Afinal, a Arte tem Valor?

Tania Regina Rossetto  

Em uma aula de Arte, quando discutíamos o valor da Arte Moderna, um estudante do Ensino Médio afirmou: “Se eu pudesse juntaria todas essas obras de Arte e faria uma grande fogueira, pois para mim elas não têm valor algum”. E para você, a Arte denominada de “Moderna” tem valor? Qual é esse valor?  

Um pouco de Arte

São tantos os acontecimentos que a vida parece passar diante dosnossos olhos tão rapidamente que, além de nos deixar atordoados, deixa-nos também sem tempo para pensar. Por exemplo, você tem o
costume de olhar para o céu? Ou acha que isso é perda de tempo? Sabe quando é lua cheia, ainda conta estrelas e procura figuras nas nuvens? Ou isso é coisa de criança ou de quem não tem o que fazer?

Agora, se você prestar atenção nos programas de TV verá que a maioria aborda assuntos relacionados a catástrofes, escândalos políticos, rebeliões, mortes, seqüestros, tráfico, pobreza, violência! Fatos do cotidiano que nos causam medo e nos paralisam.

Enfim, diante desse cenário fica difícil falar de arte. Como falar às pessoas que cantem, que dancem ou que se maravilhem com o pôr-do-sol? Que se emocionem com o cantar dos pássaros, que vejam a beleza das flores e que pensem nos sonhos da infância?

Pois é, diante dessa realidade conturbada, pode parecer loucura falar de Arte. Aliás, se vemos a arte como beleza, podemos nos perguntar: qual arte alguém é capaz de produzir diante desse quadro de horrores? Qual beleza é possível representar? Mas, será que os artistas só
representam coisas belas em suas pinturas?
  

Observe, por exemplo, O Grito, de Edvard Munch.  



O que significa essa expressão, deformada pelo desespero, do personagem do centro que parece levar o eco do grito a todos os cantos? O que ele pode estar gritando? E você já gritou desesperadamente? Por quê? Sua expressão de alguma forma se assemelhou à expressão do Grito de Munch? Gritamos apenas por desespero ou existem outras situações que nos fazem gritar?

Nessa obra de Munch podemos quase tocar o medo com as nossas mãos ou sentí-lo na própria pele. Nesse quadro vemos uma das maiores representações do medo humano. Por isso, essa imagem já foi utilizada em campanhas anti-aborto, em camisetas, anúncios e pôsteres sempre com o intuito de despertar uma reflexão sobre o verdadeiro valor da vida. Realmente, essa obra mexe com nossos sentimentos, mas, por quê?

Primeiro somos levados pelo movimento das linhas, das cores vibrantes e da deformação no rosto da figura. Na verdade, o pintor passou para a tela uma sensação, uma paisagem interior, expressa desta
forma por Edward Munch: “Léguas de fogo e sangue se estendiam pelo forde negro-azulado. Meus amigos seguiram caminho enquanto eu me detive, apoiando-me num corrimão, tremendo de medo – e senti o guincho enorme, infinito da natureza”. (...) Veja, 23 de fevereiro,1994, p. 105.

O
Grito de Munch traduz o grito da natureza humana, um horizonte conturbado por uma das maiores e mais antigas sensações humanas: o medo. Para Edvard Munch, a arte não devia representar o mundo das aparências, e sim o mundo interior das pessoas. A paisagem natural é substituída por uma paisagem interior que mais parecia um turbilhão de emoções como podemos observar em sua obra “O Grito”.

Expressionismo: a emoção à flor da pele!

Essa forma de pintar era a marca registrada dos pintores expressionistas, que se inspiraram nas obras de Vincent Van Gogh (1853–1890). Munch foi um dos fundadores do movimento expressionista. Todos eles tinham em comum a preocupação com a vida humana. Mas, afinal, o que é Expressionismo? Ouvimos falar a todo momento em liberdade de expressão. E você, sente-se livre para expressar seus sentimentos? Pois esse foi um  dos pontos fortes do Movimento Expressionista: manifestar o mundo interior, ou seja, a dor, o sofrimento, a solidão, a angústia, a morte, o sufoco. De acordo com Gombrich (1993, p. 449), “o Movimento Expressionista surgiu na Alemanha em 1910, aproximadamente, e seus artistas alimentavam sentimentos tão fortes em relação ao sofrimento humano, à pobreza, à violência e à paixão, que eram propensos a pensar que a insistência na harmonia e beleza em arte nascera exatamente de uma recusa em ser sincero. Não desejavam criar cópias idealizadas do real e sim uma representação dos sentimentos humanos”.

