Fome: Problema Econômico?

Enquanto nos países pobres aproximadamente 1/3 da população possui uma dieta alimentar insuficiente para atender suas necessidades básicas, nos países ricos e desenvolvidos, o consumo diário se situa na faixa entre 4.000 a 5.000 calorias, o que explica, em parte, o aumento da obesidade nestes países. Apesar disso, a fome também ocorre nesses países. 


A fome é ainda um grave problema a ser superado pela humanidade. Pesquisas revelam que os países pobres, entre eles o Brasil, são os que apresentam indicadores mais elevados de fome e desnutrição. Porém, as situações mais graves neste sentido ocorrem na Ásia Meridional e na África.

A FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação) estimava em 2005 uma população mundial de 842 milhões de pessoas famintas. Na sua opinião, em que países encontra-se a maior parte destes famintos? 

A fome, apesar de ser um problema muito comentado e discutido, ainda está longe de ser resolvido. Milhares de crianças morrem todos os dias, principalmente na faixa etária de zero a cinco anos, vítimas da fome e da desnutrição.

O Fundo das Nações Unidas para Infância – UNICEF – tem dados sobre desnutrição no Brasil, que constam no Relatório “Situação Mundial da Infância – 2003”. Veja a tabela 1, analise seus dados e responda: Qual é a situação das crianças brasileiras em relação à desnutrição?
A desnutrição no Brasil, ao contrário do que se pensa, ocorre em todo o país e não apenas nas regiões mais pobres. O fenômeno se encontra tanto no meio urbano quanto no meio rural, onde se produz o alimento. 

A fome ou a carência alimentar na infância quando não leva à morte, pode causar déficits hormonais que desencadeiam problemas de crescimento, de maturação neuronal, comprometimento ósseo-muscular, entre outros. As crianças com estes problemas podem apresentar dificuldades de aprendizagem, sentimento de inferioridade e dificuldades de convívio social.

Para uma alimentação adequada é necessário ingerir diariamente tipos variados de alimentos que contenham carboidratos, proteínas, lipídios (gorduras), glicídios (açúcares), vitaminas e sais minerais. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e a FAO recomendam uma ingestão de 2300 calorias diárias para as mulheres e 3200 calorias para os homens, o que corresponderia às necessidades diárias para uma vida saudável de um indivíduo adulto em atividade moderada. (DuTRA e mARCHINI, 1998).

A carência alimentar, ou uma alimentação inadequada, pode deixar o organismo suscetível a doenças infecto contagiosas, tais como a tuberculose, pneumonia, coqueluche; o que reflete nos gastos do sistema de saúde público. Por outro lado, a ingestão de calorias (através dos alimentos) maior do que o gasto energético do corpo provocará acúmulo de gordura nos tecidos, ou seja, a obesidade.

De acordo com pesquisas recentes do Instituto Brasileiro de Geografa Estatística – IBGE – a obesidade também estaria ocorrendo entre as camadas mais pobres da população. 

A fome, a obesidade, a pirâmide alimentar, a má educação alimentar podem nos remeter a reflexões sobre a agricultura? Vamos conhecer um pouco da agricultura brasileira para tentar responder a questão.

A partir de 1950, o Brasil começou a desenvolver sua indústria pesada ou de base com o objetivo de aprimorar sua industrialização e atrair novas indústrias e investimentos. O desenvolvimento industrial brasileiro a partir desse período combinou investimentos estatais em setores estratégicos como a siderurgia, geração de energia com investimentos estrangeiros, principalmente de empresas multinacionais que se instalaram com o apoio e incentivo do governo brasileiro. A mudança capitalista que se processava no Brasil visava uma maior inserção na economia mundial, necessitando ampliar as exportações e o desenvolvimento econômico brasileiro.

Naquele contexto de mudança capitalista iniciou-se uma política de modernização, com o objetivo de tornar a agricultura brasileira mais dinâmica e produtiva, buscando aumentar e diversificar a produção agrícola através de financiamentos agrícolas para a compra de equipamentos modernos como máquinas agrícolas (tratores, colheitadeiras).

Esta política modernizadora não levou em conta as implicações locais desse processo. A introdução de novas tecnologias nos cultivos agrícolas e de substituição das culturas tradicionais por produtos que permitem uma maior mecanização, como a soja, por exemplo, ocasionaram uma drástica redução da mão-de-obra empregada no campo e, consequentemente, o êxodo rural. 

Os pequenos proprietários, por terem dificuldade de acesso aos créditos agrícolas, ficaram excluídos do processo de modernização. Isto gerou um empobrecimento destes pequenos proprietários. Muitos tiveram que vender suas propriedades para pagar as dívidas obtidas na tentativa de modernizar sua produção. Os baixos valores obtidos na venda de seus produtos não eram suficientes para sobreviver e pagar os empréstimos. Desta forma, as grandes empresas agrícolas incorporaram as pequenas propriedades que não tinham condições de competir com elas, contribuindo para uma maior concentração fundiária.

Enquanto os grandes proprietários pertencentes à classe dominante controlam grande quantidade de terras, a maioria dos camponeses fica com o controle de uma pequena parcela.

O fato da política de modernização agrícola privilegiar a grande e a média prop
riedade com créditos agrícolas subsidiados fez com que produtos agrícolas destinados à indústria de transformação e de exportação fossem favorecidos em relação à produção agrícola destinada ao mercado interno ou a alimentação da população.

