Vidas Secas (Graciliano Ramos) - Análise da Obra

– Graciliano Ramos, um homem de seu tempo:


A vida de um artista interessa na proporção em que ela interfere em sua obra. No caso em questão, importa e muito, pois o autor de Vidas Secas revelou-se um homem devidamente antenado com seu mundo e os dramas que vivenciou. Graciliano Ramos, alagoano, nasceu em Quebrângulo, passou parte da infância em Buíque, PE, voltando a Alagoas, depois de violenta seca, para morar em Palmeira dos Índios, onde o pai dedicou-se ao comércio. Concluiu o ensino médio em Maceió, foi para o Rio de Janeiro, exercendo o jornalismo por algum tempo. Voltou a Alagoas, quando uma epidemia que matou seus três irmãos. Casado duas vezes, oito filhos, elegeu-se prefeito em 1928, tomando decisões inusitadas, como usar os presos na construção de estradas. Investiu em saúde e educação, mas teve o mandato cassado em 1930. De volta a Maceió, foi professor, diretor de instrução pública. Preso em 1936, acusado pelo governo Vargas de subversivo, experiência que valeu o consagrado livro Memórias do Cárcere. Solto por interferência dos amigos, radicou-se no Rio de Janeiro, como inspetor federal de ensino. Filiou-se em 1945 ao PCB, visitou países da Europa comunista, narrando as impressões no livro Viagem. Faleceu no Rio de janeiro em 1953.
– O autor e sua obra:
Graciliano Ramos publicou três romances em primeira pessoa – Caetés, 1933, São Bernardo, 1934, e Angústia, 1938 – um em terceira pessoa – Vidas Secas, 1938 – dois livros de contos – A Terra dos Meninos Pelados, 1939, e Alexandre e Outros Heróis, 1962, póstumo – dois livros de memórias – Infância, 1945, e Memórias do Cárcere, 1953 – e Viagem, impressões de sua passagem pela Europa, também póstumo em 1954.
– Vidas Secas na Literatura Brasileira:
Situado na Segunda Fase Modernista, o momento de consolidação do movimento iniciado em 1922, em São Paulo, com a Semana de Arte Moderna, Graciliano Ramos foi o mais expressivo autor do período. Compõe o grupo denominado de Regionalismo Nordestino, que produziu o Romance de 30, que tem como marco inicial A Bagaceira, de José Américo de Almeida, de 1928. Este grupo caracterizou-se pelo retrato realista dos problemas sociais do Nordeste, dando-lhes dimensão universal, encontrando no romance o gênero discursivo adequado a seus objetivos, por sua dimensão mais ampla. Ao lado de obras Fogo Morto, de José Lins do Rego, O Quinze, de Rachel de Queirós, e Capitães da Areia, de Jorge Amado, Vidas Secas representa o ponto alto do grupo, ao fazer do drama do retirante nordestino o drama do indivíduo em um mundo injusto, marcado pela exploração, pela miséria, pela dificuldade de interação tanto com outros indivíduos como com outros grupos sociais, por sua condição de pobreza e isolamento. Problemas que não são exclusivos do nordestino, mas observáveis na periferia dos grandes centros urbanos, no drama dos imigrantes latinos nos Estados Unidos e dos africanos na Europa. A miséria humana não conhece fronteira, e a trajetória da família de Vidas Secas ilustra essa verdade.
– Vidas Secas: o enredo:
Narrados em terceira pessoa, os treze capítulos que compõem Vidas Secas representam os dramas de uma família de retirantes nordestinos entre o fim de uma seca – Capítulo I/Mudança – e o início de outra – Capítulo XIII/Fuga. Entre o primeiro e o último capítulos, o leitor percorre as angústias de personagens aparentemente insignificantes e percebe a grandeza humana de seus conflitos. O segundo capítulo apresenta Fabiano, o patriarca, homem rude, trabalhador, ignorante, no sentido literal do termo, queimado pelo sol do sertão e embrutecido pela aspereza da caatinga. Fabiano tem pouco domínio da linguagem, encontra dificuldades nos diálogos com a esposa, Sinhá Vitória, e com os filhos, não encontra argumentos diante de pessoas que representam autoridade, o Soldado Amarelo, ou o poder econômico, o proprietário da fazenda em que mora e trabalha. Na verdade, ele se comunica melhor com os animais do que com seres humanos. Lembra-se de seu Tomás da Bolandeira, que conhecera no passado, senhor com domínio pleno da linguagem. Gostaria de falar bonito como ele, sente inveja, mas constata que falar bonito não livrou seu Tomás da seca. Preocupa-se com o futuro dos filhos, não gostaria de vê-los no trabalho braçal como ele, vislumbra- os na escola, para isso pensa em mudar-se para a cidade.
