uma simples gripe, 9os elevadores dos hotéis ainda não chegaram a uma conclusão de como assinalar no mostrador que letra deve indicar a portaria. 10Será necessária uma medida provisória do presidente para uniformizar tal diversidade analfabética.

11Outro dia, li que houve uma reunião em Baku, lá no Azerbaijão, congregando cérebros notáveis para decifrarem nosso presente e nosso futuro. Pois Jean Baudrillard 12andou dizendo, com aquela facilidade que os franceses têm para fazer frases que parecem filosóficas, que o que caracteriza essa época que está vindo por aí é que o homem, leia-se corretamente homens e mulheres, ou seja, 13o ser humano, foi descartado pela máquina. 14(Isso a gente já sabe quando tenta ligar para uma firma qualquer e uma voz eletrônica fica mandando a gente discar isto e aquilo e volta tudo a zero e não obtemos a informação necessária.)

15Deste modo estão se cumprindo dois vaticínios. O primeiro era de um vate mesmo – 16Vinícius de Moraes, que naquele poema “Dia da Criação”, fazendo considerações irônicas sobre o dia de “sábado” e os desígnios divinos, diz: “Na verdade, o homem não era necessário”. É isto, já não somos necessários.

E a outra frase metida nessa encrenca é aquela da Bíblia, que dizia que o “sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”. Isso foi antigamente. Pois achávamos que a máquina havia sido feita para o homem, mas Baudrillard, as companhias aéreas e as telefônicas mais os servidores de informática nos convenceram de que 17“o homem é que foi feito para a máquina”. 18Ao telefone só se fala com máquinas, e algumas empresas – esses servidores de informática – nem seus telefones disponibilizam. 19Estou, por exemplo, há quatro meses tentando falar com alguém no “hotmail” 20e lá não tem viv’alma, só fantasmas eletrônicos sem rosto e sem voz.

21Permita-me, 22eventual e concreto leitor, lhe fazer uma pergunta indiscreta. Quanto tempo diariamente você está gastando com e-mails? Quanto tempo para apagar o lixo e responder bobagens? Faça a conta, some.

23Drummond certa vez escreveu: “Ao telefone perdeste muito tempo de semear”. Ele é porque não conheceu a internet, que, tanto quanto o celular, usada desregradamente é a grande sorvedora de tempo da pós-modernidade.

Por estas e por outras é que estou pensando seriamente em voltar às cartas, quem sabe ao pergaminho. E a primeira medida é reencontrar o papel carbono.

– 24Cadê meu papel carbono?

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Tempo de delicadeza. Porto Alegre: L&PM, 2009

3. (EPCAR 2020) Assinale a alternativa em que a alteração proposta para o termo em destaque está de acordo com a norma padrão da Língua.

a) “Estou (...)  quatro meses tentando falar com alguém no ‘hotmail’...” (ref. 19) - Estou têm quatro meses tentando falar com alguém no hotmail...

b) “Permita-me, eventual e concreto leitor...” (ref. 21) – Me permita, eventual e concreto leitor...

c) “...a gente não consegue usá-los sem pedir socorro a alguém?” (ref. 6) - A gente não os consegue usar sem pedir socorro a alguém?

d) “Será necessária uma medida provisória do presidente...” (ref. 10) - Do presidente, será necessário uma medida provisória.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:

Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada

Carolina Maria de Jesus

17 DE MAIO. Levantei nervosa. Com vontade de morrer. 1Já que os pobres estão mal colocados, para que viver? 2Será que os pobres de outro país sofrem igual aos pobres do Brasil? 3Eu estava 4discontente que até cheguei a brigar com o meu filho José Carlos sem motivo...

... 5Chegou um caminhão aqui na favela. O motorista e o seu ajudante jogam umas latas. É linguiça enlatada. Penso: é assim que fazem esses comerciantes insaciaveis. Ficam esperando os preços subir na ganancia de ganhar mais. E quando apodrece jogam para os corvos e os infelizes favelados.

6Não houve briga. 7Eu até estou achando 8isso aqui monotono. Vejo as crianças abrir as latas de linguiça e exclamar satisfeitas:

_ Hum! Tá gostosa!

A Dona Alice deu-me uma para experimentar. 9Mas a lata está estufada. Já está podre.

Trecho disponível em: JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo – diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2001.

4. (IFCE 2020) Considerando a norma culta da língua portuguesa, observa-se um desvio quanto à flexão verbal em

a) “Vejo as crianças abrir as latas e exclamar satisfeitas.”

b) “A Dona Alice deu-me uma para experimentar.”

c) “O motorista e o seu ajudante jogam umas latas.”

d) “É assim que fazem esses comerciantes insaciáveis.”

e) “Mas a lata está estufada.”

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:

Leia o texto abaixo e responda à(s) questão(ões) a seguir.

Projeto ajuda a interromper ciclo de violência contra mulheres

Em Sergipe, um projeto tem ajudado a interromper o ciclo de violência contra mulheres. Foram 16 anos sofridos em silêncio até que ela resolveu dar um basta. “Quando eu saí de casa, fui para a casa de minha mãe. Ele me ligou, esculhambou de tudo, falou que estava indo para a casa da minha mãe para me bater, para quebrar meus dentes, para fazer o que ele queria. Foi nessa hora que resolvi ir para a delegacia e prestei queixa”, disse a mulher.

A queixa virou um acordo entre o casal. Ao invés de responder a um inquérito, uma vez por semana, o ex-marido frequenta um grupo só para homens. Antes do primeiro empurrão, do tapa, geralmente existe a agressão verbal seguida de ameaça. Os homens que foram denunciados por esse tipo de agressão estão no grupo para aprender a enxergar a mulher com outros olhos, com respeito. Uma mudança de comportamento que fez romper o ciclo da violência doméstica.

“A ideia do grupo é uma mudança de atitude, de comportamento, mesmo que você não concorde. Está na lei”, diz a psicóloga aos homens. Sandra Aiaish Menta, doutora em psicologia da Universidade Federal de Sergipe, tem um papel fundamental. “Quando eles chegam ao grupo, a gente tem que sensibilizá-los de que aquilo que eles fizeram é algo que é uma agressão ao outro”, disse.

A cada encontro, novas descobertas. Um homem que sequer admitia que era agressor está na sexta reunião e já mudou de atitude. “Reconheço sim, reconheço que errei com ela. O grupo ajudou muito, graças a Deus”, disse. Mas se ele voltar a ser violento, não tem acordo.

“A gente vai trabalhando numa escalada: para os crimes mais simples, oferecendo a mediação. Houve descumprimento, a gente vai para investigação com medida protetiva. Se ele descumprir, a gente pede a prisão”, disse a delegada Ana Carolina Machado Jorge.

O projeto é uma parceria da Universidade Federal de Sergipe com a prefeitura e delegacia da cidade de Lagarto. Começou há seis anos e, nesse tempo, foi registrado apenas um caso de feminicídio na cidade. Pelo grupo já passaram mais de 300 homens e muitas foram as lições. “Estou aprendendo várias coisas. Se eu pudesse não errar, voltava para trás”, disse o homem.

Adaptado de: g1.globo.com

5. (UEL 2020) Acerca do último parágrafo “O projeto é uma parceria da Universidade Federal de Sergipe com a prefeitura e delegacia da cidade de Lagarto. Começou há seis anos e, nesse tempo, foi registrado apenas um caso de feminicídio na cidade. Pelo grupo já passaram mais de 300 homens e muitas foram as lições. ‘Estou aprendendo várias coisas. Se eu pudesse não errar, voltava para trás’, disse o homem”, considere as afirmativas a seguir

I. O trecho “um caso de feminicídio” é complemento verbal nesse período.

II. O sujeito do verbo “começou” foi citado anteriormente: “projeto”.

III. O verbo “passaram” concorda com o sujeito “mais de 300 homens”.

IV. A expressão “as lições” é sujeito do verbo “foram”.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente as afirmativas I e II são corretas.

b) Somente as afirmativas I e IV são corretas.

c) Somente as afirmativas III e IV são corretas.

d) Somente as afirmativas I, II e III são corretas.

e) Somente as afirmativas II, III e IV são corretas.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: 

Por trás da “boa aparência”: o racismo em números no mercado.

