A proposta da Escola dos Annales e a “História Nova”



Por Alexandre Trad Vieria 

O texto a seguir abordará as três gerações da Escola dos Annales, desde 1929 a 1990, passando pela origem da “escola” e finalizando com a história nova, bem como as suas problemáticas. Portanto, não vamos expor uma discussão longa sobre a trajetória do seu mais ilustre criador, nem tão pouco sobre o surgimento da Escola dos Annales e do seu desenvolvimento[1], mas sim, nos determos sobre as diferenças entre história normal e a Escola dos Annales. Porém, analisaremos a história nova como uma nova retaguarda de defesa e propulsora dos pressupostos criados na segunda década do século XX, bem como proporemos uma discussão para o tema. Ademais, tentaremos expor as nossas idéias conjuntamente com as discussões que foram estabelecidas pelo item quatro da terceira atividade.

Ao criar a Escola dos Annales, Febvre e Bloch, não se preocuparam em criar um paradigma, mas sim propor um novo campo de atuação para a história, conjuntamente com as ciências sociais, buscando a interdisciplinaridade, a fim de retirar-lhe do isolamento, dando-lhe um caráter revolucionário e realizando uma mudança considerável no conhecimento histórico. Os defensores dos Annales, na verdade, quiseram propor uma nova concepção de ciência histórica ao rejeitar a “história normal ou historiografia tradicional” [2], provocando então, a ideia de progresso para a história e estabelecendo um novo olhar e um novo pensar histórico. A “revolução científica” [3] promovida no campo histórico, ou melhor, dizendo, o(s) paradigma(s) [4] criado(s) no campo da História, só tornou-se possível por meio da associação e do compartilhamento dos conhecimentos históricos com outras ciências sociais, no intuito de provocar, “uma mudança substancial ou uma descontinuidade no saber histórico” [5].

O estudo dos métodos e novas possibilidades para a história têm se tornado verdadeiramente importante e imprescindível, diante dos paradigmas das ciências sociais e humanas e de nossa sociedade como um todo. Algumas tentativas foram de extremo valor e buscaram dar respostas às diversas e novas demandas do pensamento historiográfico.

No século XIX, momento decisivo no sentido de definir o papel do historiador e por conseqüência da história enquanto ciência, foi possível verificar e ampliar o conceito de método das ciências naturais para investigar e verificar a verdade histórica dos fatos [6]. Outra importante preocupação do século XIX foi com relação à fidelidade das informações retiradas dos documentos considerados até esse período, como verdade absoluta e inquestionável, não sendo papel do historiador questioná-lo e muito menos inferir sobre a sua interpretação.

Os historicistas que nos darão as primeiras brechas para uma flexibilidade maior diante do documento afirmavam que o objeto do cientista natural é infinitamente diferente do cientista social – natureza e cultura. Para a ciência da cultura teríamos elementos novos que somariam aos métodos da ciência natural, ampliando-os e os tornando viáveis para a análise histórica. Os elementos de que estamos falando, estariam fora dos campos possíveis de comprovação através da lógica formal – seria eleger elementos que nos trouxessem aspectos da vida dos sujeitos históricos, do cotidiano e ainda do imaginário. A intuição, a compreensão e a empatia seriam elementos que poderiam trazer essas novas variáveis, para que fossem incorporados ao pesquisador da história.

O fato histórico a partir dessa abordagem, de história enquanto ciência da cultura, se tornando mais acessível, permanece único e irrepetível, preservando fortes traços do positivismo comteano, mas sua compreensão agora é distinta. O método, então perde o formato positivo onde as comprovações seriam obrigatórias, devido a forte influência dos métodos conhecidos das ciências naturais.

O historiador em sua pesquisa, a partir do pensamento historicista perderia inúmeras regras, reveria as antigas noções sobre instrumental teórico e a documentação. O historiador se liberta das amarras do método das ciências naturais, utilizando a partir de então, sua própria intervenção nas análises, criando uma sensibilidade desenvolvida por inferências, comparações e quantificações, sendo a principal arma a manipulação das fontes. Para estimular a sensibilidade, segundo a concepção historicista, o historiador pode utilizar-se de técnicas: a crítica documental, algumas regras de hermenêutica e conceitos de psicologia para conhecer os estados mentais dos sujeitos históricos.

