Jogos eletrônicos, violência e formação de valores na infância

Claudia Lúcia Menegatti 

Brincar é uma atividade essencial na infância. É por meio da brincadeira que a criança explora o ambiente em que vive, atribuindo vida aos objetos. Na atualidade, as crianças têm uma infância mediada pelo eletrônico e há vários questionamentos sobre os jogos, o conteúdo exibido e como a violência é tratada nessas mídias de modo geral. O grande desafio de pais e educadores é mediar a exposição aos jogos eletrônicos, para que crianças e adolescentes sejam estimulados a pensar criticamente sobre os conteúdos apresentados.

A psicóloga Cláudia Menegatti respondeu às perguntas que os internautas ajudaram a fazer. Confira a entrevista completa.

Podemos dizer que alguns jogos eletrônicos incitam a violência nas crianças? Isso pode influenciar a personalidade delas? O que os pais devem fazer? E os professores podem interferir?

As pesquisas indicam que a exposição a jogos eletrônicos violentos aumenta a taxa de comportamento agressivo entre pares. Se nós pensarmos que a criança está em formação do seu "eu" ou personalidade, precisamos estar atentos à exposição - especialmente se for intensa, frequente e inapropriada - a tais jogos. São influências importantes, sim, mas não determinantes de personalidade. A personalidade se forma por um conjunto complexo de fatores, incluindo variáveis biológicas, psicológicas e ambientais. 

Professores e pais têm a tarefa da supervisão e colocação de regras e limites no uso de jogos eletrônicos e afins. Não podemos nos ausentar disso, precisamos estimular a reflexão e crítica sobre essas mídias. Não podemos "normalizar" ou "banalizar" a violência apresentada nessas condições, a diversão de crianças e adolescentes - como outros aspectos da vida deles - deve ser supervisionada.

Acredito que os pais precisam estar atentos aos jogos usados pelos filhos. Qual é o papel dos educadores nesse sentido?

O papel dos pais e educadores é colocar limites e regras no uso. Quanto menor a criança, mais reduzido deve ser o tempo de exposição e maior a possibilidade da brincadeira de fato, psicomotora, ativa, diante do mundo. Deve ser dada atenção também à apropriação dos temas e conteúdos dos jogos, observando-se as faixas etárias indicativas.

A partir de que idade pode-se dizer que a criança tem seus valores formados, tornando-se menos influenciável? 

Quanto mais velha, menos influenciável, mas não podemos tomar como tarefa de desenvolvimento concluída antes que a adolescência termine. A criança e o adolescente recebem múltiplas influências e precisam dar conta delas ao longo de todo o processo, especialmente tendo um adulto responsável como interlocutor de suas experiências.

Acredito que as questões que os jogos "trabalham" - superação de desafios, persistência, fantasia X hiper-realismo - podem ser desenvolvidas de outras maneiras. Mas não dá para ignorar o quanto as crianças e adolescentes curtem um jogo eletrônico. Acho que a maioria de nós, adultos, não tem tempo nem paciência para conhecer esses jogos. Há algo que preste? Sou a favor de colocar limites bem rígidos para que as crianças tenham a oportunidade de brincar de outras coisas. Afinal, é muito fácil brincar com um jogo que não precisa de mais ninguém, é muito cômodo. Existem leis que normatizam esses jogos? Quais são as proibições que existem no Brasil (se é que existem)?

Os jogos não têm, evidentemente, só desvantagens. Trazem vantagens também, como superação de desafios, persistência e desenvolvimento do raciocínio lógico. Há muitas coisas boas no mercado, jogos estratégicos e simulações.

É importante prestar atenção que os jogos têm indicação de faixa etária, e isso deve ser observado antes de se permitir à criança sua utilização. É fundamental a conscientização dos pais para que possam abrir mão da conveniência da brincadeira eletrônica (conveniente com o modo de vida atual, nas casas sem quintais, e na ausência de tempo familiar compartilhado) e incentivar também as formas de brincar tradicionais.

Não há como voltarmos no tempo, essas influências eletrônicas estão profundamente presentes em nossas vidas, mas podemos manter atenção sobre elas.

Há quem diga que o menos importante de um jogo de videogame é o conteúdo, que ele é apenas um pretexto para a ação e a narrativa e não tem muito valor. Por isso não influencia negativamente as crianças. O que você acha disso?

A ação do jogo prende a atenção das crianças, mas o conteúdo é transmitido também, e é extremamente relevante. As crianças são permeáveis ao conteúdo oferecido, e é papel de pais e educadores prestarem atenção a essa poderosa influência, exercendo a mediação e a crítica a respeito dele.


Pessoas que participaram desta entrevista:
Marlynete de Oliveira Barros Mendes
Maíra Villas Bôas Estima
Daiane de Lima
Elaine de Andrade Celeghini Rosa Vicente

Disponível em http://www.aprendebrasil.com.br
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