“Precisa-se de moça de boa aparência para auxiliar de dentista. Rua Boa Vista, 11, primeiro andar.” 12anúncio publicado no Estado de São Paulo, em junho de 1914, 3contém uma expressão de uso bastante comum até 2006, quando foi proibida por 4viés discriminatório. Para 70% dos brasileiros, 5“boa aparência” não é apenas um código para cabelos lisos e pele clara, é um sintoma da discriminação racial ainda presente no 6país em que mais da metade da população se autodeclara negra.

“Precisamos refletir sobre o significado da compreensão de que vivemos em um país racialmente harmônico, que ainda está presente em nosso imaginário. Pela noção de democracia racial, dizemos que o racismo não existe e, se a população negra vive em desvantagem social, é porque não se esforçou o suficiente”, explica Giselle dos Anjos Santos, doutoranda em História Social pela USP e consultora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), organização pioneira na promoção da equidade racial e de gênero no mercado de trabalho no Brasil.

Na 7área de recrutamento e seleção por quase uma década, a ex-recrutadora Marion Caruso vivenciou de perto as 8inconsistências entre discurso e prática relacionadas __1__ aceitação racial dentro do mercado de trabalho. “Me pediam que não enviasse pessoas negras para as vagas porque tinham ‘cara de empregadinha’”. Com demandas como __2__ que Marion recebia, não é difícil imaginar por que a expectativa de que o Brasil alcance __3__ igualdade racial no mercado de trabalho é de 150 anos, 9segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Ethos em 2016.

Os números não param de alarmar. 10Ainda de acordo com o Ethos, embora 54% da população brasileira seja negra, eles ocupam apenas 5% dos cargos de liderança nas maiores empresas do país. Quando se fala em mulheres pretas e pardas em altos cargos de chefia, esse índice chega a menos de 1%. O espaço para homens e mulheres negros vai se 11afunilando conforme os cargos vão ficando cada vez mais altos: na base da pirâmide 12corporativa, os aprendizes negros chegam a ultrapassar os brancos.

Giselle explica que, ao longo da história, a sociedade brasileira se construiu nas bases do racismo. Daí a desigualdade e falta de oportunidades. “Todos os indicadores sociais refletem __4__ desigualdades colocadas”, explica a estudiosa. A mulher negra tem 50% mais chances de estar desempregada do que qualquer outro grupo da nossa sociedade. 13É fundamental que pensemos em ações afirmativas que venham no sentido de superar as desigualdades históricas.”

Mesmo que o número de estudantes negros nas universidades federais tenha triplicado na última década, garantindo a qualificação necessária para as vagas, a consultora e pesquisadora alerta que as barreiras começam muito antes do 14recrutamento. “Existe uma lógica de rede de informação e contato. Quando perguntados nos censos desenvolvidos pelo CEERT em diferentes instituições como ficaram sabendo de determinada vaga, os profissionais brancos respondem que souberam por parentes e amigos. 15A realidade é diferente para pessoas negras, cujos familiares geralmente trabalharam a vida toda no setor informal.” [...] 

Publicado em 23/08/19, por Nayara Fernandes, no portal de notícias R7. Disponível em: <https://noticias.r7.com/economia/por-tras-da-boa-aparencia-o-racismo-em-numeros-no-mercado-23082019>. Acesso em: 25 ago. 2019 (Texto adaptado para fins didáticos).

6. (IFSUL 2020) Se o período “O anúncio publicado no Estado de São Paulo, em junho de 1914, contém uma expressão de uso bastante comum até 2006, quando foi proibida por viés discriminatório”. (referência 1), fosse passado para o plural, sem alteração de sentido, qual das reformulações abaixo estaria correta?

a) Os anúncios publicados no Estado de São Paulo, em junho de 1914 contêm expressões de usos bastantes comuns até 2006, quando foram proibidas por vieses discriminatórios.

b) Os anúncios publicados no Estado de São Paulo, em junho de 1914, contêm expressões de uso bastante comum até 2006, quando foram proibidas por viés discriminatório.

c) Os anúncios publicados no Estado de São Paulo, em junho de 1914, contém expressões de uso bastante comum até 2006, quando foram proibidas por vieses discriminatórios.

d) Os anúncios publicados no Estado de São Paulo, em junho de 1914, contém expressões de uso bastante comum até 2006, quando foram proibidas por viés discriminatório 

Leia o texto abaixo para responder à(s) questão(ões) a seguir.

Só o ensino superior salva

Sou do tipo que chora. Batizado, casamento*, mas principalmente formatura. Como é bonita a chance e o cumprimento do estudo. Pra todo mundo, universal mesmo. 1Imagina a oportunidade a quem só poderia se formar em escola pública. De arrepiar. Por isso comemoro aqui o diploma de mais 423 alunos da URCA, a Universidade Regional do Cariri, conforme leio no site “Miséria”, o jornal da minha aldeia universalíssima. A festa foi nesta quinta (08/08) e haja 2orgulho na gente de pequenas cidades e da roça nos arredores da Chapada do Araripe. São 12,5 mil alunos nesta escola mantida pelo governo cearense.

Sou do tipo que chora com o ensino público e gratuito e a chance para quem vem lá do mato. Na formatura da 3URCA, haja primos, 4pense num povo metido, né, 5ave palavra, que orgulho enquadrado na parede. Pense numa “balbúrdia”, 6esse povo “lá de nós”, como na bendita 7linguagem caririense, 8formada em Artes Visuais, Biologia, Ciências Econômicas, Ciências Sociais, Direito, Enfermagem, Educação Física, Engenharia de Produção, Física, Geografia, História, Letras, Matemática, Pedagogia, Teatro e Tecnologia da Construção Civil. Pense!

E mais orgulhosamente ainda 9vos digo: a URCA, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 10viva o gênio Anísio Teixeira, tem a menor taxa de evasão universitária do Brasil, apenas 4,47%. Como a turma dá valor ao candeeiro iluminista sertões adentro. Choro um Orós inteiro e ainda derramo minhas lágrimas no Jaguaribe, rio 11que constava nos meus livros didáticos como o “rio mais seco do mundo”. 12Desculpa aí, hoje só 13venho 14com as grandezas.

Hoje, se eu pudesse, faria você também refletir com um discurso na linha do David Foster Wallace (1962-2008). Aquela sua fala como paraninfo de uma turma de formandos americanos do Kenyon College, em 2005, Gambier, Ohio. Ele escreveu uma singularíssima fábula sobre — 15repare só! — dois peixinhos e a água. Recomendo a leitura. O texto está no livro Ficando longe do fato de já estar meio que longe de 16tudo (Companhia das Letras).

De Ohio ao Cariri. Além da URCA, em 2013 conquistamos (nada é de graça) a UFCA, a brava Universidade Federal do Cariri. 17Era um facho, uma fogueira, era um candeeiro, era uma lamparina, era uma luminária a gás butano, fez-se a luz, pardon matriz iluminista, perdão Paris, mas o mundo e o futuro 18será de um certo Cariri que peleja, aprende a preservar e estuda, somos a própria ideia viva de Patrimônio Universal da Humanidade, só falta o referendo da Unesco — escuto os mestres do Reizado ao fundo, que batuque afro-indígena-futurista.

[...]

Só deixo o meu Cariri, no último pau-de-arara. Qual o quê, corri léguas rodoviárias, rumo ao Recife, a bordo da viação Princesa do Agreste, ainda no comecinho dos anos 1980. Espírito beatnik, por desejo e necessidade, deixei Juazeiro — onde morava —, o Crato de nascença, a Santana (Sítio das Cobras) afetiva de infância e a Nova Olinda das primeiras letras. Seria o primeiro representante do clã (risos rurais amarcodianos) dos Sá-Menezes-Freire-Novais, família meio pernambucana meio cearense, a chegar ao ensino superior. Um Xicobrás, diria, 100% escolha pública, do primário ao campus da UFPE. Hoje tenho uma penca de primos a cada nova formatura, sem precisar sequer sair dos arredores de casa.

E pensar que não havia a 19ideia de universidade no meu terreiro. Nada disso do que hoje comemoro com os formandos da URCA e UFCA. [...].