Falar de ciência histórica não é, e nunca foi simples, mas as dificuldades de linguagem introduzem em seu próprio âmago as ambiguidades da história. A palavra HISTÓRIA vem do grego antigo HISTORIE, em dialeto jônico. Nessa concepção HISTORIE significa procurar. É este o sentido desta palavra em Heródoto, no início das suas investigações, procuras. Ver logo saber, esse é o primeiro problema. Mas nas línguas românicas HISTÓRIA exprime três conceitos diferentes: procura das ações realizadas pelos homens; objeto de procura e o que os homens realizam [7]. Portanto, o conceito de historicidade no século XIX, desligou-se das suas origens, para desempenhar uma renovação epistemológica na segunda metade do século XX.

A historicidade permite refutar no plano teórico a noção de sociedade sem história, mas atira o conhecimento histórico ou ainda o historiador em uma espécie de furacão de banalidades, chegando ao caos da produção da história pela história, ligando uma prática interpretativa a uma prática social.

O historicismo encarado como sendo uma tentativa de desvencilhar a ciência histórica dos grilhões das ciências positivas, nos parece muito pertinente. O referencial do historiador Durante um grande período, a historiografia tradicional tratou a história como uma história linear, uma história onde os eventos ou fatos se sucediam eminentemente atrelado aos grandes personagens.

O tempo nessa concepção historiográfica representa uma simples cronologia medida de forma positiva, separando totalmente homem, natureza e mentalidades. Torna-se importante discutir algumas concepções sobre o tempo, suas velocidades, ritmos e frequência.

Com o movimento da história nova, vários historiadores deixaram grandes contribuições, muitas delas revolucionárias e transformadoras. Na concepção de Fernand Braudel, o tempo teria três ritmos, entre eles teria uma enorme diferença, tornando-se impossível fazer tábula rasa da história. Nessa distinção, podemos argumentar que o grande dilema dos historiadores positivistas está em compreender o tempo de duração diferente: longa, curta, curtíssima e breve. [8]

Segundo as considerações de José Carlos Reis, sobre o tempo, pode-se afirmar que o tempo está dividido em quatro instâncias essenciais, interdependentes e específicas, distribuídas em “níveis temporais”. [9]

As duas concepções de tempo demonstram que para construirmos um saber histórico, ou uma ciência da história, teremos que utilizar caminhos que passem necessariamente por uma análise não-linear, não-cronológica, que busque a compreensão da multiplicidade, da coletividade, para desmistificar o imaginário suspenso e flutuante, que abriram novos problemas para entendermos as sociedades em sua particularidade e em abordagens diversas.

O início do século XX foi extremamente marcante para a escrita da história. Foi nesse século que os horizontes da historiografia se ampliaram de maneira considerável, mas o que observamos é que novos problemas são apresentados para os historiadores a cada dia. Entre as conquistas da história nova, a que mais nos impressiona é a divulgação histórica. A história deixa de ser tratada e escrita somente por especialistas e invade todos os espaços possíveis. Ela foi capaz de abandonar os paradigmas do passado, inverter a lógica da abordagem, abandonar a construção de uma história eminentemente política, deixando de lado a história dos grandes homens e personagens, ressuscitando os silêncios da história, os mudos, as mazelas, para inaugurar uma história vista de outro ângulo interpretativo.

O avanço foi considerável, pois além de inverter o enfoque da historiografia contemporânea, retoma o caráter popular da história, levando às mãos das pessoas que se interessam pela história, uma leitura sem o rebuscamento da história construída para especialistas. A construção histórica do século XX abandona a prateleira das livrarias e bibliotecas especializadas e invade o universo do homem comum, do leitor leigo, do não-especialista, das pessoas que se interessam pela história, mas que tem outra formação científica, ou ainda aqueles que somente se interessam pela história, ou seja, os leitores comuns.

Jacques Le Goff, evidencia alguns dos fenômenos que assinalam a emergência de um novo campo do saber:

A afirmação de ciências – seja francamente novas, seja surgidas há décadas, mas que atravessam então o limiar da divulgação universitária: sociológica, demografia, antropologia, etnologia, etiologia, etc. 
A renovação – seja em nível da problemática, seja em nível do ensino, ou dos dois, de ciências tradicionais, mutação essa que se manifesta, em geral, adjunção do epíteto “novo” ou “moderno”. 
a interdisciplinaridade – que traduz no surgimento de ciências compósitas que unem duas ciências. [10] 

Ao contrário do que se pensa a história construída pelos Annales ao se associar com as ciências sociais ao abrir as portas, “mesmo que a força” à interdisciplinaridade, aproveitou-se dos seus diversos campos de atuação “adotando o seu ponto de vista, emprestando-lhes objetos, instrumentos, métodos e oferecendo-lhes a dimensão do tempo, conseguiu estabelecer a duração de seus objetos e saberes e limitou os modelos e os resultados de sua pesquisa” (REIS: 1999, ps. 64-65). Portanto, a história foi recolocada em um contexto de multiplicidade, onde as ferramentas para a sua escrita se tornaram livres das amarras dos métodos das ciências naturais, tornando-se um fator único e universalizante para a história, garantindo a ela uma originalidade devido a sua tradição e solidez demarcada pelos séculos de construção de conhecimentos e acúmulo de informações.

