O Consumismo e o grande erro da expressão: ‘Jogar o Lixo Fora’

Luiz Eduardo Corrêa Lima

Dentre os vários conceitos errôneos que a modernidade, o consumismo e o capitalismo têm propositadamente produzido para enganar as pessoas através do “marketing” e da propaganda enganosa, tem um que está me preocupando muito e tem causado grande transtorno na minha mente. Aliás, não só a mim, como também a todos os ambientalistas e as pessoas sérias, que ainda pensam e que estão preocupadas com as questões ambientais planetárias. O conceito em questão é o que está contido na expressão: “jogar o lixo fora”. Essa expressão, embora corriqueira, é bastante problemática e deveria dar margem a uma grande discussão. Acredito mesmo que, por fim, essa expressão deveria ser banida do vocabulário em todas as línguas e eu vou aqui fazer um pequeno preâmbulo para tentar esclarecer porque eu e algumas pessoas pensam dessa maneira.

Primeiramente, eu vou tentar explicar a ideia que se tem sobre aquilo que se convencionou chamar de lixo ou resíduo sólido (resíduo inútil ou inaproveitável).

Segundo o Dicionário de Aurélio Buarque de Holanda, na sua primeira Edição (1975), lixo é: “aquilo que se varre da casa, do jardim, da rua, e se joga fora (grifo nosso); entulho; tudo o que não presta e se joga fora (grifo nosso); sujidade, sujeira, imundície; coisa ou coisas inúteis, velhas e sem valor. Em edição mais recente, o autor também diz que lixo são: “resíduos que resultam de atividades domésticas, industriais e comerciais”.

A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) considera que lixo ou resíduo (grifo nosso): “São os restos das atividades humanas, considerados pelos geradores como inúteis, indesejáveis ou descartáveis. Normalmente, apresentam-se sob estado sólido, semissólido ou semilíquido (com conteúdo líquido insuficiente para que este possa fluir livremente)” (ABNT, 1987).

De acordo com a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (1997), resíduos sólidos ou simplesmente lixo: “é todo e qualquer material sólido proveniente das atividades diárias do homem em sociedade, cujo produtor ou proprietário não o considere com valor suficiente para conservá-lo”.

Bem, acho que já basta e vou parar nessas três definições, porque elas já são mais que suficientes para que possamos refletir sobre o que seja lixo. Entretanto, se o houver necessidade, existem várias outras disponíveis na INTERNET para quem quiser se informar mais sobre o assunto.

Para começar minha explicação, devo dizer que embora sejamos obviamente seres naturais, a natureza ao contrário do homem, não conhece, não produz e nem admite a existência daquilo que chamamos lixo. Pois então, nesse sentido, quando produzimos lixo, somos seres diferentes dos demais seres naturais. Na natureza, TUDO (ABSOLUTAMENTE TUDO) é útil e aproveitável. Na natureza, qualquer sobra é momentânea, de alguma maneira e em tempo consideravelmente rápido, tudo é transformado “biofisicoquimicamente” e reaproveitado. Desta forma, nunca chega a ser uma “coisa inútil” como diz a definição do Aurélio a respeito do lixo. Assim, há de concluir que efetivamente o lixo é um atributo exclusivo, definido e criado pelo Homo sapiens à revelia da natureza e dos mecanismos naturais.

Por outro lado, é preciso esclarecer que foi o homem que produziu e desenvolveu algumas coisas que “a natureza não conhece e não entende físico-quimicamente” e assim, ela não pode transformar essas coisas, ou se até pode, ela necessita de muito trabalho (energia) e condições temporais próprias para conseguir tal feito, o que dificulta e muitas vezes impede a transformação. Pois então, somente essas coisas que o homem produziu e que “a natureza não conhece e não entende” é que podem ser realmente chamadas de lixo.

Hoje, inventamos muitas dessas coisas: lixo eletrônico, lixo nuclear, lixo tóxico e tantas outras coisas que a natureza não conhece direito, que ela tem dificuldade de degradar para reaproveitar e talvez seja por isso mesmo que, além da superutilização de seus limitados recursos pelo homem, ela esteja ultimamente reclamando bastante e causando sérios transtornos através de eventos catastróficos cada vez mais significativos. Em suma, lixo é apenas uma invenção do homem para nominar aquilo que ele criou e não lhe interessa ou não lhe convém mais como material. O problema é que o homem transfere a sua responsabilidade e deposita esse material que ele não quer e que “a natureza não conhece e não entende” na própria natureza.

Outro conceito que eu gostaria de discutir um pouco e a noção que está contida na expressão “jogar fora”, isto é, “jogar não dentro”, ou seja, lançar alguma coisa em lugar externo. Pois então, essa é mais uma ilogicidade, porque, do ponto de vista planetário, não há nenhuma possibilidade de “jogar fora”, haja vista que da mesma maneira que qualquer coisa que utilizamos é um recurso natural, isto é, um material vindo da natureza, do Planeta Terra. Aliás, embora seja óbvio, mas parece que a gente esquece, e então cabe ressaltar, que a Terra é o único lugar que temos e de onde tiramos todas as coisas que utilizamos. Assim também, todo o resíduo que nós produzimos e chamamos de lixo é depositado aqui, no mesmo Planeta Terra. Quer dizer, “jogar fora” é algo que não existe, porque os resíduos são depositados aqui mesmo, pois tudo acontece DENTRO do Planeta Terra.