Só nos resta defender [...]. Sem sequer o direito ao 20VAR (olho no lance) da história. 21jmmmmmmmmmmmkk kkll l çnçççlllçlxsp. Eita, desculpa, caro leitor, pela incompreensão da escrita, é que minha filha Irene invadiu esta crônica — tentando ver a Pepa Pig — e dedilhou involuntariamente estas mal-traçadas linhas. [...]

Texto adaptado de Xico Sá, publicado em 10 ago. 2019.

 Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/10/opinion/1565450440_001442.html. Acesso em: 14 ago. 2019

* Os termos sublinhados neste texto representam hyperlinks no texto original publicado no sítio eletrônico do jornal El País. Conforme o dicionário Michaelishyperlink é, “no contexto da hipermídia e do hipertexto, endereço que aparece em destaque (geralmente sublinhado ou apresentado em uma cor diferente) e que, a um clique no mouse, permite a conexão com outro site”.

7. (IFSUL 2020) Qual alternativa está correta quanto às sintaxes de concordância e de regência?

a) O termo “formada” (referência 8) está flexionado no feminino singular para concordar com linguagem (referência 7).

b) A expressão “com as grandezas” (referência 14) é o objeto indireto que complementa o verbo transitivo indireto vir (referência 13).

c) O substantivo ideia (referência 19) possui adequadamente o complemento nominal introduzido pela preposição de.

d) O verbo ser (referência 18) deveria ter sido flexionado no plural para concordar com o sujeito composto.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: 

Precisamos falar sobre fake news

Minha mãe tem 74 anos e, como milhões de pessoas no mundo, faz uso frequente do celular. É com ele que, conversando por voz ou por vídeo, diariamente, vence a distância e a saudade dos netos e netas.

Mas, para ela, assim como para milhares e milhares de pessoas, o celular pode ser também uma fonte de engano. De vez em quando, por acreditar no que chega por meio de amigos no seu WhatsApp, me envia uma ou outra mensagem contendo uma fake news. A última foi sobre um suposto problema com a vacina da gripe que, por um momento, diferente de anos anteriores, a fez desistir de se vacinar.

Eu e minha mãe, como boa parte dos brasileiros, não nascemos na era digital. Nesta sociedade somos os chamados migrantes e, como tais, a tecnologia nos gera um certo estranhamento (e até constrangimento), embora nos fascine e facilite a vida.

Sejamos sinceros. Nada nem ninguém nos preparou para essas mudanças que revolucionaram a comunicação. Pior: é difícil destrinchar o que é verdade em tempo de fake news.

Um dos maiores estudos sobre a disseminação de notícias falsas na internet, publicado ano passado na revista "Science", foi realizado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, e concluiu que as notícias falsas se espalham 70% mais rápido que as verdadeiras e alcançam muito mais gente.

Isso porque as fake news se valem de textos alarmistas, polêmicos, sensacionalistas, com destaque para notícias atreladas a temas de saúde, seguidas de informações mentirosas sobre tudo. Até pouco tempo atrás, a imprensa era a detentora do que chamamos de produção de notícias. E os fatos obedeciam, a critérios de apuração e checagem.

O problema é que hoje mantemos essa mesma crença, quase que religiosa, junto a mensagens das quais não identificamos sequer a origem, boa parte delas disseminada em redes sociais. Confia-se a ponto de compartilhar, sem questionar.

O impacto disso é preocupante. Partindo de pesquisas que mostram que notícias e seus enquadramentos influenciam opiniões e constroem leituras da realidade, a disseminação das notícias falsas tem criado versões alternativas do mundo, da História, das Ciências "ao gosto do cliente", como dizem por aí.

Os problemas gerados estão em todos os campos. No âmbito familiar, por exemplo, vai de pais que deixam de vacinar seus filhos a ponto de criar um grave problema de saúde pública de impacto mundial. E passa por jovens vítimas de violência virtual e física.

No mundo corporativo, estabelecimentos comerciais fecham portas, profissionais perdem suas reputações e produtos são desacreditados como resultado de uma foto descontextualizada, uma Imagem alterada ou uma legenda falsa.

A democracia também se fragiliza. O processo democrático corre o risco de ter sua força e credibilidade afetadas por boatos. Não há um estudo capaz de mensurar os danos causados, mas iniciativas fragmentadas já sinalizam que ela está em risco.

Estamos em um novo momento cultural e social, que deve ser entendido para encontrarmos um caminho seguro de convivência com as novas formas e ferramentas de comunicação.

No Congresso Nacional, tramitam várias iniciativas nesse sentido, que precisam ser amplamente debatidas, com a participação de especialistas e representantes da sociedade civil.

O problema das fake news certamente passa pelo domínio das novas tecnologias, com instrumentos de combate ao crime, mas, também, pela pedagogia do esclarecimento.

O que posso afirmar, é que, embora não saibamos ainda o antídoto que usaremos contra a disseminação de notícias falsas em escala industrial, não passa pela cabeça de ninguém aceitar a utilização de qualquer tipo de controle que não seja democrático.

D.A., O Globo, em 10 de julho de 2019.

8. (COL. NAVAL 2020) No que se refere às normas da concordância verbal, observe as proposições.

I. Contra a disseminação de notícias falsas, tramitam, no Congresso Nacional, inúmeras iniciativas amplamente debatidas.

II. Nem o Congresso nem a justiça mensura os danos causados pelos boatos mentirosos e enganadores ao mundo corporativo.

III. Durante multo tempo, acreditou-se, sem questionar, nos meios de comunicação de massa, principalmente, nos jornais impressos.

IV. Hoje em dia, eu estou bem certo de que somos nós que devemos coibir a disseminação de notícias falsas em escala industrial.

As proposições que estão de acordo com as normas de concordância verbal são:

a) I e II.

b) II e III.

c) I, III e IV.

d) III e IV.

e) II, III e IV.


TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:



9. (COL. NAVAL 2020) Está de acordo com a norma padrão da língua a concordância do termo destacado no seguinte enunciado do texto: "Eu tenho muitos livros." Em que opção tal fato também ocorre?

a) A autora ficou meia preocupada com as críticas a seu novo livro.

b) Nos dias atuais, há bastante pessoas que admiram os novos escritores.

c) Uma boa leitura é necessário para passar o tempo rapidamente.

d) O autor enviou os próximos capítulos do livro anexos ao contrato.

e) A escritora mesmo participou da apresentação comentada de seu livro.

 

A(s) questão(ões) a seguir está(ão) relacionada(s) ao texto abaixo.

1Recebi consulta de um amigo que tenta 2deslindar segredos da língua para estrangeiros que querem aprender português. 3Seu problema: “se digo em uma sala de aula: ‘Pessoal, leiam o livro X’, como explicar a concordância? 4Certamente, não se diz 5‘Pessoal, leia o livro X’".

Pela pergunta, vê-se que não se trata de fornecer regras para corrigir eventuais problemas de padrão. Trata-se de entender um dado que ocorre regularmente, mas que parece oferecer alguma dificuldade de análise.

Em primeiro lugar, é óbvio que se trata de um pedido (ou de uma ordem) mais ou 6menos informal. Caso contrário, não se usaria a expressão “pessoal”, mas talvez “Senhores” ou “Senhores alunos”.

Em segundo lugar, não se trata da tal concordância ideológica, nem de silepse (hipóteses previstas pela gramática para explicar concordâncias mais ou menos excepcionais, que se devem menos a fatores sintáticos e mais aos semânticos; 7exemplos correntes do tipo “A gente fomos” e “o pessoal gostaram” se explicam por esse critério). Como se pode saber que não se trata de concordância ideológica ou de silepse? A resposta é que, 8nesses casos, o verbo se liga ao sujeito em estrutura sem vocativo, diferentemente do que acontece 9aqui. E em casos como “Pedro, venha cá”, “venha” não se liga a “Pedro”, 10mesmo que pareça que sim, porque Pedro não é o sujeito.