Aliás, os sentimentos humanos e as deformações próprias da vida humana também são retratados na foto abaixo. Não é impressionante a semelhança entre a expressão facial do feto morto e O Grito de Munch?

Observe com atenção:



O Grito de Munch data, como já vimos antes, de 1895 e o feto, morto por contaminação radioativa, uma vítima da explosão da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, no ano de 1986. O acidente nuclear de Chernobyl foi um dos piores de todos os tempos. Ocasionado por um dos reatores da usina que lançou, no meio ambiente, uma imensa quantidade de radiação, deixando um rastro de
destruição até mesmo em países distantes, como a Itália e a França. Esse desastre matou cerca de 14 mil pessoas só na Rússia e na Ucrânia.

No Brasil tivemos um desastre semelhante: o acidente nuclear de Goiânia, em outubro de 1987, quando muitas pessoas também morreram. Na verdade, tudo começou como uma brincadeira. Dois homens, à procura de sucata, entraram numa clínica de radioterapia, desativada, encontraram um aparelho de radioterapia (utilizado para tratamento de câncer), levaram-no e venderamno a um ferro-velho. Durante a desmontagem do aparelho, cerca de 20g de cloreto de Césio 137 (
137 CsCI), que estavam numa cápsula que foi quebrada, foram expostos.

O Césio 137 é um elemento químico radioativo, artificial, semelhante a um sal de cozinha que brilha no escuro. A radioatividade é um fenômeno que alguns elementos químicos apresentam e se caracteriza pela emissão espontânea de radiações ALFA (
) , BETA ( ) e GAMA ( ), que interagem com as partículas do ar produzindo efeitos luminosos. A luminosidade do Césio atraiu muitas pessoas que o manipularam e o distribuíram entre parentes e amigos. Foi colocado no bolso, esfregado no corpo e levado para as casas de muitos moradores da região; o césio acabou contaminando muitas pessoas.  

O artista brasileiro Siron Franco retratou tudo isso em uma série de pinturas intituladas de Césio. Observe sua obra com atenção. 



A arte para Siron Franco tem o compromisso com acontecimentos sociais e com a complexidade do mundo contemporâneo e precisa dar visibilidade às experiências sentimentais, intelectuais, éticas e morais inerentes a essa época.

Por meio das linhas, das cores e das formas, é possível evocar um sentimento difícil de expressar com palavras. As imagens podem, algumas vezes, dizer mais do que as palavras? Por quê?

O Expressionismo das Linhas

Será que uma simples linha pode passar uma mensagem ou uma sensação? Mas, o que é uma linha? Ou melhor, o que pode expressar uma linha? Analisando as linhas podemos perceber que são carregadas de emoção e portadoras de sentido. Cada artista pode estruturá-las e expressá-las, em uma obra, de modo diferente. É o caso de Munch que, embora tão expressivo quanto Van Gogh, é muito diferente, pois cada artista possui uma maneira própria de traçar essas linhas e usar as cores, tornando-as únicas e marcantes em razão do estilo de cada um.

“Vejamos a qualidade expressiva das linhas de Van Gogh: os traços são curtos, ele usa pequenas “vírgulas” e curvas, em breves momentos de espaço e tempo, justapostas numa repetição enfática. As sequências, também repetidas, adensam-se rapidamente e param, criando em nossa percepção o equivalente a obstáculos físicos a serem transpostos, dramaticidades e tensões altamente emotivas”





O Expressionismo das Cores


Vermelhos, azuis, verdes, laranja, violeta... São tantas as cores! Umas fazem rir, outras chorar; algumas são sombrias, outras luminosas; algumas são puras, contrastantes, loucas, vibrantes, densas, fluídas ou transparentes; outras fazem pensar. O que seria da vida sem as cores?

Ensino Médio
Muitos artistas foram apaixonados pelas cores, mas, um artista usouas como poucos: Vincent Van Gogh. Esse artista exagerava no uso dessas cores. Aliás, para Van Gogh, as cores, as linhas e as formas de um desenho eram apenas um pretexto para expressar emoção: “Eu quero a luz que vem de dentro, quero que as cores representem as emoções” (Vincent Van Gogh).

Podemos ver que não é a sua vida que explica a sua obra e sim a sua obra que transcende as barreiras de sua própria vida, dando sentido a ela. Van Gogh mesmo sendo considerado louco reformulou a
pintura, teve a capacidade e a sensibilidade para ver o mundo de uma maneira completamente diferente.

Que valor tem a arte ao pensarmos em Van Gogh? Quais são esses valores? São os mesmos valores de Munch?

