A festa é dos negros

Celebrações herdadas do cativeiro sobreviveram à Abolição, atravessaram o século e ainda hoje fortalecem a identidade afrodescendente

Martha Abreu
Festas de jongo, congados, folias de reis, festas de boi, maracatus, cocos, tambores de crioula e sambas de roda – criadas e recriadas pelos africanos e seus descendentes ao longo do século XIX, a presença dessas festas no século XXI desafia todos os prognósticos de folcloristas e intelectuais. A previsão era de desaparecimento, em função das irresistíveis pressões da miscigenação e da modernidade. Como entender hoje a continuidade dessas festas, quando estamos muito longe dos africanos e da escravidão?
No passado, certamente, as festas negras ocuparam espaço fundamental na luta de escravos e libertos. Foi algo pelo qual valia a pena lutar. Ao lado da defesa da família, do acesso a terra e da própria liberdade, as reuniões festivas, religiosas ou não, estiveram na pauta das reivindicações de escravos e seus descendentes em todos os locais onde houve escravidão.
Mesmo depois da abolição e ao longo do século XX, apesar das difíceis condições de vida de seus festeiros e das políticas quase oficiais de exclusão, as festas negras impuseram-se culturalmente na nova nação republicana. De fato, afrodescendentes por todo o país lutaram contra as perseguições ou as interdições aos candomblés, jongos, maracatus e sambas, bandeiras de expressão pelo direito a um patrimônio construído nos tempos do cativeiro. Também abriram espaços de visibilidade e reconhecimento de sua presença, em termos musicais e religiosos. As festas negras criaram possibilidades para o exercício de outras dimensões da cidadania, para muito além do voto ou da representação política instituída pelas Constituições republicanas.
Atualmente, muitas festas negras ganharam especial valorização, para além dos próprios grupos ou do interesse pontual de alguns folcloristas. Dentre elas, jongos, sambas de roda, tambores de crioula e festas do boi receberam o reconhecimento oficial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A Lei 10.639/2003, por sua vez, torna obrigatório o ensino de História e Cultura afro-brasileira nas escolas.
A emergência ou a revitalização recente dessas festas negras articula-se com os novos rumos dos movimentos negros contemporâneos, embora também tenham que enfrentar diferentes conflitos, muitas vezes impostos pelo crescimento dos movimentos religiosos evangélicos. Conflitos e mudanças fazem parte da história de todas as festas, em qualquer tempo.
A partir dessa discussão mais ampla, uma boa estratégia é contar a história da festa de uma pequena localidade distante do Rio de Janeiro cerca de três horas, no município de Valença: o Quilombo São José da Serra. Apesar de o local ser distante e de difícil acesso, a repercussão recente dos seus tambores, versos e danças tem sido impressionante por todo o sudeste do Brasil.
A festa se realiza todos os anos, em torno do 13 de maio, e seus festeiros são descendentes da última geração de africanos e escravizados do velho Vale do Paraíba cafeeiro. Reivindicam hoje o título e os direitos de “remanescentes das comunidades dos quilombos”a partir do Artigo 68 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição Brasileira de 1988. Depois de mais de 15 anos de luta, a vitória e o reconhecimento de suas terras parecem estar próximos.
Em 2005 compareci pela primeira vez a uma festa em São José da Serra, após convite da também historiadora e parceira Hebe Mattos, que havia assinado o relatório histórico-antropológico sobre o grupo com vistas à identificação e à titulação de suas terras. Desde o almoço, no qual foi saboreada uma deliciosa feijoada, eu e Hebe Mattos ficamos impressionadas com a chegada de vários grupos de folias de reis e de jongo –  uma dança em círculo acompanhada de tambores, palmas e de uma fogueira. Eles também apreciavam os calangos, dança de casal e música com sanfona, viola e pandeiro, que aconteciam nos intervalos, no barracão coberto e movimentadíssimo. Formados majoritariamente por negros, os grupos vinham de diferentes e distantes municípios do estado do Rio de Janeiro para homenagear os pretos velhos ou para denunciar o caráter incompleto da abolição da escravidão.
