Os lugares como Objetos de Consumo

Você já pensou na possibilidade de comprar uma mercadoria, um produto e não levá-lo para casa? Será que isso é possível?

Com a intensificação da globalização imposta pelos avanços nos meios de transportes e telecomunicações, pessoas, produtos e serviços passaram a circular pelos diferentes continentes com maior rapidez e facilidade, passaram a percorrer maiores espaços em menor tempo. A cultura dominante passou a ser mostrada como o modelo a ser seguido através dos meios de comunicação de massa. Indiretamente, estimulam os consumidores visuais a adotarem determinados padrões que lhes são passados pela TV, pois estes sim são modernos, sinônimos de prosperidade, de sucesso, de modernidade.


Para muitos, essa massificação cultural poderia representar a extinção da diversidade cultural. Os lugares estariam se tornando homogêneos em todo o planeta. Tudo estava ficando igual. Nesse contexto, ganha destaque a produção do lugar para o turismo. 

Para atender a determinado tipo de turista (consumidor temporário de espaços), verifica-se a diferenciação dos lugares, onde os vilarejos, as pequenas, médias ou grandes cidades tentam manter determinadas diferenças para que estas sejam consumidas pelos turistas. Muitas cidades encontram na manutenção dessas diferenças sua fonte de renda no mundo globalizado. Este foi o jeito que tais lugares encontraram para se inserirem na globalização, oferecendo-se como espaços de consumo culturalmente diferenciados, algumas vezes evidenciando modos de vida (ex.: turismo rural, turismo étnico, ecoturismo).

No momento atual, denominado pelo grande estudioso e professor Milton Santos (1926-2002) de período técnico-científico-informacional, criam-se novas formas de consumo, denominadas de não-material, como o turismo. Para atender a essa nova forma de consumo que é visual, criam-se lugares turísticos, repletos de encantos, tornando o espaço “coisas”, mercadorias passíveis de serem consumidas, objetos de desejo. Podemos citar como exemplo dessa produção de lugares alguns parques temáticos, como o Beto Carreiro World (SC), o Play Center (SP), a Disneylândia (inicialmente nos Estados Unidos e que hoje se espalha por diversos países do globo), o Hoppi Hari (SP), consumidos por crianças, adolescentes e adultos, além de resorts como Costão do Santinho (SC), Costa do Sauípe (BA), dentre outros.

Mas como um lugar torna-se vendável ou deixa de sê-lo? Como esses elementos tornam-se alvos de nosso desejo? Através da intensa publicidade, meios de comunicação, das inovações tecnológicas, das estratégias do mercado, dos modismos esportivos e culturais e critérios estéticos. Os lugares turísticos precisam viver inovando em suas técnicas para atrair os turistas com novas ofertas e investir muito em publicidade para não perder valor nesse mercado. Esses são motivos pelos quais os lugares são valorizados ou desvalorizados a cada momento histórico.

Nesse contexto, o valor simbólico da paisagem é apropriado pela publicidade e é incorporado ao desejo das pessoas (ao imaginário), passando a ter valor de venda, como se fosse uma mercadoria.

Com a evolução tecnocientífica, os deslocamentos humanos pelo planeta tornaram-se mais rápidos e eficientes. Empresas de transporte aéreo e terrestre viram no turismo um meio de obter lucro associando-se às redes de hotelaria para promoção da imagem de um lugar, através dos pacotes turísticos, vendidos através de agências que hoje, muitas vezes, são virtuais. Para ilustrar e facilitar nossa compreensão espaço-temporal veja, na tabela 1, os dados elaborados por David Harvey (professor de geografia da Universidade de Oxford - Estados Unidos) sobre a evolução dos deslocamentos humanos.



Podemos dizer que, até o início do século XIX, se um rei desejasse ser conhecido pelos seus súditos, ele precisava percorrer as vilas de seus domínios a cavalo ou em uma carruagem. No início do século XX, os meios de transporte já tinham mudado, mas os lugares não seriam tão facilmente conhecidos como hoje. Através da televisão, da internet, pessoas se tornam mundialmente e instantaneamente conhecidas, assim como os lugares.

Em meio a esse processo de marketing do lugar, verifica-se o fortalecimento das festas regionais, do artesanato, da culinária. A cultura local ressurge, ganha força, mas não mais como manutenção pura e simples da tradição cultural, e sim como uma mercadoria de valor, algo para ser vendido ao consumidor, ao turista. Como exemplos, podemos citar: o festival folclórico de Parintins (AM), onde foi construído o Bumbódromo, para os bois Garantido e Caprichoso realizarem seus desfiles (bumba-meu-boi); o carnaval do Rio de Janeiro; as festas juninas do Nordeste brasileiro, sendo as festas de Campina Grande (PB) e Caruaru (PE) as mais famosas.

Espaços produzidos tecnicamente para atrair turistas (resorts, estações de esqui, águas termais, etc.), que não divulguem intensamente sua mercadoria, sua imagem e seu discurso, podem rapidamente ser substituídos por outros. É o imaginário coletivo que determina se um local vai ser muito ou pouco procurado. Através da propaganda, divulga-se o paraíso, um mundo mágico onde os sonhos podem se tornar realidade. É a ação da magia do discurso divulgado pela intensa publicidade. Caso esse discurso não atinja seu alvo, um local produzido tecnicamente pode “morrer” para o interesse das pessoas.

Assim, os locais são criados e também podem ficar decadentes. Existe um jogo de interesses econômicos, uma estratégia de consumo, que faz com que isso aconteça. Os mesmos interesses que você pôde constatar na construção do espaço urbano também podem ser constatados na produção do espaço turístico, consumível por uns, mas inacessível a tantos outros.

Com a inovação tecnológica e científica, o “mundo ficou menor”, pois a velocidade dos deslocamentos aumentou, possibilitando a uma pessoa realizar a aventura de dar a volta na Terra em, aproximadamente, 80 horas. 

Entretanto, não podemos nos esquecer que tudo é uma questão de acessibilidade, que pode ser analisada por vários aspectos. Um deles é o dinheiro: tê-lo representa grande possibilidade de mobilidade, pois pelo fato de não tê-lo, uma pessoa pode passar a vida sem sair das proximidades do local de nascimento, mesmo nos dias de hoje. 

Outro aspecto da acessibilidade não envolve somente o dinheiro, pois eu posso chegar a Paris (França), situada a aproximadamente 10.000 Km de distância de Curitiba, em menos tempo do que eu gastaria para chegar a Manicoré (Amazonas-Br), visto que eu teria que ir de avião até Manaus (aproximadamente 4.000 Km de Curitiba) e depois pegar um barco que levaria muitas horas para chegar lá, num percurso total que representa a metade da distância até Paris. 

Disponível em SEED
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