11Para tentar formular uma hipótese 12mais clara para o problema apresentado, 13talvez 14se deva admitir que o sujeito de um verbo pode estar apagado e, mesmo assim, produzir concordância. O ideal é que se mostre que o fenômeno não ocorre só com ordens ou pedidos, e nem só quando há vocativo. Vamos por partes: a) 15é normal, em português, haver orações sem sujeito expresso e, mesmo assim, haver flexão verbal. 16Exemplos 17correntes são frases como “chegaram e saíram em seguida”, que todos conhecemos das gramáticas; b) sempre que há um vocativo, em princípio, o sujeito pode não aparecer na frase. É o que ocorre em “meninos, saiam daqui”; mas o sujeito pode aparecer, pois 18não seria estranha a sequência “meninos, vocês se comportem”; c) 19se 20forem aceitas as hipóteses a) e b) (diria que são fatos), não 21seria estranho que a frase “Pessoal, leiam o livro X” pudesse ser tratada como se sua estrutura fosse “Pessoal, vocês leiam o livro x”. Se a palavra “vocês” não estivesse apagada, a concordância se explicaria normalmente; d) assim, o problema 22real não é a concordância entre “pessoal” e “leiam”, mas a passagem de “pessoal” a “vocês”, que não aparece na superfície da frase.

Este caso é apenas um, dentre tantos outros, que nos obrigariam a considerar na análise elementos que parecem não estar 23na frase, mas que atuam como se 24lá estivessem.

Adaptado de: POSSENTI, Sírio. Malcomportadas línguasSão Paulo: Parábola Editorial, 2009. p. 85-86.

10. (UFRGS 2019) Considere as seguintes afirmações sobre a síntese dos parágrafos do texto.

I. O primeiro parágrafo apresenta a problemática discutida pelo autor, a partir da dúvida de um amigo, sobre a concordância na língua portuguesa.

II. O segundo e o terceiro parágrafos apresentam discussão a respeito da preponderância dos aspectos sintáticos envolvidos na construção de pedidos e ordens em usos não padrão da língua.

III. O quinto parágrafo do texto enumera argumentos que permitem explicar o fenômeno gramatical da concordância em construções sem sujeito expresso.

Quais estão de acordo com o texto?

a) Apenas I.

b) Apenas II.

c) Apenas III.

d) Apenas I e III.

e) I, II e III. 

Para responder à(s) questão(ões) a seguir, leia o trecho do livro Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre.

Mas a casa-grande patriarcal não foi apenas fortaleza, capela, escola, oficina, santa casa, harém, convento de moças, hospedaria. Desempenhou outra função importante na economia brasileira: foi também banco. Dentro das suas grossas paredes, debaixo dos tijolos ou mosaicos, no chão, enterrava-se dinheiro, guardavam-se joias, ouro, valores. Às vezes guardavam-se joias nas capelas, enfeitando os santos. Daí Nossas Senhoras sobrecarregadas à baiana de teteias, balangandãs, corações, cavalinhos, cachorrinhos e correntes de ouro. Os ladrões, naqueles tempos piedosos, raramente ousavam entrar nas capelas e roubar os santos. É verdade que um roubou o esplendor e outras joias de São Benedito; mas sob o pretexto, ponderável para a época, de que “negro não devia ter luxo”. Com efeito, chegou a proibir-se, nos tempos coloniais, o uso de “ornatos de algum luxo” pelos negros.

Por segurança e precaução contra os corsários, contra os excessos demagógicos, contra as tendências comunistas dos indígenas e dos africanos, os grandes proprietários, nos seus zelos exagerados de privativismo, enterraram dentro de casa as joias e o ouro do mesmo modo que os mortos queridos. Os dois fortes motivos das casas-grandes acabarem sempre mal-assombradas com cadeiras de balanço se balançando sozinhas sobre tijolos soltos que de manhã ninguém encontra; com barulho de pratos e copos batendo de noite nos aparadores; com almas de senhores de engenho aparecendo aos parentes ou mesmo estranhos pedindo padres-nossos, ave-marias, gemendo lamentações, indicando lugares com botijas de dinheiro. Às vezes dinheiro dos outros, de que os senhores ilicitamente se haviam apoderado. Dinheiro que compadres, viúvas e até escravos lhes tinham entregue para guardar. Sucedeu muita dessa gente ficar sem os seus valores e acabar na miséria devido à esperteza ou à morte súbita do depositário. Houve senhores sem escrúpulos que, aceitando valores para guardar, fingiram-se depois de estranhos e desentendidos: “Você está maluco? Deu-me lá alguma cousa para guardar?”

Muito dinheiro enterrado sumiu-se misteriosamente. Joaquim Nabuco, criado por sua madrinha na casa-grande de Maçangana, morreu sem saber que destino tomara a ourama para ele reunida pela boa senhora; e provavelmente enterrada em algum desvão de parede. […] Em várias casas-grandes da Bahia, de Olinda, de Pernambuco se têm encontrado, em demolições ou escavações, botijas de dinheiro. Na que foi dos Pires d’Ávila ou Pires de Carvalho, na Bahia, achou-se, num recanto de parede, “verdadeira fortuna em moedas de ouro”. Noutras casas-grandes só se têm desencavado do chão ossos de escravos, justiçados pelos senhores e mandados enterrar no quintal, ou dentro de casa, à revelia das autoridades. Conta-se que o visconde de Suaçuna, na sua casa-grande de Pombal, mandou enterrar no jardim mais de um negro supliciado por ordem de sua justiça patriarcal. Não é de admirar. Eram senhores, os das casas-grandes, que mandavam matar os próprios filhos. Um desses patriarcas, Pedro Vieira, já avô, por descobrir que o filho mantinha relações com a mucama de sua predileção, mandou matá-lo pelo irmão mais velho.

(In: Silviano Santiago (coord.). Intérpretes do Brasil, 2000.)

11. (UNIFESP 2019) A forma verbal destacada deve sua flexão ao termo sublinhado em:

a) Deu-me lá alguma cousa para guardar?” (2º parágrafo)

b) Sucedeu muita dessa gente ficar sem os seus valores e acabar na miséria devido à esperteza ou à morte súbita do depositário.” (2º parágrafo)

c) Desempenhou outra função importante na economia brasileira: foi também banco.” (1º parágrafo)

d) “os grandes proprietários, nos seus zelos exagerados de privativismo, enterraram dentro de casa as joias e o ouro do mesmo modo que os mortos queridos.” (2º parágrafo)

e) “Às vezes dinheiro dos outros, de que os senhores ilicitamente se haviam apoderado.” (2º parágrafo)

Leia o texto para responder à(s) questão(ões) a seguir.

MOVIMENTOS SOCIAIS: BREVE DEFINIÇÃO

Em linhas gerais, o conceito de movimento social se refere à ação coletiva de um grupo organizado que objetiva alcançar mudanças sociais por meio do embate político, conforme seus valores e ideologias, dentro de uma determinada sociedade e de um contexto específicos, 1permeados por tensões sociais. Os movimentos sociais podem objetivar a mudança, a transição ou mesmo a revolução de uma realidade hostil a certo grupo ou classe social. Constroem uma identidade para a defesa de seus interesses, sejam eles a luta por um algum ideal ou o questionamento de uma realidade que se caracterize como impeditivo à realização de seus anseios. Tornam-se porta-vozes de um grupo de pessoas que se encontra numa mesma situação, seja social, econômica, política, religiosa, entre outras. Gianfranco Pasquino, em sua contribuição ao Dicionário de Política (2004), organizado por ele, Norberto Bobbio e Nicolau Mateucci, 2afirma que os movimentos sociais constituem tentativas – pautadas em valores comuns àqueles que compõem o grupo – de definir formas de ação social para se alcançar determinados resultados.

Por outro lado, conforme aponta Alain Touraine, na obra Em defesa da Sociologia (1976), para se compreender os movimentos sociais, mais do que pensar em valores e crenças comuns para a ação social coletiva, seria necessário considerar as estruturas sociais nas quais os movimentos se manifestam. Cada sociedade ou estrutura social 3teriam como cenário um contexto histórico (ou historicidades) 4no qual, assim como também apontava Karl Marx, estaria posto um conflito entre classes, terreno das relações sociais, a depender dos modelos culturais, políticos e sociais. Assim, os movimentos sociais fariam explodir os conflitos já postos pela estrutura social (geradora por si só da contradição entre as classes), sendo uma ferramenta fundamental para a ação com fins de intervenção e mudança dessa estrutura.