Nas sociedades capitalistas a produção sempre se volta para o lucro, esta é uma das características do sistema, necessária, portanto, para sua sobrevivência e para sua reprodução. Desta forma a produção se orienta pela demanda do mercado, seja externo ou interno, que na prática determina o que deve ser produzido, embora este mecanismo não seja simples.

Ter uma forte produção voltada para o mercado externo pode levar à falta de alimentos para a população brasileira? Seria essa uma das causas da fome? Ela paira na falta de condições econômicas das famílias mais pobres para adquirirem os produtos necessários a uma alimentação digna. O problema é a distribuição de renda.

No atual estágio de desenvolvimento econômico não é mais possível analisar o campo e a cidade como realidades separadas, pois modernas tecnologias são empregadas na agricultura mudando as condições de trabalho no campo e as características da produção agrícola. Métodos modernos de administração são implantados para se adquirir melhores colheitas e maior produtividade por área cultivada. 

Além da introdução de equipamentos modernos, da utilização de fertilizantes que alteram as características dos solos, tornando-os mais férteis, podemos citar o cultivo de plantas em estufa que não dependem do ritmo da natureza ou das estações do ano, e ainda a hidroponia, que é uma técnica de cultivo dentro da água enriquecida com nutrientes necessários para o desenvolvimento das plantas.


Por um lado, a agricultura depende menos da natureza do que dependia no passado, porém passa a depender cada vez mais da técnica e, consequentemente, da indústria ou das grandes empresas ligadas ao comércio internacional – que têm o monopólio das pesquisas e das sementes melhoradas, das quais necessitam os agricultores para obterem boas colheitas. Deste modo, a agricultura se torna cada vez mais dependente do Capital urbano industrial, colocada a serviço do desenvolvimento industrial.

Os métodos modernos de administração, aliados a tecnologia empregada na produção agrícola proporcionam um considerável aumento da produção. Essas tecnologias que possibilitam a exploração máxima do potencial agrícola possuem um alto custo, acessível, portanto, às empresas ou proprietários rurais que possuem capital ou acesso aos financiamentos agrícolas. E como ficam os pequenos proprietários ou minifundistas que não possuem esses requisitos? E aqueles que conseguiram se modernizar?

Geralmente, o uso intensivo de tecnologia na produção agrícola se verifica nas grandes propriedades, mas podemos constatar que existem pequenas propriedades familiares tecnificadas que conseguem garantir bons rendimentos na produção, garantindo assim uma boa qualidade e vida. 

Quanto aos pequenos produtores, há os que exploram determinados nichos de mercado ou possuem contrato com empresas agroindustriais que absorvem toda a sua produção, é o caso da agricultura orgânica ou do cultivo de flores. Porém, a maior parte deles se utiliza ainda de técnicas tradicionais de cultivo, devido ao custo elevado dos insumos e tecnologias agrícolas. Praticam uma agricultura de subsistência, que nem sempre supre as necessidades básicas de sua família. Desta forma, buscam alternativas de complementação da renda familiar, empregando-se como mão-de-obra temporária nas grandes propriedades de monoculturas ou nas cidades mais próximas.

Nestas condições, deteriora-se a qualidade de vida desses camponeses, podendo ocorrer 
casos de fome e desnutrição.


O Espaço agrário brasileiro passou, nas últimas décadas, por transformações por conta do processo de modernização introduzido na agricultura e, também, da incorporação de novas áreas para produção agrícola observados nas regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil. 

Essas mudanças aumentaram a produção agrícola, alterando as relações de trabalho no campo e a distribuição da população entre os espaços rural e urbano. Antes desse período de modernização agrícola, os trabalhadores eram empregados ou agregados nas fazendas. Essa realidade mudou a partir da introdução de tecnologias modernas levadas ao campo pela política de modernização e mudanças na legislação trabalhista, o que reduziu drasticamente o contingente empregado no campo.

A mudança nas relações de trabalho no campo, principalmente com relação ao surgimento do trabalhador temporário, não pode ser atribuído somente à introdução da tecnologia na produção, mas também a mudanças na legislação trabalhista, que estabelecia garantias e encargos trabalhistas que os grandes proprietários não queriam assumir, dispensando, assim, os trabalhadores. Foi neste contexto que surgiu o trabalhador temporário na agricultura.

Por não ter qualificação profissional, o trabalhador temporário tornou-se mão-de-obra barata e abundante para as grandes propriedades, reduzindo os custos de produção, contribuindo para a competitividade do produto no mercado. Normalmente são contratados por terceiros, o que aumenta ainda mais a exploração do trabalho.

Para o proprietário, a mão-de-obra temporária é um bom negócio, pois não acarreta encargos trabalhistas. Para os trabalhadores, fica a sobrevivência nas periferias das cidades com o pouco que recebem, que normalmente não é suficiente para uma alimentação adequada, gerando problemas de saúde e agravando ainda mais os problemas urbanos. É a fome que se manifesta na população, tornada urbana, em função das mudanças fundiárias e trabalhistas ocorridas no campo.

Além das relações já descritas anteriormente, é preciso discutir, também, a unidade familiar de produção, os arrendatários e os parceiros que se constituem relações muito utilizadas no sistema agrícola brasileiro. 

Mas, afinal, existe alguma relação entre a produção agrícola e a fome? A partir das reflexões propostas pelo texto, de que forma poderíamos resolver ou amenizar o problema da fome?
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