Alta tecnologia e obsoletismo programado no setor de telefonia celular no Brasil: uma análise sociológica

Wagner Araújo

Introdução

A partir de 1997, com a quebra do monopólio estatal da Telebrás, o setor de telecomunicação no Brasil vem sofrendo radicais mudanças. Dentre as áreas que mais se modificaram, encontra-se a telefonia celular. Toda esta mudança vem tendo várias implicações para a sociedade brasileira, seja no âmbito econômico, jurídico, financeiro, ou sociológico. O presente trabalho se concentra nas implicações sociológicas da telefonia celular no Brasil, especialmente os aparelhos telefônicos, e sua ligação com o obsoletismo programado. Para tanto fez-se necessário uma pequena contextualização econômica para que se possa compreender a análise sociológica.
Contexto Econômico e Tecnológico

Desde a Lei Federal 9.472/97 que iniciou o processo de privatização do setor telefônico no Brasil, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vem financiando uma quantia elevada de investimentos nesta área. A maioria das empresas que contraem o investimento no BNDES são empresas de capital estrangeiro, para constituir as operadoras. As operadoras são as responsáveis pela definição de quase toda a tecnologia envolvida no processo. Na balança comercial do segmento de telecomunicações brasileiro, o total de importações de telefones celulares fica em torno de apenas 15% do total. Embora aparentemente alto, este investimento fica muito aquém do investido na infraestrutura de operação. O número de telefones móveis subiu de 6 milhões em 1997 para 12 milhões em 1999, porém a maioria desses telefones, pelo menos inicialmente, utilizava o sistema analógico, mesmo que as operadoras possuíam tecnologia para operar no sistema digital. Outro problema era o obsoletismo dos aparelhos, e ao mesmo tempo, paradoxalmente, a quantidade de funções inúteis e subtilizadas, daí surge os primeiros traços do obsoletismo programado neste setor.

O obsoletismo programado consiste em lançar ou manter um produto no mercado, sabendo-se que tem uma ou várias tecnologias desenvolvidas, de melhor qualidade que a antiga, e também quando este produto vai ser substituído. Tal substituição visa a troca dos usuários das tecnologias passadas para as mais modernas. A diferença entre a evolução natural da tecnologia está na retenção desta que deixa, toda a tecnologia do mercado obsoleta. Neste ponto Gelernter, um dos fundadores da Internet e Doutor em Ciência da Computação, afirma que todos esses sistemas e máquinas são obsoletos e que "estão nos empurrando velharias, porcarias baratas". Embora esses aparelhos tenham uma série de funções como, por exemplo, calculadora, agenda, jogos, etc., que não são utilizadas pelos usuários, eles possuem uma tecnologia muito atrasada. Daí surge o aparente paradoxo: se de um lado a tecnologia é obsoleta, as pessoas necessitam de aparelhos muito mais simples, não utilizando a tecnologia que possuem. Este paradoxo, entretanto, é falso. O que acontece é que para "mascarar" o obsoletismo de seus produtos, os fabricantes os enchem de funções ditas "de última tecnologia", criando a imagem de um aparelho moderno e eficiente. Segundo GElernter, "alta tecnologia não é sinal de complexidade, nem complexidade é sinal de alta tecnologia." Para o autor, os aparelhos realmente modernos são os que reúnem "altíssima tecnologia com simplicidade extrema". Nada mais lógico, pois o objetivo da tecnologia de ponta seria melhorar, agilizar e tornar mais prática a vida do ser humano, não complicar, enchendo-o de manuais gigantescos e inúmeras teclas e funções que ocupam um enorme espaço e tempo para serem memorizadas. Mas apesar de todo este problema, muitas vezes visível, as pessoas, em específico os brasileiros, continuam comprando cada vez mais telefones celulares, sempre procurando a "última tecnologia", não refletindo nem um pouco sobre este ato. Por quê?