Dessa forma, para além das instituições democráticas como os partidos, as eleições e o parlamento, a existência dos movimentos sociais 5é de fundamental importância para a sociedade civil enquanto meio de manifestação e reivindicação. Podemos citar como alguns exemplos de movimentos: o da causa operária, o movimento negro (contra racismo e segregação racial), o movimento estudantil, o movimento de trabalhadores do campo, o movimento feminista, os movimentos ambientalistas, os da luta contra a homofobia, os separatistas, os movimentos marxista, socialista, comunista, entre outros. Alguns desses movimentos possuem atuação centralizada em algumas regiões (como no caso de movimentos separatistas na Europa). Outros, porém, com a expansão do processo de globalização (tanto do ponto de vista econômico como cultural) e a disseminação de meios de comunicação e veiculação da informação, rompem fronteiras geográficas em razão da natureza de suas causas, ganhando adeptos por todo o mundo, a exemplo do Greenpeace, movimento ambientalista de forte atuação internacional.

A existência de um movimento social requer uma organização muito bem desenvolvida, o que demanda a mobilização de recursos e pessoas muito 6engajadas. Os movimentos sociais não se limitam a manifestações públicas esporádicas, mas trata-se de organizações que sistematicamente atuam para alcançar seus objetivos políticos, o que significa haver uma luta constante e de longo prazo, dependendo da natureza da causa. Em outras palavras, os movimentos sociais possuem uma ação organizada de caráter permanente por uma determinada 7bandeira.

RIBEIRO, Paulo Silvino. Movimentos sociais: breve definição. Brasil Escola. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/movimentos-sociais-breve-definicao.htm>. Acesso em: 22 set. 2018 (adaptado). 

12. (IFPE 2019) Analise alguns fragmentos do texto e marque a alternativa que contém uma afirmação verdadeira sobre o fenômeno da concordância verbo-nominal presente em cada um deles.

a) No trecho “Cada sociedade ou estrutura social teriam como cenário um contexto histórico” (ref. 3 – segundo parágrafo), o verbo sublinhado poderia ser flexionado no singular, já que a conjunção “ou” implica na ideia de exclusão de um dos núcleos nominais do sujeito.

b) No trecho “afirma que os movimentos sociais constituem tentativas” (ref. 2 – primeiro parágrafo), o verbo sublinhado concorda com um sujeito elíptico.

c) No trecho “o que demanda a mobilização de recursos e pessoas muito engajadas” (ref. 6 – quarto parágrafo), o adjetivo sublinhado vai para o feminino plural, concordando com os núcleos nominais “mobilização” e “pessoas”.

d) No trecho “a existência dos movimentos sociais é de fundamental importância para a sociedade civil” (ref. 5 – terceiro parágrafo), o verbo admite o plural, concordando com o adjunto adnominal “dos movimentos sociais”.

e) No trecho “dentro de uma determinada sociedade e de um contexto específicos, permeados por tensões sociais” (ref. 1 – primeiro parágrafo), o adjetivo sublinhado vai para o masculino plural, concordando com os núcleos nominais “sociedade” e “contexto”.

Leia o fragmento, a seguir, retirado do livro Clara dos Anjos, de Lima Barreto, e responda.

Cassi Jones, sem mais percalços, se viu lançado em pleno Campo de Sant’Ana, no meio da multidão que jorrava das portas da Catedral, cheia da honesta pressa de quem vai trabalhar. A sua sensação era que estava numa cidade estranha. No subúrbio tinha os seus ódios e os seus amores; no subúrbio, tinha os seus companheiros, e a sua fama de violeiro percorria todo ele, e, em qualquer parte, era apontado; no subúrbio, enfim, ele tinha personalidade, era bem Cassi Jones de Azevedo; mas, ali, sobretudo do Campo de Sant’Ana para baixo, o que era ele? Não era nada. Onde acabavam os trilhos da Central, acabava a sua fama e o seu valimento; a sua fanfarronice evaporava-se, e representava-se a si mesmo como esmagado por aqueles “caras” todos, que nem o olhavam. [...]

Na “cidade”, como se diz, ele percebia toda a sua inferioridade de inteligência, de educação; a sua rusticidade, diante daqueles rapazes a conversar sobre cousas de que ele não entendia e a trocar pilhérias; em face da sofreguidão com que liam os placards dos jornais, tratando de assuntos cuja importância ele não avaliava, Cassi vexava-se de não suportar a leitura; comparando o desembaraço com que os fregueses pediam bebidas variadas e esquisitas, lembrava-se que nem mesmo o nome delas sabia pronunciar; olhando aquelas senhoras e moças que lhe pareciam rainhas e princesas, tal e qual o bárbaro que viu, no Senado de Roma, só reis, sentia-se humilde; enfim, todo aquele conjunto de coisas finas, de atitudes apuradas, de hábitos de polidez e urbanidade, de franqueza no gastar, reduziam-lhe a personalidade de medíocre suburbano, de vagabundo doméstico, a quase cousa alguma.

BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Rio de Janeiro: Garnier, 1990. p. 130-131.

13. (UEL 2019) Em relação aos recursos linguísticos presentes no texto, assinale a alternativa correta.

a) Em “ele percebia toda a sua inferioridade de inteligência, de educação; a sua rusticidade”, o ponto e vírgula é usado para enumeração dos complementos do termo “inferioridade”.

b) No trecho “e, em qualquer parte, era apontado”, a palavra “apontado” está no masculino para concordar com “subúrbio”.

c) No fragmento “Onde acabavam os trilhos da Central”, o verbo está no plural para concordar com seu complemento “trilhos”.

d) Em “acabava a sua fama e o seu valimento”, o verbo está no singular para concordar com o sujeito “Campo de Sant’Ana”.

e) Em “tinha os seus companheiros, e a sua fama de violeiro”, a vírgula é utilizada para separar sujeitos diferentes.

14. (UFSC 2018)

“Quando você se transformou...”

“Nisso?! Nessa coisa?”

“Não foi isso que...”

1Há duas maneiras de lidar com o desejo: ou você apaga com o extintor, que é o que as pessoas geralmente fazem, ou você deixa o fogo se alastrar. Eu resolvi me incendiar.”

“Mas você tinha um bom emprego...”

“Um bom emprego? Jornalista? Em Mendoza? É tudo prostituição, meu caro, tudo, uns vendem o corpo, outros a cabeça, alguns seu tempo, é tudo putaria [...].”

SCHROEDER, Carlos Henrique. As fantasias eletivas. Rio de Janeiro: Record, 2014, p. 50.

Considerando o texto, o romance As fantasias eletivas, de Carlos Henrique Schroeder, e o romance Lucíola, de José de Alencar, bem como o contexto sócio-histórico e literário, é correto afirmar que:

01) no texto, pode-se perceber o momento da narrativa em que Ratón, retrato do homem que sofre desgraças na vida, revela-se homofóbico e preconceituoso em relação à ocupação de Sebastián Hernández.

02) a exemplo da cortesã Lúcia, protagonista do romance Lucíola, de José de Alencar, Copi ingressa muito jovem na prostituição com o propósito de auxiliar no sustento de sua família, que vive na cidade de Mendoza, Argentina.

04) para a travesti Copi, existe o entendimento amplo acerca da ideia de prostituição, que pode ser encarada como uma forma de troca e de favor nas relações interpessoais, não se restringindo ao âmbito sexual.

08) para a personagem Copi, as fotografias são as fantasias eletivas, antecipadas no título do livro, porque são responsáveis por imortalizar o tempo e recortar uma realidade, a da solidão e da singularidade das coisas.

16) é possível perceber duas experiências em relação à fotografia da menina sentada sobre os trilhos do trem: a do sujeito que fotografa (Copi), que descreve suas impressões a Renê antes de fotografar a menina, e a do sujeito fotografado (a menina), cuja sensação de ser observada é revelada pelo narrador no final do romance.

32) os romances As fantasias eletivas e Lucíola abordam a temática da prostituição em centros urbanos e comparam dois momentos históricos: o Rio de Janeiro do século XIX e a cidade de “Bregário Camboriú” dos tempos atuais.

64) em “ duas maneiras” (ref. 1), o verbo haver tem sentido existencial, podendo ser substituído por “existe” sem ferir a norma culta da língua escrita.