Ao contrário das hipóteses de Michel Foucault demonstradas acima, J. C. Reis, argumenta que a história pretendia somente tomar-lhe emprestados os seus métodos, técnicas, objetos e conceitos, a fim de promover o avanço científico histórico e estabelecer um novo programa para a história [11]. Ao contrário de Foucault e Reis, Le Goff propõem três hipóteses sobre a possível originalidade da história [12], fundamentadas a meu ver, em um certo distanciamento da filosofia da história, a fim de se lançar em diversas frentes na busca da unidade das ciências sociais.

Há quem se preocupe com a originalidade da história. No entanto, nossas preocupações não estão nesse mesmo nível, pois se o objeto da história é o movimento humano, enquanto houver humanidade haverá história na mesma medida. O homem é nossa preocupação, ou em outras palavras “a História é o homem” (MOTTA: 1978, P. 17). Portanto, fazer conexões com outras ciências, – ou seja, a busca da interdisciplinaridade, não conseguiu encontrar um método científico para ser aplicado à história –, não ampliou o campo da investigação histórica e nem tão pouco causou a perda da identidade, a fragmentação, a dissolução, mas sim ampliou o objeto do conhecimento histórico, deixando então de ser abstrato para se tornar objetivo. A História ao contrário do que pensava Febvre, Bloch e Braudel, não tem se preocupado com as questões relacionadas a método científico na busca de um conhecimento exato, nem tão pouco seguir as orientações de outras ciências, mas sim, resgatar a memória e reencontrar o passado no tempo presente, sem se preocupar com a “história ciência” e a “história conhecimento”.

Entretanto, cabe-nos refletir sobre os pressupostos levantados por Reis sobre a construção da história. Para Reis, a história está ameaçada pela interdisciplinaridade, ou seja, ela “se perdeu nos objetos e problemas das ciências sociais” (REIS: 1999, p. 67). Para a história manter a sua unicidade de existência, ela precisará rever os seus pressupostos sobre o tempo histórico, aproximar-se um pouco mais da filosofia e desvencilhar-se das pesquisas particularistas e localizadas, buscando um método coeso para alcançar a unicidade. [13]

A mais importante renovação da ciência histórica no século XX, que possibilitou o avanço da história, talvez seja a ampliação do universo documental, que hoje tem dimensões inimagináveis, desde aspectos da vida cotidiana, cultura material, mídias, arquitetura, oralidade, etc. A história vive hoje uma revolução documental que implica necessariamente em uma reavaliação dos métodos usados para lidar com as fontes, mesmo com aquelas tradicionais, conjuntamente com as fontes citadas acima. A Escola dos Annales possibilitou ao historiador de hoje buscar fontes variadas, múltiplas, de origens diferentes, que exprimam os diversos aspectos das manifestações humanas, para se aproximar mais do seu objeto.

Melhor que outras ciências humanas, que não conseguem se renovar e as “ciências novas” que dificilmente encontram uma identidade definida e um objeto claro, a história cujos profissionais dispõem de uma sólida bagagem e de uma formação que, muito embora seja pouco penetrada pelo espírito da história nova e não favoreça o exercício da inteligência, proporciona uma base institucional firme, apoiando-se em sua longa tradição e tendo a sua retaguarda bem protegida. Na verdade o que podemos argumentar diante das discussões expostas sobre a história para a filosofia (ou sobre os problemas da história), é que cabe a comunidade científica definir um novo paradigma sociológico, para que ela tome novos rumos na construção do conhecimento. 
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[1] Sobre o surgimento e as primeiras discussões da Escola dos Annales ver: Carlos Guilherme Mota, História, (Grandes cientistas sociais; 2). São Paulo, 1978; Jacques Le Goff, A história nova. São Paulo, 1998; e J. C. Reis, A história entre a filosofia e a ciência. São Paulo, 1999, ps. 69-92.

