Ideologia


Heitor H. Sayeg 

O termo ideologia surge no contexto das Revoluções Burguesas europeias entre os séculos XVIII e XIX e está intimamente ligado à estruturação da nova sociedade que surge a partir destes processos. Inicialmente, a ideologia buscava substituir a teologia enquanto “ciência das idéias”, visto que o mundo tornava-se cada vez mais racional e técnico enquanto a religiosidade perdia espaço na sociedade que se industrializava. 

Ideologia refere-se, portanto, ao campo das idéias, das crenças, dos valores e das práticas compartilhadas por uma determinada sociedade, podendo ser identificado como um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações, normas e regras que buscam passar aos indivíduos de um determinado grupo o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Nesta concepção, a função social aplicada à ideologia é o de normatizar e regular as ações individuais em torno de idéias comuns ao grupo. Podemos identificar três características principais no conjunto de ideologias:
  1. Conjunto de crenças de um grupo social, onde estão incluídos valores, idéias e projetos do grupo social; 
  2. Crenças ilusórias, baseadas em critérios impossíveis de serem comprovados e que contrastam com o conhecimento científico;
  3. Um processo geral de criação de significados e idéias deste grupo social. É importante ressaltar que a ideologia não origina-se em si mesma, mas a partir de elementos extra-ideacionais, tais como a luta de classes, luta pelo poder ou economia. 
Também é possível apresentarmos uma visão crítica a respeito do próprio conceito de ideologia, assim como qual seria verdadeiramente sua função social; neste sentido, não podemos descartar as contribuições de Karl Marx e Friedrich Engels em seu livro A Ideologia Alemã (1845). Segundo estes autores, as idéias dominantes de uma época são as idéias da classe então dominante. Podemos deduzir a partir desse pressuposto que, para manter sua dominação, interessa a essa classe fazer que seus próprios valores sejam aceitos como certos por todas as demais classes sociais; o discurso ideológico se caracteriza exatamente por pretender anular a diferença entre o pensar, o dizer e o fazer, criando uma lógica que consiga unificar pensamento, linguagem e realidade, obtendo a identificação de todos os sujeitos sociais com uma imagem particular universalizada: a imagem da classe dominante. Desta maneira, segundo a tradição marxista a ideologia teria como principal objetivo a manutenção do status quo da estrutura social e o foco das atenções não deveria ser o que uma pessoa diz, mas o motivo pelo qual ela diz. 

Surge daí um corpo de representações e normas através do qual as classes sociais se representarão a si mesmas e à vida coletiva. É exatamente esse o campo da ideologia, no qual estes sujeitos explicam as formas de suas relações sociais, econômicas e políticas, explicam as formas “corretas” e “verdadeiras” de conhecimento e ação social e justificam, através de ideias gerais (o Homem, a Pátria, o Progresso, a Família, a Ciência, o Estado), as formas reais da desigualdade, dos conflitos, da exploração e da dominação como sendo, ao mesmo tempo, “naturais” (isto é, universais e inevitáveis) e “justas” (do ponto de vista das classes dominantes). 

Marx e Engels apresentam os três elementos básicos que caracterizam o conceito de ideologia e também sua compreensão crítica da sociedade capitalista: 
  • Separação – resultante da divisão da vida humana em duas instâncias específicas: a infra-estrutura, que é a esfera da produção material e a superestrutura, esfera da produção das idéias. De maneira simplificada, podemos dizer que a infra-estrutura é composta da economia (a produção de bens necessários à sobrevivência dos homens) e a superestrutura se constitui da moral, do direito, da política e das artes. 
  • Determinação – relação decorrente da separação entre infra-estrutura e superestrutura. Partindo dessa separação, observa-se o domínio estabelecido pela infra-estrutura sobre a superestrutura. Serão as relações de produção que irão determinar a organização social – as formas de comportamento e de convívio entre os homens; isto significa que as idéias têm sua origem na vida material – e são por elas determinadas. Mas o que é essa vida material? São as relações de produção que os homens estabelecem entre si, as quais dependem, por sua vez, das relações desses homens com os meios de produção (terras, máquinas, matérias-primas, força de trabalho, fábricas). Será, portanto, a esfera econômica que irá organizar as ideias sobre essa sociedade. 
  • Inversão – neste contexto, a ideologia teria o papel de alienar os indivíduos em relação às relações de produção e ao problema das desigualdades, ou seja, estas aparecem de maneira inversa aos homens, caracterizando uma distorção da realidade para justificar a dominação das classes dominantes em relação às  demais. 
Desta maneira, a religião, a moral e qualquer outra ideologia perdem imediatamente toda a
aparência de autonomia. Não têm história, não têm desenvolvimento; são antes os homens que, desenvolvendo suas relações materiais transformam o seu pensamento e os produtos de seu pensamento. Não é a consciência que determina a vida, mas sim a vida que determina a consciência.
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