Ao longo da festa, crescia a nossa sensação de surpresa e emoção. Era evidente que todos eram descendentes de escravos e representantes do campesinato negro que emergiu a partir da abolição. Traziam consigo – e com muito orgulho – a herança de seus antepassados, as memórias do cativeiro, as histórias da abolição e das lutas do pós-abolição através de versos, desafios, danças, músicas e orações para os santos reis. Como em muitas outras festas, ali se encontram o passado, o presente e o futuro, renovados no novo contexto das lutas políticas dos últimos 20 anos. No palco central, a identidade negra e quilombola de São José da Serra, seus planos de titulação da terra e de um novo futuro.
Em meio à surpresa, logo passamos a fazer várias perguntas, impossíveis de serem rapidamente respondidas. Onde estavam ou estiveram esses grupos até agora? Por que historiadores da escravidão e da cultura pouco ou nada sabiam sobre essas festas e expressões?
Depois de um ano de visitas e entrevistas em várias comunidades negras no estado do Rio de Janeiro – Angra dos Reis, Búzios, Cabo Frio, Mesquita, Barra do Piraí, Valença, Duas Barras – começamos em 2007 a produzir o filme Jongos, Calangos e Folias, memória negra, música e poesia. Como argumento central, a produção registra a presença expressiva da população negra, descendente da última geração de escravizados e identificada, na prática ou na memória, com jongos, calangos e folias.
Em distantes regiões, narrativas coincidentes. Versos, desafios e improvisos estruturavam a forma de cantar, contar histórias e festejar. Recorrentes são as histórias e as memórias sobre antepassados escravos e africanos, muitos desembarcados ilegalmente após 1831 e 1850. Recorrentes são os sentimentos sobre a luta pela terra, sobre o duro trabalho camponês, sobre pais, mães e avós jongueiras, calangueiras e foliões, sobre a alegria dos encontros para essas festas e sobre o respeito aos mais velhos, sempre chamados de “grandes jongueiros” e “grandes calangueiros”.
Marcantes também são as histórias de discriminação racial e de exclusão, ao lado do fortalecimento da identidade negra. A melhor de todas as histórias, contadas em variadas versões das folias, valoriza a presença do “rei negro” – às vezes chamado de Belchior, outras de Baltazar –em face dos outros dois famosos reis magos brancos. Em torno da visita a Jesus recém-nascido, data comemorada no dia 6 de janeiro, o Rei Negro teria chegado primeiro, apesar dos esforços dos outros reis que usam estratégias não muito corretas para conseguir chegar antes.
Se toda essa história pode ser contada hoje, é somente porque continuou sendo contada e cantada em diversos locais do velho Sudeste escravista, na performance das festas e no impressionante repertório de danças, músicas, desafios e versos dos jongos, calangos e folias. Por sua vez, as festas de São José da Serra, mesmo que desconhecidas pelos historiadores e guetificadas por muito tempo, podem ser entendidas como a expressão mais visível de um riquíssimo universo social, cultural e político construído pelos descendentes dos escravos no pós-abolição e ao longo do século XX.
Chegar aos dias de hoje com jongos, calangos e folias é também uma forma de afirmar os direitos dos detentores desse patrimônio, direitos de organização, encontro e diversão em função de seus próprios santos e valores, danças e músicas. As festas tornaram-se o efetivo exercício de um direito e a bandeira de luta de muitos outros.

Martha Abreu é professora de História da Universidade Federal Fluminense e coautora de “Festas religiosas, cultura e política no império do Brasil”. In: GRINBERG, Keila & SALLES, Ricardo (orgs.). O Brasil Imperial (Civilização Brasileira, 2009).

Saiba Mais
LARA, Silvia & PACHECO, Gustavo (orgs.). Memória do Jongo, as gravações históricas de Stanley J. Stein, Vassouras, 1949. Campinas/ Rio de Janeiro: Ed. Unicamp/ Folha Seca, 2008.
RIOS, Ana Lugão Rios & MATTOS, Hebe. Memórias do Cativeiro: Trabalho, identidade e cidadania no Pós-Abolição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

Vídeo
Jongos, Calangos e Folias, documentário de Hebe Mattos e Martha Abreu(UFF, 2008). Em:http://ufftube.uff.br/video/9RBAHO8O6474/Jongos-Calangos-e-Folias-Musica-Negra-Memoria-e-Poesia.

Disponível em Revista de História
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