Arte: Ilusão ou Realidade?

Por Tania Regina Rossetto

Popularmente dizemos e ouvimos dizer que “nessa vida tudo é ilusão”. Mas, para concordar ou discordar é preciso refletir sobre o que significa realidade e ilusão. O que é ilusório? O que é real? A arte representa a realidade por meio da ilusão? Ou é a realidade que expressa ilusão?

Por detrás das câmeras

Provavelmente você já deve ter assistido ou ouvido alguém falar de Matrix, o filme. Matrix, principalmente em razão de seus efeitos especiais, é considerado um marco na história do cinema. 

A saga contida em Matrixé dividida em três filmes – a “trilogia Matrix” – e levanta dúvidas cruciais sobre a vida humana: o que vemos é real? E nós, somos reais ou não passamos de uma ilusão? 

Tudo começa como no livro infantil de Lewis Carroll: Alice no País das Maravilhas, (seria muito interessante ler o livro). Neo, personagem principal do filme Matrix, segue o coelho branco e precisa fazer uma escolha entre a pílula vermelha que revela toda a realidade, ou a pílula azul que deixa tudo como está. Toda a realidade e toda a ilusão são reveladas a partir dessa escolha, e Neo é levado a saber até onde vai a toca do coelho de Alice. 

A partir da escolha que faz (saber toda a verdade) Neo passa a ser o “escolhido”, uma analogia ao “Messias” que irá salvar a humanidade do domínio das máquinas, o único que pode vencer o mal estabelecido pelo próprio homem. 

Os personagens sobem pelas paredes, pulam de um prédio a outro, participam de lutas alucinantes, desviam de balas disparadas à queima roupa, morrem, mas, vencem a própria morte. Acima de tudo, o filme deixa claro, a todo o momento, a importância de um sentimento do qual as máquinas são desprovidas: o amor. O filme Matrixapresenta uma história, contada em uma linguagem contemporânea, que nos faz pensar sobre o que é realidade e ilusão. Podemos comparar a mensagem do filme com a Alegoria da Caverna de Platão, filósofo grego do século IV a.C. (428-427 a.C. – 348-347 a.C.).

Conheça alguns fragmentos:

Alegoria da Caverna

Platão, República, Livro VII, 514ª-517c

(...)

Suponhamos alguns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz... Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços... há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro...
(...)

Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e animais, de pedra e de madeira... como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
(...)

Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
(...)

De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse 
senão a sombra dos objectos.
(...)

... o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora.
(...)

... se alguém o forçasse olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto aos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhes mostravam?
(...)

Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e seu brilho de dia.
(...)

Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
(...)

Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que já possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
(...)

E se lhe fosse necessário julgar aquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzí-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo.
(...)

Tudo não passa de uma alegoria!

O que é uma alegoria? O que as alegorias têm a nos dizer? Elas fazem parte de nossas vidas? Veja a “Alegoria da Caverna”: a caverna é o mundo das aparências em que vivemos e as sombras projetadas no fundo são as coisas como percebemos. As correntes são nossos preconceitos e opiniões, a nossa verdade. O prisioneiro que se liberta e sai da caverna é o filósofo, a luz do sol é a luz da verdade e o mundo iluminado é a realidade. O instrumento que liberta o prisioneiro é a filosofia, ou seja, o pensar sobre o próprio pensamento.

“... nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação de coisas e idéias que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias.” (CHAUI, 2004)

Quem nos garante que o que vivemos ou acreditamos é a mais pura realidade? O que julgamos ser o mundo real não pode ser apenas uma aparência?

A Sétima Arte

A primeira exibição pública de cinema foi realizada em 28 de dezembro de 1895, na cidade de Paris. Não passavam de filmes curtinhos, filmados com câmera parada, em preto e branco e sem som, mas que causou grande impacto. Os irmãos Lumièri, considerados os inventores do cinema, pensaram que o “cinematógrafo” não tinha futuro como espetáculo, era um instrumento científico que servia apenas para pesquisa, reproduzindo o movimento. Mas o que se seguiu não foi exatamente isso, a estranha máquina que gravava movimentos deu início ao que conhecemos hoje como “a Sétima Arte”, ou seja, o cinema.

Apesar de sabermos que no cinema tudo é de mentira, quando assistimos a um filme nosso batimento cardíaco acelera em certas cenas – ficamos com raiva do vilão, torcemos pelo mocinho, gritamos de medo, choramos de emoção – e, por alguns momentos, acreditamos que tudo é de verdade. Esse é o segredo de tanto sucesso: a ilusão, em que tudo parece real, ou como diz Bernardet, 1986: “No cinema, fantasia ou não, a realidade se impõe com toda a força”.

Os artistas e cientistas buscam reproduzir a realidade por meios artificiais há muito tempo. A pintura figurativa e a fotografia podem nos dar essa impressão. A maçã e o jarro de flores em uma pintura a óleo ou o flagrante de uma foto do nenê tomando banho parecem tão reais como se fossem verdadeiros. Mas à pintura e à fotografia falta o movimento, fundamental para reproduzir a realidade. Inventouse, então, uma arte que se apóia nas máquinas para tornar possível reproduzir o movimento: o cinema. (BERNARDET, 1986)

A ilusão de um sorriso

Apesar das pinturas não produzirem movimento, elas podem reproduzir efeitos que muitas vezes não conseguimos explicar.

Experimente olhar diretamente para o sorriso de Mona Lisae verá que ele não existe. Mas por que isso acontece? Será que esse sorriso éapenas uma ilusão criada por Leonardo Da Vinci? Ou foi criado pelas pessoas que a admiraram?