Perspectivas Sociológicas

O porquê da pergunta anteriormente proposta encontra sua resposta na teoria sociológica. Ou seja, muitas vezes essas pessoas que compram celulares não são levados por sua necessidade pessoal, mas por uma exigência coletiva. Segundo BERGER a sociedade diz ao indivíduo exatamente aquilo o que ele deve fazer, e este não pode fazer muito para mudar essa situação. Uma das maneiras que o autor aponta para o exercício do controle social está nos mecanismos de persuasão, difamação e exposição ao ridículo. A sociedade, criando a necessidade de se ter um celular, expõe quem não o tem ao ridículo. Frases como "Ora, como você consegue viver sem um celular" são comuns, principalmente nas classes médias e altas. As pessoas dessas classes que não têm um aparelho celular são vistas com um certo desprezo pois, segundo a visão da sociedade, sua verdadeira classe social é contestável devido ao fato da grande maioria dessa classe possuir um celular. Resumindo, ter um celular é uma questão de status. Nesse ponto começa um grande ciclo vicioso. Isto acontece porque as classes mais baixas, devido à facilidade de acesso aos celulares, começam a comprar aparelhos para tentar se igualar, pelo menos aparentemente, às classes mais elevadas. Estas porém, ao perceberem essa conduta das classes inferiores, procuram comprar aparelhos mais caros e com a última tecnologia existe no mercado. As classes altas querem estabelecer um diferencial, para isso adquirem aparelhos que as classes mais baixas não podem adquirir. Entretanto, ao passar do tempo, esses aparelhos mais caros vão se tornando mais acessíveis às classes mais baixas, o que faz com que as classes mais altas tenham a necessidade de buscar novos aparelhos para poder mostrar seu status social. Este é o grande ciclo da tecnologia. Mas onde se localiza o obsoletismo programado neste ciclo? Bem, as classes mais elevadas estão sempre em busca, como afirma Berger, da manutenção da sua posição na sociedade, e como já foi exposto, procuram adquirir a tecnologia mais cara. Contudo, pouco se preocupam em questionar a qualidade e a modernidade do produto, compram porque é o mais novo e mais caro no mercado. A classe alta está, na verdade, preocupada em manter seu papel social. Diante desta situação, os fabricantes podem se aproveitar amplamente. Enquanto em seus centros de Pesquisa e Desenvolvimento desenvolvem tecnologias dez anos mais avançadas, vendem tecnologias obsoletas, disfarçadas por algumas peculiaridades e sustentadas por uma necessidade social. Considerando que essa situação é imperativa ao indivíduo e condiciona suas ações, pode-se considerar, sem exageros, a posse de um celular como uma instituição social, mesmo que pequena. E como instituição, pode proporcionar sanções coercitivas àqueles que não a seguem. Neste ponto, exatamente pode-se observar BERGER: "...sempre desejamos exatamente aquilo que a sociedade espera de nós". O indivíduo nesta perspectiva passa a estar subordinado à vontade coletiva, sua necessidade é criada por seu grupo de referência, independente da classe que ocupa. Esta concepção é tangente à durkheimiana, pois este fato social é externo às vontades individuais, é anterior ao indivíduo. A idéia de necessidade de celulares não advém de deliberações e críticas individuais, mas sim do todo. Porém é criada a ilusão de que ele próprio é quem tem esta precisão. Dentro do que expõe Durkheim, encontra-se o caráter sui generis desta fato social. Ou seja, o efeito total dessas ações é muito mais significativo do que a sua soma: o fato da manutenção do status de uma classe se torna infinitamente maior do que o simples de fato de várias pessoas adquirirem celulares novos. Outro ponto a ser considerado, dentro desse autor, é o papel chave da comunicação. Pois assim os conhecimentos das distintas classes tomam conhecimento do fato social. A comunicação é um meio de extrema importância para os fabricantes conseguirem estabelecer o obsoletismo programado. Não basta lançar um produto no mercado, é necessário apresentá-lo às classes inferiores e superiores. Primeiro para que estas o comprem de imediato; e segundo, para que aquelas tenham o desejo de comprá-lo. Portanto, assim, como Durkheim os fatos sociais não podem ser vistos da perspectiva individual, mas sim da ação da sociedade sobre tal indivíduo. Neste caso específico fica claro que as imposições sociais fazem com que necessidades surjam entre os indivíduos.

Conclusão

Pôde-se perceber neste estudo a grande influência que a sociedade possui sobre o indivíduo e suas ações. O que faz com que os grandes fabricantes possam facilmente prorrogar o obsoletismo programado. Tal obsoletismo não ocorre somente com telefones celulares. Pode-se encontrar exemplos como computadores, automóveis, e até mesmo produtos mais simples como fogões, geladeiras, aparelhos de som, etc. Uma prova que de tecnologia realmente avançada está no telefone de cartão, que consegue cumprir às exigências que esta se propõe: prática, de fácil uso e manutenção, barata e eficiente. Fazer com que as pessoas percebam este engano se torna um problema vital para um grande avanço tecnológico e cultural da sociedade. Todavia, com as determinações e pressões sociais existentes, torna-se uma tarefa extremamente difícil. E, considerando-se os interesses econômicos envolvidos, quase impossível, pois, como afirma BERGER, pode-se concluir:

"A sociedade não só controla nosso movimentos, como ainda dá forma à nossa identidade, nosso pensamento e nossas emoções. As estruturas da sociedade tornam-se as estruturas de nossa própria consciência...

As paredes de nosso cárcere já existiam antes de entrarmos em cena, mas nós a reconstruímos eternamente. Somos aprisionados com nossa própria cooperação... 

Em suma, a sociedade constitui as paredes de nosso encarceramento na história."
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