15. (ACAFE 2018) Sobre concordância verbal e concordância nominal, assinale a afirmativa correta.

a) Na frase “O governo brasileiro extinguiu a Renca (Reserva Nacional de Cobre e Associados) para que possa ser melhor exploradas nessa área os recursos naturais e outras fontes renováveis de energia”, a falta de concordância será sanada se a expressão “os recursos naturais” for substituída por “jazidas minerais”.

b) Na frase “Os fatos apontados pelos órgãos de controle indicam que podem ter havido irregularidades na gestão dos projetos financiados com recursos públicos”, todos os verbos estão flexionados de acordo com a norma padrão da língua portuguesa.

c) A frase “Os ingredientes que encomendava era o mesmo semanalmente, razão por que seria de imaginar que fosse suficiente para a fermentação de cinquenta litros de cerveja” apresenta desvios da norma padrão quanto à concordância nominal, mas não há desvios da norma padrão quanto à concordância verbal.

d) Na frase “Estima-se que, em Portugal, cerca de dois terços dos cães tenham sido infectados com o parasita denominado Leishmania infantum nos últimos anos, embora muitos deles não manifestem a doença”, os verbos “tenham” e “manifestem” concordam com os respectivos sujeitos na terceira pessoa do plural.

 

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:


16. (EPCAR 2018) Sobre a tirinha da Mafalda, assinale a alternativa que apresenta uma análise INCORRETA.

a) O segundo quadrinho apresenta uma quebra de expectativa em relação ao que expressa o adjetivo presente no primeiro.

b) O uso do pronome demonstrativo “este”, no primeiro quadrinho, justifica-se por se referir a algo que ainda vai ser apresentado no próximo quadrinho.

c) O vocábulo “droga”, terceiro quadrinho, passou pelo processo de derivação imprópria e, no contexto, apresenta-se como interjeição.

d) Se substituirmos o pronome “nós”, no sexto quadrinho, por “as crianças”, o verbo poderá ser flexionado na primeira pessoa do plural.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: 

MAIS QUE ORWELL, HUXLEY PREVIU NOSSO TEMPO

Hélio Gurovitz

Publicado em 1948, o livro 1984, de George Orwell, saltou para o topo da lista dos mais vendidos (...) 1A distopia de Orwel, mesmo situada no futuro, tinha um endereço certo em seu tempo: o stalinismo. (...) 2O mundo da “pós-verdade”, dos “fatos alternativos” e da anestesia intelectual nas redes sociais mais parece outra distopia, publicada em 1932: Admirável mundo novo, de Aldous Huxley.

3Não se trata de uma tese nova. Ela foi levantada pela primeira vez em 1985, num livreto do teórico da comunicação americano Neil Postman: Amusing ourselves to death (4Nos divertindo até morrer), relembrado por seu filho Andrew em artigo recente no The Guardian. “Na visão de Huxley, não é necessário nenhum Grande Irmão para despojar a população de autonomia, maturidade ou história”, escreveu Postman. “Ela acabaria amando sua opressão, adorando as tecnologias que destroem sua capacidade de pensar. Orwell temia aqueles que proibiriam os livros. Huxley temia que não haveria motivo para proibir um livro, pois não haveria ninguém que quisesse lê-los. Orwell temia aqueles que nos privariam de informação. Huxley, aqueles que nos dariam tanta que seríamos reduzidos à passividade e ao egoísmo. 5Orwell temia que a verdade fosse escondida de nós. Huxley, que fosse afogada num mar de irrelevância.”

6No futuro pintado por Huxley, (...) não há mães, pais ou casamentos. O sexo é livre. A diversão está disponível na forma de jogos esportivos, cinema multissensorial e de uma droga que garante o bem-estar sem efeito colateral: o soma. Restaram na Terra dez áreas civilizadas e uns poucos territórios selvagens, onde 7grupos nativos ainda preservam costumes e tradições primitivos, como família ou religião. “O mundo agora é estável”, diz um líder civilizado. “As pessoas são felizes, têm o que desejam e nunca desejam o que não podem ter. Sentem-se bem, estão em segurança; nunca adoecem; 8não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice; não se acham sobrecarregadas de pais e mães; 9não têm esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer emoções violentas; são condicionadas de tal modo que praticamente não podem deixar de se portar como devem. E se, por acaso, alguma coisa andar mal, há o soma.”

10Para chegar à estabilidade absoluta, foi necessário abrir mão da arte e da ciência. “A felicidade universal mantém as engrenagens em funcionamento regular; a verdade e a beleza são incapazes de fazê-lo”, diz o líder. “Cada vez que as massas tomavam o poder público, era a felicidade, mais que a verdade e a beleza, o que importava.” A verdade é considerada uma ameaça; a ciência e a arte, perigos públicos. Mas não é necessário esforço totalitário para controlá-las. Todos aceitam de bom grado, fazem “qualquer sacrifício em troca de uma vida sossegada” e de sua dose diária de soma. “Não foi muito bom para a verdade, sem dúvida. Mas foi excelente para a felicidade.”

No universo de Orwell, a população é controlada pela dor. No de Huxley, pelo prazer. “Orwell temia que nossa ruína seria causada pelo que odiamos. Huxley, pelo que amamos”, escreve Postman. Só precisa haver censura, diz ele, se os tiranos acreditam que o público sabe a diferença entre discurso sério e entretenimento. (...) O alvo de Postman, em seu tempo, era a televisão, que ele julgava ter imposto uma cultura fragmentada e superficial, incapaz de manter com a verdade a relação reflexiva e racional da palavra impressa. 11O computador só engatinhava, e Postman mal poderia prever como celulares, tablets e redes sociais se tornariam – bem mais que a TV – o soma contemporâneo. Mas suas palavras foram prescientes: “O que afligia a população em Admirável mundo novo não é que estivessem rindo em vez de pensar, mas que não sabiam do que estavam rindo, nem tinham parado de pensar”.

Adaptado, Revista Época nº 973 – 13 de fevereiro de 2017, p. 67.

Distopia = Pensamento, filosofia ou processo discursivo caracterizado pelo totalitarismo, autoritarismo e opressivo controle da sociedade, representando a antítese de utopia.

 (BECHARA, E. Dicionário da língua portuguesa. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2011, p. 533).

17. (EPCAR (AFA) 2018) Tendo como base o que prescreve a norma culta padrão da Língua Portuguesa, assinale a alternativa cuja análise está correta.

a) “Nos divertindo até morrer” (ref. 4) apresenta uma colocação pronominal adequada, pois, além de ser a tradução de um nome próprio, o gerúndio não admite ênclise.

b) Em “...grupos nativos ainda preservam costumes e tradições primitivos...” (ref. 7), o adjetivo poderia estar no feminino para concordar com o último elemento, já que está posposto a ele.

c) O termo sublinhado em “... não têm esposas, nem filhos, nem amantes por quem possam sofrer...” (ref. 9) poderá ser substituído por os quais e não acarretará alteração sintática nem semântica na sentença.

d) Em “... não têm medo da morte; vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice...” (ref. 8) os termos sublinhados exercem a mesma função sintática: adjuntos adnominais dos substantivos a que se referem.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO: 

Noruega como Modelo de Reabilitação de Criminosos

O Brasil é responsável por uma das mais altas taxas de reincidência criminal em todo o mundo. No país, a taxa média de reincidência (amplamente admitida, mas nunca comprovada empiricamente) é de mais ou menos 70%, ou seja, 7 em cada 10 criminosos voltam a cometer algum tipo de crime após saírem da cadeia.

Alguns perguntariam "Por quê?". E eu pergunto: "Por que não?" O que esperar de um sistema que propõe reabilitar e reinserir aqueles que cometerem algum tipo de crime, mas nada oferece, para que essa situação realmente aconteça? Presídios em estado de depredação total, pouquíssimos programas educacionais e laborais para os detentos, praticamente nenhum incentivo cultural, e, ainda, uma sinistra cultura (mas que diverte muitas pessoas) de que bandido bom é bandido morto (a vingança é uma festa, dizia Nietzsche).