Para pintar esse quadro Leonardo Da Vinci fez uso de técnicas de pintura criadas por ele: o chiaroscuroe o sfumatto. O chiaroscuro ou claro-escuro consiste em produzir efeitos de luz e sombra, unindo uma forma com a outra sem delinear o contorno da figura, produzindo um efeito à maneira de fumaça ou sfumatto. Na Mona Lisaesses dois efeitos se unem de tal forma que a leveza e a naturalidade alcançadas por essas duas técnicas nos impressiona. Essa forma embaçada do sfumattoestimula a nossa imaginação e, de acordo com Gombrich (1993, p. 228-229), “a mulher parece viva”. Parece olhar para nós, e nos segue com os olhos, toda vez que voltamos a olhá-la. Esta pintura tornou-se um mito e muitas são as interpretações de seu enigmático olhar e sorriso: alguns acham que zomba de nós, ou expressam uma sombra de tristeza. E dependendo do ponto de vista do observador seu rosto também parece mudar. Isso é realidade ou ilusão?

Podemos confiar naquilo que vemos?

O que você vê nessa imagem?
Apesar de não ser difícil de distinguir as formas, não podemos enxergar as duas imagens ao mesmo tempo: ou vemos o pato ou o coelho. Os efeitos que conhecemos como ilusão de ótica são divertidos e curiosos, porém aos nossos olhos são um mistério a desvendar. 

O olho humano funciona de uma maneira muito parecida com a de uma máquina fotográfica, a diferença é que a imagem da câmera fotográfica é revelada e podemos ter uma imagem permanente do objeto, enquanto que, as imagens captadas pelo olho humano são constantemente levadas ao cérebro onde são interpretadas. Cada imagem captada pelo olho humano vem carregada de nossas impressões e pelo que sabemos a respeito do objeto. Conforme as palavras de GOMBRICH z1995, p. 233), não conseguimos separar o ver do saber.

Uma vez que desvendamos uma imagem enigmática fica praticamente impossível voltar à impressão inicial, quando ainda não havíamos desvendado o mistério. A imaginação visual nos possibilita desvendar esse enigma criado pela ilusão óptica, pois não há uma única maneira de interpretar o que vemos. 

Mas não é apenas o que sabemos a respeito do objeto que influencia nossa percepção. Certas combinações de linhas, formas geométricas e sobreposição de cores confundem o olhar e produzem ilusões óticas. 

Observe a figura ao lado:

O que você está vendo é realmente uma espiral?

Por não sabermos nada da figura representada a nossa interpretação pode ser ainda mais difícil do que quando sabemos, como por exemplo, na figura ambígua do pato e do coelho. 

Observando com atenção você verá que não se trata de uma espiral, mas uma série de círculos concêntricos. Você pode descobrir a natureza na ilusão usando um lápis para seguir as linhas dos círculos. O fundo xadrez em direção ao centro é que ilude nossa visão nos fazendo interpretar a imagem dos círculos concêntricos como se fosse uma espiral. 

A chave para o segredo dessas imagens é deixar de olhá-las como um todo e focarmos os detalhes isoladamente como foi sugerido para desvendar o sorriso de Mona Lisa, ou seja, deixar de olhá-las com uma visão periférica e passar a olhá-las com uma visão central. A visão central nos permite ver os detalhes e a visão periférica nos permite uma visão mais ampla do que está à nossa volta. 

Op Art: o movimento que seduz

As obras da Op Art seduzem nossos olhos pela ilusão do movimento. Apesar de representarem imagens fixas, produzem a ilusão de movimento. Observe uma delas:

A Op Art surgiu em meados da década de 1950 e se desenvolveu ao mesmo tempo na Europa e nos Estados Unidos. É uma expressão que vem do inglês optical art e significa de acordo com Proença, 2001, “arte óptica”. Uma obra da Op Art à medida que é observada, dá a impressão que se altera e as figuras se movimentam formando um conjunto pictórico. As obras da Op Art são abstratas, formais e extremamente exatas, lidam diretamente com a ilusão projetada na estrutura física do olho ou no próprio cérebro, provocada pela excitação ou acomodação da retina. Solicita a participação ativa do observador com a obra, pois ela muda à medida que nos movimentamos: 

parece se mexer, se multiplicar, se aprofundar e emergir para a superfície.

As obras da Op Art lembram as imagens elaboradas atualmente por intermédio do computador, por meio de programas que criam as imagens que podem ser reproduzidas na televisão, no cinema e até mesmo no papel. 

“Não devemos temer os novos meios que a técnica nos deu; não podemos viver senão em nossa época”. Victor Vasarely

Victor Vasarely foi o criador da plástica cinética envolvendo pesquisas e experiências dos fenômenos da percepção óptica.

Ver ou não ver...

Somos cegos para aquilo que não conhecemos, nesse ponto é que a ilusão nos prega peças e ficamos sem saber sobre o que é real e o que é ilusório. A arte liberta os olhos dessa cegueira, abrindo a possibilidade de mostrar mundos impossíveis criados pelas mãos dos artistas. Aliás, na arte tudo é possível! Toda a realidade pode ser apenas um reflexo no espelho. O reflexo do espelho é real? Ou é apenas uma projeção? O que é real nesse caso?

Podemos concluir que muitas vezes, a Arte não passa de uma ilusão que nos permite ver mais profundamente a realidade em que vivemos. Além disso, ajuda-nos a criar outra. Mas, vemos que tudo depende de como percebemos o real, e nesse ponto ilusão e realidade podem representar a mesma coisa. Será possível, a arte representar a realidade a partir da ilusão?

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