O quadro da família se completa nos capítulos Capítulo IV/ Sinhá Vitória, Capítulo V/O menino mais novo, Capítulo VI/O menino mais velho e Capítulo IX/Baleia. Sinhá Vitória, a mãe, dona de casa, cuida dos animais domésticos e dos meninos. Menos limitada que o marido, sabe fazer contas, não de forma verbal, mas com grãos, mas também não consegue interagir com sua família. Acha que o marido se enrola nos raciocínios e dirige-se aos filhos apenas para dar ordens. Sonha com uma cama de couro, como a de seu Tomás da Bolandeira, pois dorme em uma cama de varas. Os capítulos V e VI trazem o perfil dos meninos. Os dois não são nominados no romance. São o Menino mais novo e o Menino mais velho. O fato de em nenhum momento os pais se dirigirem a eles pelo nome reflete o não domínio da linguagem, a dificuldade de interação da família. O Menino mais novo nutre grande admiração pelo pai. Gostaria de ser como ele, peão, campeando o gado pela caatinga. Decepciona-se, por não conseguir imitar o pai. O Menino mais velho guarda uma mágoa da mãe. Curioso ao ouvir a palavra inferno em uma conversa de Sinhá Vitória com Sinhá Terta. Pergunta à mãe o significado, ela fala de um lugar quente, cheio de espetos. Não satisfeito, vai ao pai que manda ele arredar. Volta a mãe, indaga de novo, ouve a mesma resposta, não satisfeito insiste e leva um cascudo da mãe que o acha insolente. Lembra constantemente do fato, sentindo ainda dor na cabeça. No Capítulo IX, o leitor vive o drama da cachorra Baleia. A cadela mata a fome da família no primeiro capítulo, quando chegam à fazenda abandonada pela seca, caçando um preá. Ajuda Fabiano a campear o gado, brinca com os meninos, espanta os bichos que ameaçam a criação. Ela faz parte da família, de certa forma mais importante, porque mais útil, que os meninos, o que justifica o fato de ela ser nominada e eles não. No capítulo a que dá título, ela aparece com sintomas de raiva, fato que preocupa Sinhá Vitória e Fabiano, levando este à decisão de matá-la, para evitar que transmita a doença aos meninos. Sua morte, como se fosse um membro da família, pela humanização que o narrador lhe confere, é o momento com maior carga dramática do romance.
Nos Capítulos III/Cadeia, Capítulo X/Contas e XI/O soldado amarelo, o narrador coloca Fabiano em confronto com a vida urbana com o poder econômico e com a arbitrariedade da polícia. Em Cadeia, Fabiano bebe, e o Soldado Amarelo o atrai para o baralho. Fabiano perde, sente-se roubado, passa pelo soldado na rua, e este pisa-lhe o pé com o coturno. A reação instintiva de Fabiano vale-lhe uma surra e a prisão. À noite, na cadeia, o sertanejo rumina sua raiva, pensa em matar o soldado, em entrar para o cangaço e vingar-se, mas a lembrança da família o traz de volta à realidade. Humilhado, volta para casa. No Capítulo X/Contas, Fabiano vai à casa do patrão para o acerto de contas. O contrato com o fazendeiro dá a ele porcentagem das crias de vacas e cabras de que cuida. Como ele cultiva o mínimo, por causa das condições do solo, constantemente ele precisa de adiantamento para comprar o necessário à sobrevivência da família. Traz consigo as contas feitas por Sinhá Vitória, que sempre divergem dos cálculos do patrão. O sertanejo sempre deve. De nada vale sua tentativa de demonstrar o contrário. Irrita o patrão com seu questionamento e, de novo, tem de abaixar a cabeça e voltar humilhado para casa, diante da ameaça do patrão de manda-lo embora. No Capítulo XI, reencontra o Soldado Amarelo, agora na caatinga. Os papéis se invertem. Fabiano está em seu mundo, vê o soldado pequeno, insignificante, com medo. O desejo é mata-lo, mas consegue raciocinar, pensando na inutilidade do ato. O problema é mais amplo, o soldado é só o representante do Estado. Se for morto, outros virão. Pensa também na família, informa o caminho ao soldado e vai cuidar do gado.
Os Capítulos VII/Inverno e VIII/Festa trazem dois momentos singulares da narrativa. Em Inverno, termo que designa o período de chuva no interior do Brasil, a família está reunida à noite em torno do fogo da fornalha. Não conversam, mas o calor do fogo reflete o calor do momento de calor familiar. Ironicamente, Baleia não participa da confraternização. Em Festa, a família vai à cidade comemorar o natal, obrigação cristã, segundo Fabiano. Situação tragicômica, justificada pela dificuldade de Fabiano com as botinas novas, de Sinhá Vitória com o vestido novo e pelo comportamento do grupo na igreja. As crianças não compreendem os hinos, Fabiano sente-se oprimido pelas pessoas que lotam a igreja, parece perder a mulher e os filhos. A angústia diminui ao fim da celebração. A família vai para a praça, há brinquedos e jogos. Os meninos brincam, Fabiano bebe e joga. Não se observa, porém, interação com a cidade, com as outras pessoas. Os meninos ficam perdidos, sentados na calçada, extasiados com as luzes e a multidão. Sinhá Vitória e Baleia juntam-se a eles. Fabiano chega bêbado, dorme. É um quadro patético.
