Memórias de um Sargento de Milícias - Análise da Obra

     O romance surgiu em folhetins da Pacotilha, suplemento político-literário do Correio Mercantil, entre 27 de junho de 1852 e 31 de julho de 1853, o autor assinou-o como Um Brasileiro. Somente em 1854 e 1855 foi lançado em livro, em dois volumes.
     Provavelmente o autor valeu-se da convivência com as camadas mais humildes da população carioca do século XIX para construir o universo social da obra.
    Memórias de um sargento de milícias difere da maioria dos romances românticos, pois apresenta uma série de procedimentos que fogem ao padrão da prosa romântica. O protagonista não é herói de acordo com o modelo idealizado do Romantismo, mas um malandro simpático que leva uma vida de pessoa comum; não há idealização da mulher, da natureza ou do amor, sendo reais as situações retratadas; a linguagem aproxima-se da jornalística, deixando de lado a excessiva metaforização que caracteriza a prosa romântica.
     O público leitor da época, ainda acostumado ao sentimentalismo piegas, não poderia aceitar um romance que rompia com o tipo de narrativa praticado no período. Um romance que antecipava formas realistas no momento em que a literatura padrão era a de Joaquim Manuel de Macedo. Por isto mesmo, Memórias de um Sargento de Milícias permaneceu como a obra mais adulta e envolvente da época. A crítica ao Romantismo é evidente tanto no enredo como na ironia direta do narrador. Esse se diverte não apenas com os personagens, mas também com os românticos em geral:
“Tratava-se de uma cigana; o Leonardo a vira pouco tempo depois da fuga da Maria, e das cinzas ainda quentes de um amor mal pago nascera outro que também não foi a este respeito melhor aquinhoado; mas o homem era romântico, como se diz hoje, e babão, como se dizia naquele tempo; não podia passar sem uma paixãozinha.”
OS COSTUMES
     Desde o início da obra é proposta como uma narrativa de costumes. “Era no tempo do rei” – assim começa o livro, deflagrando um processo de realismo exato e minucioso dos usos, hábitos sociais e das figuras típicas do Brasil do tempo do rei, isto é, no Brasil de D. João VI. Que, aliás não apresentava grande diferença do Brasil do autor.
     Trata-se de um realismo tão minucioso, tão detalhado, tão corriqueiro que, às vezes, os personagens parecem existir apenas para pôr em evidência os costumes da época. Muitos são os costumes arrolados pelo cronista: procissões e vida religiosa, festas, danças, músicas, a organização policial e administrativa.
As chamadas Baianas não usavam de vestido; traziam somente umas poucas de saias presas à cintura, e que chegavam pouco abaixo do meio da perna, todas elas ornadas de magníficas rendas; da cintura para cima apenas traziam uma finíssima camisa, cuja gola e mangas eram também ornadas de renda; ao pescoço punham um cordão de ouro ou um colar de corais, os mais pobres eram de miçangas; ornavam a cabeça com uma espécie de turbante a que davam o nome de trunfas, formado por um grande lenço branco muito teso e engomado; calçavam umas chinelinhas de salto alto, e tão pequenas, que apenas continham os dedos dos pés, ficando de fora todo o calcanhar; e além de tudo isto envolviam-se graciosamente em uma capa de pano preto, deixando de fora os braços ornados de argolas de metal simulando pulseiras.”
      Ao lado disso existe um enredo, uma sequência de situações, em que se percebe o talento do romancista. Essas situações, quase sempre cômicas, são unificadas pelo personagem Leonardo, que é acompanhado, pelo autor, em seu nascimento: “ filho de uma pisadela e de um beliscão”., infância adolescência e início da idade adulta até o ingresso na milícia.
            Talvez o aspecto mais revolucionário da narrativa seja a construção do personagem central. Leonardo é uma espécie de marginal, vadio e meio estúpido:
“Como sempre acontece a quem tem muito onde escolher, o pequeno, a quem o padrinho queria fazer clérigo mandando-o a Coimbra, a quem a madrinha queria fazer artista metendo-o na Conceição, a quem D. Maria queria fazer rábula arranjando-o em algum cartório, e a quem enfim cada conhecido ou amigo queria dar um destino que julgava mais conveniente às inclinações que nele descobria, o pequeno, dizemos, tendo tantas coisas boas, escolheu a pior possível: nem foi para Coimbra, nem para a Conceição, nem para cartório algum; não fez nenhuma destas coisas, nem também outra qualquer: constituiu-se um completo vadio, vadio-mestre, vadio-tipo.”