Observe com atenção esta obra de Van Gogh:
  



Essa foi a última obra que Van Gogh pintou. Os trigais são turbulentos e inquietos, podemos ver que o céu apresenta-se escuro e carregado com corvos em revoada. Assim como as linhas, também as cores expressam muito do que somos e do que sentimos. Por exemplo, o céu em um dia claro, não
nos transmite uma sensação diferente de um céu com nuvens carregadas? O que sentimos quando vemos o verde das árvores em um dia de sol e em um dia chuvoso no inverno? Pois é, somos envoltos pelas cores e o mundo, quanto mais iluminado, mais parece colorido. Van Gogh sabia disso e, em suas obras, usou e abusou das cores retratando, por meio delas, além de sua alma, as suas emoções.
 

O Expressionismo das Formas

Na sua opinião existem formas diferentes de representar uma mesma ideia ou uma mesma emoção? Como você representaria, por exemplo, a dor e o sofrimento humano? Mas, e o que é forma?

“Podemos dizer que a forma é a configuração ou o aspecto dos objetos quando representados em uma obra de arte”. (MARCONDES, 1998, p.121) Além disso, a forma é figurativa quando representa figuras e objetos e abstrata quando não tem intenção figurativa. Quando usamos a forma abstrata em uma obra, não representamos pessoas ou objetos, mas, mesmo assim podemos “dizer” muita coisa, ou seja, representar algo, pois as formas podem evocar alegria, tristeza, beleza, tranqüilidade, agitação, dinamicidade, conflitos, soluções, representar a vida humana. 



A Pintura Abstrata


O pintor russo Wassily Kandinsky foi o primeiro a abandonar toda e qualquer referência à realidade reconhecível em sua obra, e chegou a essa descoberta revolucionária por acaso. “Em 1910, quando estava em seu estúdio, deparou-se com seu próprio quadro virado de lado
no cavalete. O quadro não tinha tema, não representava qualquer objeto identificável, era totalmente composto de manchas coloridas. Mas, mesmo descartando todo realismo, para Kandinsky, as formas coloridas pareciam despertar emoção independente do conteúdo”. (GOMBRICH,
1993, p. 143) Você concorda?
Outro artista abstrato é Jackson Pollock, mas o seu abstracionismo é diferente do abstracionismo de Kandinsky. Observando a foto do artista podemos perceber que ele, diferentemente de Kandinsky, tirou a tela da parede ou do cavalete, colocando-a no chão, caminhando sobre ela ou ao seu redor enquanto pintava. Pollock, inventor da pintura chamada informal, na década de 1940, foi apelidado de “Jack, the Dripper” (Jack, o pingador), pois o artista espremia a sua bisnaga de
tintas sob a tela, sem qualquer intenção figurativa, ou mesmo geométrica. Essa forma de pintar é conhecida como pintura de ação ou expressionismo abstrato.

Observe na imagem que o artista não toca a superfície do quadro com o pincel. Nesse tipo de pintura destaca-se a energia, a ação, o movimento do artista. A arte, nesse caso, não é só o produto da criação
artística, mas também de um processo ativo da criação, no qual o artista faz parte da obra.

A Pintura Figurativa

A partir das características de uma pintura abstrata você consegue dizer o que é uma pintura figurativa?
Alguns pintores do pós-guerra mantiveram viva a pintura figurativa, opondo-se à tendência da pura abstração, mas conservaram a figura apenas para dobrá-la à sua vontade. É o caso do grupo CoBrA.
A linguagem pictórica do CoBrA aproximava-se do Expressionismo Abstrato norte-americano. A diferença maior é que a pintura dos artistas desse grupo é figurativa. O grupo CoBrA foi criado como resposta à destruição e desumanidade da guerra e, um de seus objetivos, era retomar os valores humanos básicos. Seu nome é formado pelas iniciais de Copenhague, Bruxelas e Amsterdã, numa referência à idéia bíblica da serpente como um ser que corrompe, e, ao mesmo tempo, inicia a humanidade.

Esses artistas lutavam contra a dura realidade da guerra e suas primeiras exposições geram um impacto enorme. Além da quebra total do formalismo, os quadros eram colocados nas paredes de modo desordenado, podendo estar tanto próximos ao chão, como quase no teto.

Os artistas do grupo CoBrA não se restringiam à tela e ao cavalete e, muitos deles eram atuantes em várias áreas, insistindo nas idéias sobre a arte do grupo como parceiras ativas da sociedade.

