Aquecimento Global, falácias e verdades

Álvaro Rodrigues dos Santos
Esse final de ano de 2014 sepulta definitivamente as honestas e também as não muito honestas dúvidas que ainda subsistiam sobre a veracidade e consistência científica das teses e informações apontadas pelo IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, organismo vinculado à Organização Meteorológica Mundial e ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). É fato, observa-se nas últimas décadas uma comprovada persistência de aumento das temperaturas globais e é certo que a atividade humana no planeta inclui-se entre suas principais causas. As conseqüências para a Humanidade desse fenômeno climático podem vir a ser catastróficas.
Bem, até esse ponto o problema está colocado, agora vamos aos fatos a ele associados.
Nenhum de nossos conhecidos problemas ambientais (ou de alguma forma relacionados a questões ambientais) graves e crônicos, como poluição atmosférica, poluição de águas superficiais e subterrâneas, contaminação de solos, enchentes urbanas, áreas de risco em encostas e margens de cursos d’água, perda e empobrecimento agronômico de solos agricultáveis, depauperação de corpos florestais ativos, crises hídricas, binômio erosão/assoreamento, degradação de mananciais de boa água, depleção do lençol freático, penúrias de mobilidade urbana, etc., tem no aquecimento global qualquer origem causal. Foram e são problemas de enorme gravidade, capazes de, per si, sufocar econômica, social e ambientalmente o desenvolvimento brasileiro e a qualidade de vida de sua população, e que foram inteiramente gerados por nós mesmos, por nossa estupidez e irresponsabilidade, sem nenhuma participação de fatores outros como o efeito estufa e outros fenômenos de ordem planetária.
Pelo contrário, alguns desses problemas, como os diversos tipos de poluição, a eliminação de corpos florestais e outros, integram o conjunto de ações humanas que colaboram efetivamente para o aquecimento global. Perde o encanto e a decência, portanto, a atual cantilena de nossos administradores públicos que, espertamente, lançam agora às costas das mudanças climáticas globais a responsabilidade sobre esses terríveis problemas brasileiros, que nunca foram, por irresponsabilidade, por incompetência e por falta de respeito ao cidadão, devidamente enfrentados, evitados ou mitigados pelas mais variadas instâncias do poder público.
Sobre esse trágico rol de problemas crônicos, sim, o aquecimento global aparece como um fator dramaticamente agravante.
Alertemo-nos, no entanto, para que o aquecimento global não venha a ser levianamente utilizado como o bode que é introduzido na sala de visitas de uma casa já cheia de problemas gravíssimos e com cuja eventual retirada pretenda-se aplacar os anteriores insistentes reclamos de seus moradores.
Mais do que nunca coloca-se na ordem do dia de nossos governantes, como obrigação moral, a decisão radical, honesta e inequívoca de enfrentamento desses nossos problemas crônicos, hoje com a perspicácia necessária para que este enfrentamento sempre que possível se apóie em opções tecnológicas que concomitantemente tenham o dom de contribuir para o arrefecimento da parcela do aquecimento planetário induzida pela atividade humana.
Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)
  • Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e Ex-Diretor da Divisão de Geologia;
  • Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão” e “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”;
  • Consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente;
  • Colaborador e Articulista do Portal EcoDebate.
Publicado no Portal EcoDebate.
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