        Isto subverte o sistema literário do folhetim, que exige heróis excepcionais, e subverte os próprios valores da sociedade. A vida de Leonardo se dá na dimensão da malandragem, como diz Antônio Cândido. E quando Leonardo esgota todas as possibilidades de aventura picarescas, só lhe resta o casamento e o emprego como soldado. No Romantismo, o casamento é o começo da felicidade: em Memórias de um sargento de milícias é o fim de tudo. O último parágrafo do livro possui um tom crepuscular e amargo:
“Daqui em diante aparece o reverso da medalha. Seguiu-se a morte de Dona Maria, a do Leonardo Pataca, e uma enfiada de acontecimentos tristes que pouparemos aos leitores, fazendo aqui o ponto final.”
      A amargura não se encontra tanto na morte de personagens, e sim na morte da aventura, da malandragem que impossibilita a continuação da narrativa.
 ANÁLISE DA MORAL SOCIAL
     Além dos costumes sociais, a narrativa apresenta, paralelamente, uma análise crítica e irônica dos costumes morais, compreensível se utilizarmos o esquema que Antônio cândido aplicou n romance:
ORDEM                      X                     DESORDEM
                       LEONARDO               –               agente principal da desordem
                 MAJOR VIDIGAL       –               agente principal da ordem.
     Ora, o relato constrói o antagonismo entre ambos até a última página. Mas, eis que nelas, o Major Vidigal aceita dar um poso ao malandro Leonardo dentro das milícias, em troca dos favores amorosos de Maria Regalada: e o marginal passa a sargento. Assim, não há diferença entre ORDEM e DESORDEM, MORALIDADE e AMORALIDADE, pois é muito fácil passar de um lado a outro. Trata-se do desmascaramento que o autor de Memórias de um sargento de milícias faz da sociedade brasileira. Nenhuma idealização permeia o texto. Veja a descrição de Vidinha:
“Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita como de movediça e leve: um soprozinho, por brando que fosse, a fazia voar, outro de igual natureza a fazia revoar, e voava e revoava na direção de quantos sopros por ela passassem…”
        Observe: o autor não a julga. Ele conhece o relativismo de toda a moral. E neste borrar  as fronteiras entre a moralidade e a amoralidade, entram todos os protagonistas. Inclusive aquele que mais se aproximaria dos arquétipos românticos: o Compadre. Ele rouba a fortuna de um capitão de navio, constituindo o seu me arranjei (capítulo IX do romance) sem que qualquer culpa ou remorso o inquietassem posteriormente. No desmascaramento moral reside a essência do realismo de Manuel Antônio de Almeida.
   Um realismo que teve os seus limites: o desmascaramento não ocorre através de análises psicológicas, à maneira de Machado de Assis, e sim através de humor rápido imprevisto, sem refinamento. O avesso das coisas é sempre anedótico. Assim:
  • um padre cujo único assunto nos sermões é a pureza corpora.
  • O padre é preso em trajes menores acompanhado de uma cigana.
  • A pisadela e o beliscão: declaração de interesse amoroso, contrariando a idealização do amor proposta pelo Romantismo.
  • Os ajustes matrimoniais.
  • A castidade duvidosa dos padres.
  • As atividades das parteiras, tema prosaico para o Romantismo.
  • O uso da palmatória.
  • O agregado, aquele que vivia em uma família de favor, retratado por Machado de Assis em Dom Casmurro com a personagem José Dias.
  • A relação social do “jeitinho”, do favor e da ajuda.
  • Os favorecimentos na administração pública diretamente relacionados à atuação da policia daquela época, representada por Major Vidigal.