O penúltimo capítulo, O mundo coberto de penas, anuncia a volta da seca. As aves de arribação, a vegetação seca, o gado definha. Fabiano coça a cabeça, ouve Sinhá Vitória. Não há saída. Sem dar satisfação ao patrão, até porque tinha dívidas com ele, Fabiano salga a carne de uma rês, Sinhá Vitória reúne os poucos pertences da família, e vão-se repetindo a sina. O último capítulo retoma a cena do primeiro. O grupo de retirantes cumprindo sua sina. Assim como no primeiro, Sinhá Vitória sentia a falta do papagaio que não resistira à seca, agora sente falta da cachorra Baleia. Fabiano reflete a condição dos meninos, pensa na cidade e em um mundo melhor para eles, com escola e a perspectiva de uma vida digna. Fecha o livro com essa possibilidade em aberto.
– Vidas Secas: considerações finais:
Na Segunda Fase Modernista, 1930 a 1945, a principal produção em prosa se encontra nas produções do Regionalismo Nordestino, o Romance de 30. Estas produções se caracterizam pela ambientação regional, confirmada na paisagem, na linguagem, na cultura e nos problemas sociais e econômicos do Nordeste. Mas o caráter regional serve de pano de fundo para a representação de dramas universais. A paisagem é regional, o tema é universal. Vidas Secas talvez seja o melhor exemplo dessa Literatura. O romance de Graciliano Ramos foca o drama do sertanejo nordestino, face a sua vida de miséria, à seca, mas confere ao problema regional um olhar universal. A obra aborda acima de qualquer outro aspecto a miséria e a exploração humanas.
O Romance de 30 resgata aspectos do Realismo e do Naturalismo. Do primeiro, retoma o caráter documental, o compromisso com a realidade dos fatos, a visão analítica. Do segundo, permanece o Determinismo, a visão fatalista de que o meio condiciona o comportamento do indivíduo. Mas Vidas Secas renova essas características. Enquanto o Realismo-Naturalismo dava importância maior ao meio, às circunstâncias externas ao indivíduo, Graciliano Ramos centra-se nos seres humanos, em seus conflitos internos e com a realidade exterior. Predomina a angústia de personagens que buscam uma identidade em um mundo que lhes é cruel. A abordagem da dificuldade de interação da família com outros indivíduos, com outros grupos sociais, também é temática típica do século XX, do movimento modernista. A interação interpessoal e intersocial se dá pelo domínio de linguagem. Como a família de Fabiano vive em condições de isolamento, devido a sua condição de vaqueiro, a interação é quase inexistente, o contato com a linguagem é mínimo, intensificando a miséria e a insignificância dos personagens.
O não domínio de linguagem do grupo justifica o foco narrativo em terceira pessoa, pois seria incoerente algum dos personagens ser o narrador do livro, se os pais nem denominam os filhos, e os meninos não têm acesso a escola. Este aspecto se reflete na linguagem trabalhada pelo autor na construção da obra. Na fala do narrador, o padrão da linguagem é a norma culta, revelando o distanciamento do enunciador em relação ao que é enunciado, distanciamento que permite análise mais objetiva. Ao reproduzir a fala dos personagens, o narrador fixa a limitação deles, são falas mínimas, grunhidos, onomatopeias. Por isso o romance evidencia muito o discurso indireto livre, a dificuldade dos personagens de se manifestar verbalmente é traduzida pelo narrador que reproduz o pensamento dos mesmos.
O romance reflete o contato do autor com as produções artísticas de seu mundo. A cena de abertura do romance, a família, a seca, a caatinga, é marcadamente impressionista, com as imagens fugidias, manchadas, modificadas pela luz do sol. A abordagem da miséria humana, do indivíduo oprimido pelo meio, pelo poder econômico, pelo Estado, associa o livro ao Expressionismo, tanto que não tem como falar de Vidas Secas sem se referir ao diálogo que o livro mantém com série Os Retirantes do pintor Cândido Portinari. A concisão da linguagem, enxuta, seca, como convém ao tema abordado, reflete a modernidade do romance, reforçada pela crítica tecida nas ironias sutis ao olhar comum, observadas no nome, ou falta dele, dos personagens: Sinhá Vitória, Fabiano/o que planta favas, como também no contraste entre Fabiano, vermelho, e a esposa, mulata, ela mais consciente que ele.
Vidas Secas é um dos mais significativos romances de nossa Literatura e merece não apenas ser lido, mas discutido em todas as esferas da sociedade. Livro lúcido, de agudo senso crítico, de forte influência em outros autores e obras, o romance apresenta apenas um pecado: o problema que ele aborda continuar atual.
Disponível em Guia de Linguagens
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