O que as redes sociais digitais podem fazer pela política

Por Ivone Rocha

A participação popular via redes sociais, sejam elas virtuais ou não, tem mostrado que o Brasil avança no processo democrático, pelo menos do ponto de vista da sociedade. Do lado do poder público percebe-se, entretanto, um pouco mais de cautela.

O problema maior pode estar na complexidade da comunicação pública na perspectiva dos vários recursos, sobretudo tecnológicos, disponíveis. Hoje, o cidadão espera da gestão pública comportamento semelhante ao que ele tem diante da mídia digital, com a mesma linguagem, abordagem e, principalmente, agilidade. São fatores que o gestor público não pode prescindir.

Assim, para uma melhor compreensão do valor da comunicação nas ações entre governo e sociedade, cabe primeiro traçar um panorama da atuação do cidadão diante de interesses públicos, com o uso da internet. Depois, apresentar a comunicação pública nesse contexto.

Os movimentos sociais têm tido um papel importante no processo democrático, por notabilizar a democracia e fortalecer as relações da sociedade civil. E não há como negar que a internet foi a grande protagonista na disseminação desses movimentos e nas ações por eles propostas. Haja vista as mobilizações em todo o mundo desde 2008, com a eleição de um negro nos Estados Unidos, mudança de regimes, queda de ditadores, entre outras, tanto nas ruas quanto na internet.

No Brasil, desde 2011, acompanhamos vários protestos agendados por meio das redes sociais virtuais, entre os quais, manifestações de estudantes e professores da USP, Unifesp e Unesp, fechamento de vias públicas por movimentos de trabalhadores sem teto, o “gente diferenciada” que fechou ruas do bairro de Higienópolis, em São Paulo, em protesto para construção de estação de metrô. Em Goiânia, populares protestaram contra o aumento dos preços dos combustíveis.

Em 2013, todo o País se uniu em ato contra o aumento das passagens de ônibus, cujas ações foram iniciadas em São Paulo, pelo Movimento Passe Livre. Depois, em 2014, foram os jovens da periferia paulistana que, em ato sob o nome de “rolezinho”, invadiram os shoppings para se divertir ou “dar um rolê”, em protesto contra a falta de espaços apropriados. Os jovens de Goiânia também aderiram e prolongaram as manifestações até recentemente.

Esses movimentos representam, sem dúvida, o amadurecimento da democracia, na perspectiva da sociedade. Porém, podem sinalizar uma comunicação pública deficitária, por parte de governos, parlamentos e instituições políticas. Isso ficou comprovado no repúdio dos populares aos partidos políticos.

Mas, o avanço da democracia não pode pressupor a queda de instituições e de lideranças que visam organizar o processo político e fortalecer a democracia. E como lidar com cenários desse tipo? Cohen e Andrew (1994), em Civil Society and Political Theory, sugerem novas políticas de inclusão e mudança nos discursos políticos, levando-se em conta novos atores, necessidades, interpretações e normas, como condições importantes para um projeto de sociedade civil democratizada. Em outras palavras, faz-se necessário uma comunicação pública eficaz.

A comunicação pública, segundo a pesquisadora Elizabeth Brandão (2009), está classificada em cinco áreas do conhecimento: organizacional, científica, governamental, política e da sociedade civil organizada.

Embora todas devam ser consideradas pelo gestor público, a que está diretamente relacionada ao processo eleitoral é a comunicação política. Ela promove um discurso envolvendo políticos, profissionais de comunicação e opinião pública e tem a internet como um importante espaço para o indivíduo poder exercer sua cidadania, participando de ações políticas, sugerindo e questionando decisões do poder político.

Assim, as redes sociais da internet se inserem no que Gaudêncio Torquato (2002) chama de ciclo da descoberta da comunicação como ferramenta dos agentes políticos. E, se esses recursos tecnológicos são protagonistas desse processo democrático, pressupõe-se que tenha eficiência tanto do lado da sociedade quanto dos governos e parlamentos.

Não cabe aqui apontar quem está certo ou errado do ponto de vista de decisões políticas. O que não pode é prescindir dos espaços, da linguagem e da abordagem utilizados pelos indivíduos. As redes sociais oferecem tudo isso e ainda promovem proximidade nas relações. Entretanto, necessita de uma mensagem única, além de coerência entre os discursos das sociedades, dos interlocutores e do poder público.

Ivone Rocha é Professora no “MBA Comunicação Empresarial e Mídias Digitais” do Instituto de Pós-Graduação e Graduação (IPOG), www.ipog.edu.br. Mestra em Políticas Públicas, especialista em tecnologia da informação e mídia digital e autora do livro “Soluções em Internet”.

Publicado no Portal EcoDebate, 26/05/2015
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