LINGUAGEM
     A linguagem utilizada pelo autor foge à regra dos romances produzidos no  período romântico, que tinham tom ostentoso. Manuel Antônio de Almeida de modo original e até audacioso ara a época serviu-se do coloquialismo: linguagem sem artificialismo.
FLUXO NARRATIVO
         Como foi dito a Memórias de um sargento de milícias foi publicado semanalmente, em fascículos. O fato de lançar um capítulo a cada sete dias, no total 48 capítulos ao final de treze meses, exige que seu autor estabeleça algumas estratégias na condução da narrativa. É preciso, por exemplo, crias expectativas em relação aos capítulos seguintes, assim como, em determinados momentos, resgatar os acontecimentos do capítulo anterior para que os leitores conseguissem se situar, dado esse que pode causar um estranhamento àquele que entra em contato com a obra já em forma de livro.
      Do mesmo modo, não é difícil perceber o ritmo acelerado da narrativa. Podemos exemplificar tal constatação com as seguintes do livro:
  • Leonardo é despedido da ucharia;
  • ao relatar o acontecimento pra a namorada Vidinha, esta vai tirar satisfações da mulher do Toma-Largura, enquanto Leonardo, ainda do lado de fora da casa é preso pelo Major Vidigal;
  • o Toma-Largura encanta com a moça e a segue de longe pra saber onde mora;
  • logo; começam a namorar;
  • a família da moça resolve então fazer uma festa. Toma-Largura, alegre que estava, bebe demais e faz voar sobre a cabeça dos convidados pratos, garrafas, copos e tudo o mais;
  • eis que surge o Major Vidigal e ordena a um de seus homens que detenha o bêbado;
  • qual não é a surpresa de todos ao reconhecerem no granadeiro o malando Leonardo.
FOCO NARRATIVO
        A obra é narrada em terceira pessoa, o que contraria o título – “memórias”, pois é uma narrativa, a exemplo de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, é em primeira pessoa. O narrador se classifica como observador, entretanto ele se vale da ironia, sátira e também interfere e faz observações sobre o próprio ato de narrar.
ESPAÇO
     O espaço onde transcorre a história, não é convencional para a época, trata-se da periferia do Rio de Janeiro, lugar habitado por comadres fuxiqueiras, barbeiro, gente simples.
 TEMPO
      Apesar de se tratar de memórias de fatos ocorridos no início do século XIX, elas sequem a linha do tempo,
ENREDO
       A narrativa é situada na época de D. João VI no início do século XIX, quando se muda para o Brasil o meirinho Leonardo Pataca – pai de Leonardo, o protagonista da história.
       No navio, Leonardo Pataca conhece Maria das Hortaliças, quitandeira das praças de Lisboa, e a engravida, sete meses depois nasce o menino Leonardo, “filho de uma pisadela e de um beliscão”, personagem principal do romance. Já no Brasil, após o nascimento e o batizado de Leonardo Filho, Maria é flagrada pelo marido com outro homem e foge para Portugal. Com a separação do casal, Leonardo é amparado pela madrinha, a parteira, e criado pelo padrinho, barbeiro.
       As travessuras da infância se verificarão também na juventude. Do romance com Luisinha, que o troca por José Manuel, às graças com Vidinha, ao casamento com a viúva Luisinha; de prisioneiro do Major Vidigal, a granadeiro, soldado de linha e, finalmente, sargento de milícias, o que se pode observar é uma série de malandragens que norteia a história do começo ao final. Leonardo é o centro da narrativa e serve tanto para a concatenação de outras personagens e ações da obra quanto para a descrição de tipos, ambientes e costumes da sociedade carioca do começo do século XIX.
PERSONAGENS
   De camadas inferiores, como os meirinhos – espécie de oficial da justiça – barbeiro, parteira, saloia, algibebe, ciganos, padre, polícia, comadres e compadres, destacam-se:
LEONARDO PATACA: pai do personagem principal. Português, foi aprendiz de alfaiate  algibebe – pessoa que fabrica roupas de qualidade inferior e as vende). Cansado da profissão, veio para o Brasil ganhar a vida como meirinho ( oficial de justiça ) da rua do Ouvidor.