O Cânone Clássico e a Deformação na Arte

As pessoas, de uma maneira geral, preocupam-se muito com os padrões de beleza considerados
ideais. Por exemplo, a maioria das mulheres quer ter um corpo tipo “top model”, hoje, considerado
o padrão ideal de beleza feminino. Mas, esses padrões de beleza mudam de acordo com a época.
No Renascimento, o ideal de beleza ainda era inspirado no cânone clássico greco-romano que se
formou a partir de uma medida ideal de figura humana: o cânone das oito cabeças. 

Cânone ou cânon é uma palavra de origem grega que significa regra, padrão, modelo ou norma. Um modelo seria proporcionalmente perfeito e tido como símbolo de beleza se apresentasse essa medida. 
Observe esse cânone no desenho de Leonardo Da Vinci.



O
Homem Vitruviano, um desenho de Leonardo Da Vinci, considerado o símbolo maior do ideal de harmonia do Renascimento, é na verdade um estudo das proporções do corpo humano elaborado pelo artista segundo instruções do arquiteto romano Vitruvius (I a.C.). O homem bem representado, de acordo com o desenho, deve estar de pé, com as pernas e braços abertos, posicionados com precisão nas figuras geométricas mais perfeitas, o círculo – tendo como centro o umbigo – e o quadrado – tendo como centro as genitais. O espaço compreendido entre a raiz dos cabelos e a altura do queixo corresponde a um oitavo da altura do homem.

O texto que acompanha o
Vitruvius examina todo o corpo humano usando como unidade de medida o dedo, o palmo, o pé, concluindo que a natureza constituiu o corpo do homem de forma que os membros correspondessem proporcionalmente à sua soma total, ou seja, a figura humana perfeita deve ter a medida exata de oito cabeças.

O Ideal de Perfeição do Renascimento

Você sabe o que significa a palavra renascimento? O Renascimento foi um período de renovação cultural com grande produção artística e científica, que ocorreu na sociedade européia, nos séculos XV e XVI, em decorrência do desenvolvimento do capitalismo. Iniciou na Itália e espalhou-se por outras partes da Europa. O Renascimento firmou-se pelo aperfeiçoamento da imprensa, que possibilitou a difusão dos clássicos greco-romanos, da Bíblia e de outras obras, até então manuseadas apenas pelos “monges copistas” dentro de Mosteiros e Abadias.

A decadência de Constantinopla, que provocou um verdadeiro êxodo de intelectuais bizantinos para a Europa Ocidental, e as Grandes Navegações ou Mecanismos de Conquista Colonial, que alargaram os horizontes geográficos e culturais, propiciaram o contato europeu com culturas completamente distintas, contribuindo para derrubar muitas idéias até então tidas como verdades absolutas. Neste período, consolida-se o mecenato, que financiava o trabalho dos artistas, com intuito de projetar o nome de burgueses ricos, príncipes
e até papas.

Durante esse período, a cultura greco-romana passou a ser cultivada, o que para os artistas renascentistas, os gregos e romanos possuíam uma visão completa e humana da natureza, ou seja, humanista – valores da Antiguidade, que exaltavam o homem como ser dotado de liberdade, de vontade e de capacidade individual. Porém, o individualismo marcou mais que o Humanismo da Antiguidade. O individualismo renascentista trouxe a ideia do gênio e o ideal passou a ser um homem que se ocupa de todos os aspectos da vida, da arte e da ciência. Leonardo Da Vinci foi um desses gênios.

O Renascimento instaurou uma nova visão do homem, a sua inteligência, o conhecimento e o dom artístico são valorizados, diferentemente da época Medieval que antecedeu o Renascimento, na qual a vida do homem deveria ser centrada em Deus. Ocorre uma mudança da visão teocêntrica da Idade Média, na qual Deus era o centro do universo, para uma visão antropocêntrica, em que o homem ocupa esse centro. A perspectiva antropocêntrica trouxe o interesse pela investigação da natureza e o culto à razão e à beleza característicos da cultura greco-romana.  

A Arte além das aparências

Provavelmente você já deve ter dito ou ouvido alguém dizer diante de obras tidas como Modernas: “Isso não é arte é uma rabisqueira!” Ou ainda: “Isso até eu faço!” E até compartilhar do desejo de “queimar” esse tipo de arte.

Certamente o homem não dispensa a beleza. Mas seria correto reduzir a arte à beleza?
JUSTINO (1999, p. 193). Mas, o que é belo? Com o expressionismo a beleza e a arte são redefinidas. A arte deixou de ter o compromisso com a beleza perfeita e imperturbável. A Arte deforma, intriga, desfigura, denuncia, desperta, grita e faz emudecer, revelando aquilo que nos escapa num primeiro olhar. O olhar da Arte Moderna desvenda a vida humana.  

Disponível em: SEED/PR 
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