Situação contrária é encontrada na Noruega. Considerada pela ONU, em 2012, o melhor país para se viver (1º no ranking do IDH) e, de acordo com levantamento feito pelo Instituto Avante Brasil, o 8º país com a menor taxa de homicídios no mundo, lá o sistema carcerário chega a reabilitar 80% dos criminosos, ou seja, apenas 2 em cada 10 presos voltam a cometer crimes; é uma das menores taxas de reincidência do mundo. Em uma prisão em Bastoy, chamada de ilha paradisíaca, essa reincidência é de cerca de 16% entre os homicidas, estupradores e traficantes que por ali passaram. Os EUA chegam a registrar 60% de reincidência e o Reino Unido, 50%. A média europeia é 50%.

A Noruega associa as baixas taxas de reincidência ao fato de ter seu sistema penal pautado na reabilitação e não na punição por vingança ou retaliação do criminoso. A reabilitação, nesse caso, não é uma opção, ela é obrigatória. Dessa forma, qualquer criminoso poderá ser condenado à pena máxima prevista pela legislação do país (21 anos), e, se o indivíduo não comprovar estar totalmente reabilitado para o convívio social, a pena será prorrogada, em mais 5 anos, até que sua reintegração seja comprovada.

O presídio é um prédio, em meio a uma floresta, decorado com grafites e quadros nos corredores, e no qual as celas não possuem grades, mas sim uma boa cama, banheiro com vaso sanitário, chuveiro, toalhas brancas e porta, televisão de tela plana, mesa, cadeira e armário, quadro para afixar papéis e fotos, além de geladeiras. Encontra-se lá uma ampla biblioteca, ginásio de esportes, campo de futebol, chalés para os presos receberem os familiares, estúdio de gravação de música e oficinas de trabalho. Nessas oficinas são oferecidos cursos de formação profissional, cursos educacionais, e o trabalhador recebe uma pequena remuneração. Para controlar o ócio, oferecer muitas atividades, de educação, de trabalho e de lazer, é a estratégia.

A prisão é construída em blocos de oito celas cada (alguns dos presos, como estupradores e pedófilos, ficam em blocos separados). Cada bloco tem sua cozinha. A comida é fornecida pela prisão, mas é preparada pelos próprios detentos, que podem comprar alimentos no mercado interno para abastecer seus refrigeradores.

Todos os responsáveis pelo cuidado dos detentos devem passar por no mínimo dois anos de preparação para o cargo, em um curso superior, tendo como obrigação fundamental mostrar respeito a todos que ali estão. Partem do pressuposto que, ao mostrarem respeito, os outros também aprenderão a respeitar.

A diferença do sistema de execução penal norueguês em relação ao sistema da maioria dos países, como o brasileiro, americano, inglês, é que ele é fundamentado na ideia de que a prisão é a privação da liberdade, e pautado na reabilitação e não no tratamento cruel e na vingança.

O detento, nesse modelo, é obrigado a mostrar progressos educacionais, laborais e comportamentais, e, dessa forma, provar que pode ter o direito de exercer sua liberdade novamente junto à sociedade.

A diferença entre os dois países (Noruega e Brasil) é a seguinte: enquanto lá os presos saem e praticamente não cometem crimes, respeitando a população, aqui os presos saem roubando e matando pessoas. Mas essas são consequências aparentemente colaterais, porque a população manifesta muito mais prazer no massacre contra o preso produzido dentro dos presídios (a vingança é uma festa, dizia Nietzsche). 

LUIZ FLÁVIO GOMES, jurista, diretor-presidente do Instituto Avante Brasil e coeditor do Portal atualidadesdodireito.com.br. Estou no blogdolfg.com.br.

** Colaborou Flávia Mestriner Botelho, socióloga e pesquisadora do Instituto Avante Brasil.

FONTE: Adaptado de http://institutoavantebrasil.com.br/noruega-como-modelo-de-reabilitacao-de-criminosos/.

Acessado em 17 de março de 2017.

18. (ESPCEX (AMAN) 2018) Assinale a alternativa em que o emprego do verbo "haver" está correto.

a) Haverá nove dias que ela visitou os pais.

b) Brigavam à toa, sem que houvessem motivos.

c) Criaturas infalíveis nunca houve nem haverão.

d) Não ligue, caso hajam desavenças entre vocês.

e) Morávamos ali há quase cinco anos.

TEXTO PARA A PRÓXIMA QUESTÃO:

Limites da manipulação genética

Nos últimos anos, a possibilidade de manipulação genética de seres humanos se tornou tecnicamente real, o que levou à publicação de vários manifestos da comunidade científica internacional contra o uso da técnica em embriões, óvulos e espermatozoides humanos. 1Não aceitamos alterações genéticas que possam ser transmitidas às próximas gerações. Apesar disso, cientistas chineses publicaram um trabalho descrevendo a criação de embriões humanos geneticamente modificados! 2Abrimos a Caixa de Pandora?

Ainda não. Os pesquisadores chineses só testaram o quão segura a técnica é de fato em embriões humanos – afinal, se um dia pudéssemos, por exemplo, corrigir a mutação no gene do câncer de mama, interromperíamos a herança genética familiar e os filhos não correriam o risco de herdar a doença.

Se temos algo a ganhar com a técnica, não vale a pena testá-la? 3Sim, mas existe uma linha muito tênue entre ousadia e irresponsabilidade, e o desenvolvimento científico não pode cruzá-la. Assim, para ficar do lado de cá dessa fronteira, foram usados embriões defeituosos de fertilização in vitro4Neles foram injetadas pequenas moléculas construídas para consertar um gene que, quando "mutado", causa uma forma grave de anemia. Dos 54 embriões analisados, somente quatro tinham o gene corrigido... Além disso, eles também tinham alterações genéticas em outros locais não planejados do genoma – 5ou seja, a tal molécula muitas vezes erra o seu alvo...

6Em resumo, o trabalho demonstrou que a técnica de edição de genoma é ineficiente e insegura para se utilizar em embriões humanos – exatamente o que 7a comunidade científica previa e questionava, com o objetivo de que esse procedimento não fosse feito em embriões humanos.

8O que não significa que as pesquisas nesse sentido devam ser interrompidas. Se tivéssemos proibido as pesquisas em transplante cardíaco em 1968, quando 80% dos pacientes transplantados morriam, 9nunca teríamos tornado esse procedimento uma realidade que hoje em dia salva muitas vidas. 10Cientistas seguirão aprimorando a técnica para torná-la mais eficiente e segura. Porém, essas pesquisas devem ser conduzidas de forma absolutamente ética – aliás, todas as pesquisas devem ser conduzidas assim; mas, quando envolvem embriões humanos,

mais ainda.

E enquanto nós, cientistas, resolvemos os aspectos técnicos, conclamamos legistas, psicólogos, sociólogos e a população em geral para discutir as vantagens e os riscos de usar a tecnologia de edição do genoma em seres humanos. Para pesquisar ou para evitar doenças como câncer e Alzheimer? Sim. 11E para que o bebê nasça com olhos azuis, mais inteligente, mais alto? Não. Em que situações permitiremos sua aplicação?

12Um cenário que, há 15 anos, era ficção científica agora é tão real que devemos discuti-lo urgentemente. No Brasil, já estamos precavidos: a Lei de Biossegurança de 2005 proíbe "engenharia genética em célula germinal humana, zigoto humano e embrião humano". Talvez um dia tenhamos que rever o texto 13para considerar casos específicos em que essa engenharia genética possa ser feita. Mas, por enquanto, estamos protegidos – que orgulho!

PEREIRA, L. O Globo. Opinião. 12 maio 2015. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/opiniao/limites-da-manipulacao-genetica-16125529>. Acesso em: 20 jun. 2017. Adaptado.

19. (FMP 2018) A concordância da forma verbal em destaque está de acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa em:

a) Não basta, na opinião das autoridades, oportunidades de trabalho para o jovem se desenvolver, mas é preciso oferecer escolaridade a todos.

b) Crescem continuamente, de acordo com as estatísticas, os percentuais de comércio nacional e internacional por meio da rede.

c) Acredita-se que a profusão de informações e a amplitude de acesso a elas está forjando uma geração mais inteligente.

d) Consta da programação da Feira Literária Internacional de Paraty vários títulos a serem lançados sobre o escritor Lima Barreto.

e) Contribuíram para o aumento da expectativa de vida da humanidade o crescimento das pesquisas científicas e tecnológicas.