MARIA DA HORTALIÇA: mãe de Leonardo, o filho. Vendedora nas praças de Lisboa; no navio em que vinha para o Brasil, conhece Leonardo-Pataca.
LEONARDO: personagem principal do romance e é apresentado na narrativa como herói pícaro ou picaresco  – o anti-herói.
MAJOR VIDIGAL: personagem histórica real, que a mando do rei D. João VI, mantinha a ordem no reino, reprimindo bagunças e vagabundagens dos moços do Rio de Janeiro. No romance representa a ordem, temido por todos. Ele representa a própria lei: dita normas, executa, faz cumprir, prende solta.
COMADRE: madrinha do protagonista. Parteira, compõe a galeria de tipos humanos que o autor apresenta em sua narrativa; tipos comuns, pessoas que encontramos a qualquer momento, em qualquer lugar.
COMPADRE: barbeiro e tocador de Rebeca. Após os pais de Leonardo se separarem, ele cria o menino. Sua origem é obscura, não se lembra dela. Ganhava a vida como barbeiro, aprendido o ofício do homem que o criara. Era tido como médico, porque sangrava os doentes em um navio negreiro.
MARIA: senhora rica, tia e tutora de Luisinha, a amada de Leonardo.
LUISINHA: afilhada de D. Maria e antes de ficar com Leonardo casa-se com José Manuel.
JOSÉ MANUEL: rival de Leonardo, caça-dotes que fareja em Luisinha uma saída para seu futuro.
MARIA-REGALADA: amada de major Vidigal, responsável, juntamente com a comadre, por tirara Leonardo da cadeia e que prometendo morar com Vidigal, abre caminho para transformar, mais tarde, o protegido em sargento das milícias.
CHIQUINHA: filha da comadre e segunda esposa de Leonardo-Pataca.
VIDINHA: toca violão, canta modinhas, com quem Leonardo vive por uns tempos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
       Como se pôde perceber, as personagens do romance são, absolutamente, diferentes de tudo quanto se denominou personagem romântica, o realismo de Manuel Antônio de Almeida não se esgota nas linhas meio caricaturais com que define uma variada galeria de tipos populares. Seu valor reside, principalmente em ter captado, pelo fluxo narrativo, uma das marcas da vida na pobreza que é a perpétua sujeição à necessidade, sentida de modo fatalista como o destino de cada um. O esforço para driblar as condições adversas e a avidez em gozar os intervalos de boa sorte impelem as personagens, principalmente o anti-herói Leonardo, “filho de uma pisadela e um beliscão”, para a roda viva de mentiras em busca de um emprego, entremeado com farras e aventuras, que dão motivo ao romancista para fazer entrar em cena tipos e costumes. (A. BOSI)
        A narrativa tem um tom humorístico, por isso não há idealização das personagens, graças à observação direta e objetiva. Presença das camadas inferiores da população – barbeiros, comadres, parteiras, meirinhos, saloias, designação pela ocupação que as mesmas exercem.
       Rompe a tensão BEM X MAL, HEÓI X VILÃO, típica do Romantismo. Os personagens não são heróis nem vilões, praticam o bem e o mal, impulsionados pelas necessidades de sobrevivência.
        Leonardo Pataca é o primeiro alandro da Literatura Brasileira. Apontado por Mário de Andrade como personagem picaresco. A crítica mais recente vem modificando essa visão, inserindo Leonardo Pataca na dialética ORDEM X DESORDEM, e no desmascaramento das mazelas de uma sociedade caracterizada pela risonha hipocrisia, pela acomodação através do jeitinho, pelo empreguismo e favorecimento ilícito.
FONTE:
BOSI, Alfredo. História concisa da Literatura Brasileira. 3ª ed. São Paulo: Cultrix LTDA.
GONZAGA, Sergius. Manual de Literatura Brasileira. 5ª ed. Mercado Aberto
Compartilhe no Google Plus

Sobre Portal do Vestibulando

O objetivo do site é fornecer material didático a todas as pessoas que buscam ampliar seus conhecimentos, vestibulandos ou não. Assim, caso você precise de algum material específico, entre em contato conosco para que possamos disponibilizar.