Kant e a intenção na ação

Uma das ideias fundamentais desenvolvidas na ética deontológica de Immanuel Kant é que, na avaliação moral das ações, interessa sobretudo determinar o motivo (intenção) daquele que age. Isto é, por vezes fazemos o que está certo, mas pelos motivos errados, o que faz a nossa ação não ter qualquer valor moral.

Vejamos alguns exemplos:
Exemplo 1.
Um comerciante que não engana os seus clientes, por exemplo, procede corretamente. Mas terá a sua conduta valor moral?
Segundo Kant, isso depende daquilo que o leva a proceder assim. Se o referido comerciante não engana os seus clientes porque receia perdê-los, a sua ação não tem valor moral, pois resulta de um desejo ou inclinação egoísta. Mas se, em vez disso, o comerciante procede assim apenas porque julga ter o dever de ser honesto, então a sua conduta tem valor moral.


Exemplo 2.
Imaginemos agora outro comerciante e que na sua loja entra um cliente inexperiente. O referido cliente faz as suas compras e quando procede ao pagamento, o comerciante em questão sabe que poderia dar ao cliente que paga o troco errado, ou seja, poderia enganar o cliente e sair impune, isto é, o cliente não saberia que foi enganado devido à sua inexperiência. No entanto, o comerciante pensa: se eu der o troco errado ao cliente, e ele por acaso reparar, a notícia do meu engano poder-se-á espalhar e a minha reputação como pessoa honesta ficará manchada e poderei vir a perder a clientela e a arruinar assim todo o negócio. Então, não vou dar o troco errado!
Ora, o comerciante ao dar o troco certo acaba por não fazer nada de errado – ele devolve o troco correto. Mas será que a sua ação tem, segundo Kant, valor moral?
Não. O comerciante fez a coisa certa - devolveu o troco correto – pelo motivo errado, isto é, agiu por interesse próprio (inclinação egoísta).

Exemplo 3.
Kant diz que cada um de nós tem o dever de preservar a sua própria existência. Ora, para uma boa maioria das pessoas que ama a vida, nós temos múltiplas razões para não pormos término (fim) à nossa própria vida. Assim, o único meio de verdadeiramente sabermos a melhor forma possível de isolarmos o motivo operante para alguém/uma pessoa que não tira a própria vida é pensar – imaginar – alguém que é infeliz e que apesar de ter uma vida de total infelicidade, ainda assim mesmo reconhece o dever de se auto-preservar e, portanto, não comete suicídio.

Mais uma vez, neste exemplo, e seguindo o pensamento de Immanuel Kant, é a intenção que conta, é ela que marca a moralidade da ação – é teu dever fazer a coisa certa em nome (por) do dever.
O que interessa para Kant é sempre a qualidade da intenção presente nas ações, o carácter do motivo, e para este filósofo a intenção relevante para a moralidade só pode ser o exercício do dever pelo dever e nunca o motivo da inclinação. Quando agimos por dever – quando resistimos ao motivo do reagir seguindo inclinações sensíveis ou conforme o meu interesse próprio – quando agimos por compaixão ou até por altruísmo, só então estamos a agir de forma livre (obedecendo a uma boa vontade), só nessa circunstância agimos de forma autónoma, ou melhor, só nessa ocasião é que as minhas ações não são governadas ou determinadas por considerações externas. Esta é a ligação que Kant estabelece entre liberdade e o conceito de moralidade.
Consubstanciando, agir livremente (de acordo com uma vontade autónoma) não é escolher o melhor meio para um determinado fim, mas é escolher o fim em si mesmo, por si próprio, e isso é uma coisa que só os seres dotados de razão podem fazer, pois é ela (razão) que impõe certos deveres que determinam o que está certo ou errado, ou seja, que estabelece o valor moral das nossas ações.
 Miguel Alexandre Palma Costa
Disponível em Rotas Filosóficas
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