A diferença básica entre a ação planetária e a ação humana e que a Terra sabe tratar o seu resíduo rapidamente e assim o resíduo não se acumula, não se espalha, não atrapalha e nem degrada o local (Meio Ambiente), onde é lançado. Já o Homo sapiens, infelizmente, só aprendeu a gerar (produzir) resíduo e historicamente nunca achou importante tratar esse tipo de material, até recentemente. Sempre consideramos o lixo como sendo algo muito ruim, mas tão ruim mesmo, que nunca mereceu qualquer preocupação ao longo de nossa história. Pois então, talvez o lixo é realmente algo muito ruim, mas é algo que nós inventamos, criamos e desenvolvemos, por isso cumpre a nós, os seres humanos, a obrigação de cuidar dele, para que não cause nenhum mal a ninguém e nem prejudique o Planeta Terra.

Atualmente, alguns seres humanos já estão pensando de maneira diferente em relação ao lixo e estão tentando imitar a natureza, trabalhando para minimizar os efeitos desenvolvidos ao longo da história com a produção de coisas que “a natureza não conhece e não entende”. Além disso, também existem seres humanos entendendo de maneira mais clara que a expressão “jogar o lixo fora” é falaciosa, pois na verdade, indica apenas uma troca de lugar, mas deixa o lixo aqui mesmo, haja vista que tudo ocorre dentro do planeta. A expressão “jogar o lixo fora” só nos fez estocar cada vez mais materiais que “a natureza não conhece e não entende” dentro do planeta, muitas vezes ocupando espaços nobres ou estragando (poluindo e envenenando) totalmente imensas áreas planetárias. Bem, de minha parte, eu vou torcer e continuar lutando para que essa maneira de pensar ganhe progressivamente mais força e que mais humanos se preocupem com a retirada inconsequente de recursos naturais e com a produção absurda de lixo no planeta.

A única espécie que retira da natureza aquilo que não precisa é a espécie humana e o pior é que depois ainda deixa o resíduo daquilo que não aproveitou. Para minimizar alguns desses problemas tem sido extremamente comum ouvirmos falar em Reciclar, Reaproveitar, Recuperar e Reutilizar. Entretanto é preciso ter em mente que reciclar é benéfico, reaproveitar é o ótimo, recuperar e sensacional, reutilizar é importantíssimo, entretanto, não consumir é que é fundamental. É preciso que o Homo sapiens tenha mais parcimônia e coerência na utilização dos recursos naturais para não exaurir esses recursos que estão cada vez mais escassos, para não degradar o planeta e principalmente para não produzir resíduos que não possam ser tratados.

A mesma modernidade massificante e o mesmo capitalismo selvagem que nos trouxeram o consumismo exacerbado em que a humanidade tem vivido, mormente nos últimos anos, talvez também possam trazer o remédio que trará a cura que estamos precisando para consumir menos, aproveitar mais os recursos naturais e consequentemente produzir menos lixo no planeta. O trabalho é relativamente simples, basta apenas investir com afinco num modo de fazer a humanidade entender que só teremos algumas coisas enquanto a Terra permitir que tenhamos e nós precisamos trabalhar para fazer com que a Terra continue permitindo. Para que a Terra continue fornecendo esses recursos que precisamos, é fundamental começar a propaganda e o “marketing” para que passemos a consumir progressivamente menos. Acredito que perdas econômicas certamente sejam muito mais interessantes do que a possível extinção da espécie em consequência da carência de recursos naturais e do excesso de lixo.

No passado, nós seres humanos, por conta da nossa busca incessante pela felicidade, fizemos muitas coisas erradas. Entretanto, nós estávamos bem-intencionados e não sabíamos que aquelas coisas eram erradas. Infelizmente nós ainda não tínhamos praticamente conhecimento de Ecologia. Hoje, porém, nós não podemos e nem devemos continuar cometendo os mesmos erros do passado, até porque, hoje nós sabemos efetivamente quais são esses erros e continuar a errar conscientemente é idiotice pessoal e loucura coletiva.

A Terra é um planeta único do qual já estamos retirando anualmente cerca de 30% a mais do que seria possível repor em igual período de tempo, isso sem contar o lixo que produzimos e que volto a dizer “a natureza não conhece e não entende”. Isto é, nós já ultrapassamos o limite do possível e começamos a andar contra a realidade física. A persistir assim nessa incongruência a humanidade não terá como se manter. Acredito que esteja na hora de pararmos, refletirmos e refazermos o nosso conceito de felicidade e a nossa noção de qualidade de vida. Podemos começar entendendo que tudo vem da natureza, que apenas nós produzimos lixo e que na verdade nada se joga fora.

Luiz Eduardo Corrêa Lima (58) é Biólogo, Professor, Pesquisador, Ambientalista e Escritor;Vice-Presidente da Academia Caçapavense de Letras (ACL); foi Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Caçapava.

Disponível em EcoDebate

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