20. (ACAFE 2017) Assinale a frase em que o(s) verbo(s) concorda(m) com o sujeito em pessoa e número.

a) Assim que se concluiu a apuração dos votos, verificou-se que 2/3 do eleitorado votaram em branco ou anularam o voto.

b) Com toda certeza, algumas coisas erradas haviam, sobretudo diante de algumas indagações que se fazia diante dos resultados inesperados.

c) Para diversas obras importantes em Santa Catarina destinou-se recursos no próximo orçamento, mas penso que os recursos não deve chegar a tempo de serem concluídas no até 2018.

d) Não se faz mais brincadeiras como no meu tempo de guri; hoje em dia, o que mais se vê é crianças trancadas em casa brincando de videogame, acessando smartphone ou vendo TV.

21. (IFPE 2016) Leia o texto para responder à questão.

Acauã

Luiz Gonzaga

Acauã, acauã vive cantando

Durante o tempo do verão

No silêncio das tardes agourando

Chamando a seca pro sertão

Chamando a seca pro sertão

Acauã,

Acauã,

Teu canto é penoso e faz medo

Te cala acauã,

Que é pra chuva voltar cedo

Que é pra chuva voltar cedo

Toda noite no sertão

Canta o João Corta-pau

A coruja, mãe da lua

A peitica e o bacurau

Na alegria do inverno

Canta sapo, gia e rã

Mas na tristeza da seca

Só se ouve acauã

Só se ouve acauã

Acauã, Acauã...

 

Julgue as proposições, a seguir, quanto às relações sintático-semânticas estabelecidas tanto dentro de um mesmo período quanto entre os períodos constantes no texto.

 I. No trecho “Te cala acauã” (nono verso), deveria ser acrescentada uma vírgula antes de “acauã”, uma vez que essa palavra desempenha o papel de vocativo.

II. No verso “A coruja, mãe da lua”, a vírgula foi utilizada, justamente, para isolar o aposto “mãe da lua”.

  III. Por se tratar de sujeito composto, seria provocado um erro de concordância se, em “Canta o João Corta-pau / A coruja, mãe da lua / A peitica e o bacurau”, fosse pluralizado verbo.

  IV. Em “Na alegria do inverno / Canta sapo, gia e rã”, deveria ser acrescentada uma vírgula depois de “inverno” para isolar um adjunto adverbial.

  V. No verso “Mas na tristeza da seca”, a conjunção foi utilizada para estabelecer uma relação de concessão com os dois versos anteriores.

     São verdadeiras as afirmativas

a) II, IV e V.

b) I, III e V.

c) I, II e IV.

d) II, III e IV.

e) I, II, III, IV e V.

22. (FUVEST 2015)

Tornando da malograda espera do tigre, 1alcançou o capanga um casal de velhinhos, 2que seguiam diante dele o mesmo caminho, e conversavam acerca de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jão Fera 3que destinavam eles uns cinquenta mil-réis, tudo quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um moquirão*, com que pretendiam abrir uma boa roça.

- Mas chegará, homem? perguntou a velha.

- Há de se espichar bem, mulher!

Uma voz os interrompeu:

- Por este preço dou eu conta da roça!

- Ah! É nhô Jão!

Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava destinado para o roçado.

Acompanhou-os Jão Fera; porém, 4mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa, que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados.

ALENCAR, José de. Til.

* moquirão = mutirão (mobilização coletiva para auxílio mútuo, de caráter gratuito).

Considere os seguintes comentários sobre diferentes elementos linguísticos presentes no texto:

I. Em “alcançou o capanga um casal de velhinhos” (ref. 1), o contexto permite identificar qual é o sujeito, mesmo este estando posposto.

II. O verbo sublinhado no trecho “que seguiam diante dele o mesmo caminho” (ref. 2) poderia estar no singular sem prejuízo para a correção gramatical.

III. No trecho “que destinavam eles uns cinquenta mil-réis” (ref. 3), pode-se apontar um uso informal do pronome pessoal reto “eles”, como na frase “Você tem visto eles por aí?”.

Está correto o que se afirma em

a) I, apenas.

b) II, apenas.

c) III, apenas.

d) I e II, apenas.

e) I, II e III.

23. (ESPCEX 2014) Marque a única alternativa em que o emprego do verbo haver está correto.

a) Todas as gotas de água havia evaporado.

b) Elas se haverão comigo, se mandarem meu primo sair.

c) Não houveram quaisquer mudanças no regulamento.

d) Amanhã, vão haver aulas de informática durante todo o período de aula.

e) Houveram casos significativos de contaminação no hospital da cidade.

24. (ESPCEX 2014) Assinale a alternativa em que a palavra bastante(s) está empregada corretamente, de acordo com a norma culta da Língua.

a) Os rapazes eram bastantes fortes e carregaram a caixa.

b) Há provas bastante para condenar o réu.

c) Havia alunos bastantes para completar duas salas.

d) Temos tido bastante motivos para confiar no chefe.

e) Todos os professores estavam bastantes confiantes.

25. (CPS 2014)

Musa paradisíaca

Hoje, na quitanda, vi duas donas de casa pondo as mãos na cabeça: “Trinta e seis 1cruzeiros por uma dúzia de bananas! É o fim do mundo, onde já se viu uma coisa dessas!”

E a conversa continuava nesse tom. Mas eu fui e paguei prazerosamente o preço de um cacho dourado. Tudo está pela hora da morte, concordo. Mas banana não! Acho que nunca a banana será cara demais para mim, e eu conto por quê.

Para mim, a banana é bem mais que aquela fruta amarela, perfumada, de polpa alva, macia e saborosa, que se apresenta numa abundância nababesca em cachos e pencas. O aspecto, o sabor, o perfume da banana estão indissoluvelmente associados com minha infância longínqua na terra nórdica de onde eu vim, nas praias do Mar Báltico.

Naquele tempo, naquele lugar, uma banana era uma novidade e uma raridade. Numa certa época do ano, ela aparecia na cidade, em algumas casas muito finas, solitária e formosa, exposta na vitrina. Solitária, sim – uma de cada vez. E uma banana custava uma quantia fabulosa, porque meu pai comprava mesmo uma só, e a trazia para casa onde ela era admirada e namorada durante horas, para depois ser solenemente descascada e repartida em partes milimetricamente iguais entre nós crianças, que a saboreávamos lentamente, conservando o bocadinho de polpa suave na boca o mais possível, com pena de engoli-lo.

Imaginem, pois, o meu espanto maravilhado ao desembarcar do navio no porto de Santos e dar de cara com todo um carregamento de bananas, cachos e mais cachos enormes, num exagero de abundância que só em contos de fadas!

Naquele dia, me empachei de bananas até quase estourar. Foi aos dez anos de idade, a minha primeira grande impressão gastronômica do Trópico de Capricórnio – e nunca mais me refiz dela. Até hoje sou fiel ao meu primeiro amor brasileiro – a banana.

Se eu fosse poeta, como Pablo Neruda, por exemplo, que escreveu 2Ode à cebola, eu escreveria uma Ode à banana.

E não estou sozinha neste meu entusiasmo pela mais brasileira das frutas, porque se eu não tivesse razão, os cientistas, que não são as pessoas mais sentimentais do mundo, não a teriam batizado com o nome poético de Musa paradisíaca.

(BELINKI, Tatiana. Olhos de ver. São Paulo: Moderna, 1996. Adaptado)

 

1 cruzeiro: moeda utilizada no Brasil à época em que a crônica foi escrita

2 ode: poema de exaltação, de elogio

 

Leia as frases reescritas a partir do texto e assinale a alternativa em que o verbo em destaque está corretamente empregado de acordo com a gramática normativa.

a) A escritora relata que se mantêm fiel ao seu primeiro amor brasileiro.

b) As porções de banana era saboreadas prazerosamente pelas crianças.

c) Em Riga, havia mercearias finas que exibiam bananas e outras frutas na vitrina.

d) Necessitavam-se de trinta e seis cruzeiros para se comprar uma dúzia de bananas.

e) Estavam visível, nas docas do porto de Santos, um enorme carregamento de banana




















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