[2] Segundo J. C. Reis, o que ocorreu foi uma luta epistemológica com a história tradicional. Reis também propõe a hipótese de que: “(...) uma revolução científica dos cientistas sociais contra os historiadores tradicionais. Aqueles queriam que estes revissem todo o seu método de abordagem da realidade humana. Pode-se verificar, aqui, a situação de um ‘confronto de paradigmas’ que Kunh considera como constituidora de uma revolução científica. As ciências sociais eram capazes de pôr os novos problemas e de soluciona-los com os seus métodos novos, enquanto a história normal estava inteiramente alheia às novas condições da história efetiva e do seu conhecimento. Neste confronto, só havia dois caminhos para a História: ou mantinha sua velha forma e perdia seu espaço institucional para os novos paradigmas, ‘traduzindo-os’ para o discurso especificamente histórico. O confronto de paradigmas inclui, aqui, três atores: os historiadores tradicionais, os cientistas sociais e os historiadores que vão aceitar as propostas destes (...)”. J. C. Reis, A História entre a filosofia e a ciência. São Paulo, 1999, p. 60.

[3] O termo “revolução científica” exibido no texto, é entendido como um programa proposto pela Escola dos Annales. Segundo Reis o “(...) programa proposto pelos fundadores consistia fundamentalmente no seguinte: a interdisciplinaridade, a mudança dos objetos da pesquisa, que passavam a ser as estruturas econômico-social-mental, a mudança na estrutura da explicação-compreensão em história, a mudança no conceito de fonte histórica e sobretudo, embasando todas as propostas anteriores, a mudança do conceito de tempo histórico, que agora consiste, fundamentalmente, na superação estrutural do evento. (...)”. J. C. Reis, A História entre a filosofia e a ciência. São Paulo, 1999, p. 63.

[4] São diversos os historiadores que discordam da ideia de uma “revolução científica” na ciência histórica, dentre eles destacamos, Iggers, Jean Glénisson, J. Revel.

[5] Ver J. C. Reis, A História entre a filosofia e a ciência. São Paulo, 1999, ps. 62-63.

[6] E. Carr, ‘A causa na história’. In: O que é história? Rio de Janeiro, 1996, ps. 121-142.

[7] Jacques Lê Goff, História e memória. São Paulo, 1996, ps. 17-18.

[8] Michel Vovelle, ‘A história e a longa duração’. In: Jacques Lê Goff, A história nova. São Paulo, 1998, ps. 65-98.

[9] José Carlos Reis, Tempo, história e evasão. Campinas, 1994.

[10] Jacques Le Goff, ‘A história nova’. In: Jacques Le Goff, A história nova. São Paulo, 1998, ps. 25-64.

[11] Segundo a hipótese de J. C. Reis, “(...) as ciências sociais humanas são um ‘metaconhecimento’ do triedo dos saberes que constituem a episteme moderna; os ‘Annales’ poderiam ser um metaconhecimento das ciências sociais – posição, assim como a das ciências humanas (...). Privilegiada, pois pode usar um volume inesgotável e rico de saberes; perigosa, pois pode destruir-se, fragmentar-se e perder sua identidade (...)”.J. C. Reis, A História entre a filosofia e a ciência. São Paulo, 1999, p. 65.

[12] Le Goff, aventa três hipóteses sobre a história: “(...) – ou a história, prosseguindo sua investida sobre as outras ciências humanas, absorve-as numa pan-história, ciência global do homem, dos homens no tempo; – ou produz-se uma fusão entre as três ciências sociais mais próximas: história, antropologia e sociologia. (...); eu preferia chamá-la de ‘antropologia histórica’; – ou, deixando de ser sem fronteiras e de flertar com todas as outras ciências humanas, a história se entrincheiraria num novo território, operando um novo ‘corte epistemológico’. (...)”Jacques Le Goff, ‘A história nova’. In: Jacques Lê Goff, A história nova. São Paulo, 1998, ps. 56-57.

[13] Diante da perda da identidade da história, Reis propõem duas possibilidades para a sua existência: “(...) ou ela prossegue vertiginosamente em suas alianças e a ameaça de autodissolução, de fragmentação em partículas minúsculas, se agrava, ou aceita a rediscutir suas recusas de base e tenta reencontrar, sob novas bases, a narrativa, o evento, a história política, o sujeito, a consciência, a influência da filosofia (...)”.J. C. Reis, A História entre a filosofia e a ciência. São Paulo, 1999, p. 67. 

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