Merleau-Ponty e o Cinema como Expressão de Visão de Mundo


Dentro do terreno da fenomenologia (leia o quadro da página 326), o filósofo francês Merleau-Ponty (1908-1961), no seu texto O Cinema e a nova Psicologia, confronta os discursos da psicologia clássica e os da psicologia moderna, a Gestalt (leia o quadro da próxima página), com relação à formação do campo visual e da sensibilidade e suas implicações na produção e percepção do cinema. Merleau-Ponty procura esclarecer a constituição da sensibilidade moderna. Trata-se de uma sensibilidade que assume uma dimensão no campo visual e isso tem relação com o modo como a sociedade moderna se constituiu. O campo visual é o campo de nossa inserção no mundo, é a perspectiva da qual observo e sou observado.

Na psicologia clássica, de cunho mecanicista-racionalista, pensa o mundo de um modo mecânico, automático. Vê o conhecimento como algo lógico e racional somente, o campo visual era descrito como um mosaico de sensações despertadas pelo estímulo na retina. O sentido desse mosaico – partes separadas que o olho recebe e que são justapostas, coladas pelo intelecto – é dado pela inteligência e pela memória. À medida que recebe as imagens, a inteligência, alimentada pela experiência, faz a “colagem”, isto é, a organização desse material. Segundo a psicologia tradicional, a visualização do mundo e o sentido que as coisas possuem, na verdade são dados e montados por uma mecânica de estímulo-resposta e de racionalização do que se percebe. As coisas são vistas separadamente e montadas pelo intelecto. 

Já no terreno da psicologia moderna, a Gestalt, fundamentada na fenomenologia, procura compreender a percepção como um conjunto no qual prevalece a visão. A percepção, segundo essa teoria, se dá de uma vez só, ou seja, o trio cérebro-retina-estímulos não estão separados e montados numa máquina chamada “mente humana”. O processo não é matemático ou automático como se pensava e calculava a psicologia clássica. A percepção do mundo não se dá de maneira intelectiva. Ela acontece já na própria sensibilidade do campo visual, a partir da inserção do sujeito no mundo, ou seja, na percepção está implícita a situação no espaço e no tempo em que o sujeito está inserido. Quando vejo algo, já faço com sentido, isto é, a percepção se dá num todo organizado, numa determinada ordem, que não é necessariamente a ordem lógica ou cronológica, mas que obedece à configuração pela qual posso ler, interpretar, significar, de acordo com sentimentos, com a história de vida, com o contexto social, com os valores morais, enfim, a todo o universo de representações nas quais estou inserido. 

O perceber é também significar, organizar é representar mentalmente com sentido. Os objetos se apresentam à percepção e à mente sempre motivados, como que magnetizados intuitivamente, a partir de algum ponto que chama a atenção. Isso explica porque, duas pessoas, ao observarem a mesma cena ou objeto, “escolhem” determinados pontos centrais, que mais lhe chamam a atenção, ou ainda, como fixamos nossa visão em fundo e figura. Isso não se dá apenas por uma questão de escolha racional, lógica, mas por uma questão de sentido – enquanto organização do campo visual e significado – enquanto ligação emotiva e sentimental, que cada uma constrói no ato mesmo de percepção. 

Quando observo uma paisagem, por exemplo, não busco ou construo sentido num momento posterior ao da retina receber a informação. A percepção não se dá em dois momentos distintos, como se pensava tradicionalmente. Isso tudo acontece ao mesmo tempo em que a observo. A nossa retina é cega e não sabe o que vê, nem escolhe o que ver. Quem faz essa composição, quem dá essa homogeneidade é a percepção mesma. Ao invés de um mosaico de representações temos um sistema de configurações. 

A racionalização do que se percebe, isto é, a construção de teorias abstratas sobre o que se vê, é algo posterior à percepção. A racionalização ou teorização imaginativa é orientada pelas regras lógicas, dedutivas, mas o pensamento analítico e reflexivo é secundário nesse processo. Mais primitivo e natural é a percepção do todo com sentido: “Quando percebo, não imagino o mundo: ele se organiza diante de mim.”, afrma Merlau-Ponty. (PONTY, 1983, p. 22)
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