As classificações do relevo amazônico

Paulo Brito*

Até pouco tempo atrás, quando se falava do relevo da Amazônia, logo se lembrava da grande Planície Amazônica. Aliás, essa denominação marcou durante muitos anos, como principal compartimento, o relevo da Região. Dois fatores contribuíram para que essa ideia estivesse pre-sente. O primeiro corresponde à visão científica do final do século XIX, uma vez que as expedições de reconhecimento limitavam-se aos trechos navegáveis dos rios, não percorrendo aqueles encachoeirados que banham terras mais altas ou acidentadas. O segundo diz respeito às classificações de Aroldo de Azevedo e Aziz Nacib Ab’ Saber.

Utilizando-se das tecnologias da época, eles configuraram a planície Amazônica como predominante na Região, possuindo limites com o Planalto das Guinas e o Planalto Sul-Amazônico. Todavia, após se iniciarem os modernos estudos fisiográficos da Região nos anos 70, essa antiga visão passou a ser discutida por não se basear em cotas altimétricas. Além disso, ela vem caindo em desuso face à proposta feita, em 1995, pelo professor Jurandyr Ross, do departamento de geografia da Universidade de São Paulo (USP).

Com base nessa nova fisiografia e na reavaliação dos conceitos técnicos das formas de relevo encontrados no Brasil, podemos dizer que o número de porções do relevo amazônico praticamente dobrou, como veremos adiante, representando mais fielmente as diversas formas de topografia, mudando aquela ideia geral e equivocada de que a Região apresentava uma única e grande planície.


Formas de Relevo da Amazônia

Segundo o dicionário técnico da nova classificação para o Brasil, é possível dividir o relevo amazônico em três principais formas:

I. Depressão: Caracteriza-se por ser uma superfície entre.100~500m de atitude, com sua inclinação formada por processos prolongados de erosão. É mais plana do que o planalto.

II. Planalto: O termo parece-nos sugestivo, porém nada tem a ver com plano alto. Trata-se de uma superfície irregular com altitude acima de 300m. É o produto da erosão sobre as rochas cristalinas (metamórficas) ou sedimentares. Pode apresentar morros, serras ou elevações íngremes, de topo plano (chapadas).

III. Planície:É uma superfície muito plana com o máximo de l00m de altitude, formada pelo acúmulo recente de sedimentos movimentados pelas águas do mar, de rios ou de lagos. Ocupa porção modesta no conjunto do relevo brasileiro.

Classificação atual do relevo

A recente classificação do professor Jurandyr Ross resultou de uma pesquisa baseada em levantamentos feitos pelo RADAMBRASIL, que fotografou cada pedaço do País com equipamentos especiais de radar – instalados em um avião – e imagens de satélites, no período de 1970 a 1985.

Examinando o mapa da classificação atual, podemos observar que apresenta, Conforme ordem crescente de altitude, a seguinte divisão:

1. Planície do rio Amazonas: Compreende uma estreita faixa de terras planas que acompanha principalmente os rios Amazonas, Solimões, Purus, Juruá, Javari e Madeira, com altitudes inferiores a 100m e desníveis máximos de 60m. Foi o que restou daquela que se considerava uma planície gigantesca, reduzida cerca de vinte vezes do tamanho que se imaginava.

2. Depressão da Amazônia Ocidental: É a mais ampla porção da Região, apresentando altitudes entre 100 a 200m.

3. Depressão Marginal Norte-Amazônica: As altitudes variam entre 200 e 300 metros. 

4. Depressão Marginal Sul-Amazônica: Também apresenta uma variação de 200 a 300 metros de altitude.

5. Planalto da Amazônia oriental: Recoberto por mata densa e com altitude entre 400 e 500 metros, abrange terras que vão de Manaus até o Oceano Atlântico.

6. Planaltos residuais Norte-Amazônicos: Possui as maiores altitudes da região, variando entre 800 e 1.200m, e os pontos culminantes do relevo brasileiro, que são o Pico da Neblina (3.014m) e o pico 31de março (2.992m), ambos na serra do Imeri, fronteira do Amazonas com a Venezuela. Nessas terras altas, as tempestades caem muito à noite, e índice pluviométrico fica acima de 3.000mm por ano, criando uma intensa nebulosidade que dificulta ou impede a obtenção de imagens de satélites ou fotos aéreas.

Além dos pontos apresentados no quadro acima, existem outros picos com menor altitude no extremo-norte dos municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, como o Aracá, Rondon, Tunuí, Macaco, entre outros, e as serras Tapirapecó, Traíra, Daraá, do Padre, Curupira, Bela Adormecida, Urucuzeiro, Kaburi, dos Porcos, da Pedra, Unaiuxi e Parima.

O perfil topográfico apresentado acima representa um corte transversal de noroeste a sudeste, com cerca de 2.000km de comprimento, que vai das altíssimas serras do norte da Região, na fronteira com a Venezuela, até o norte do Estado de Mato Grosso.

Podemos notar claramente as estreitas faixas de planície situadas às margens do rio Amazonas, a partir das quais seguem-se vastas extensões de planaltos e depressões. 

Visão Geral da Bacia Hidrográfica Amazônica

A bacia Amazônica possui 1/5 da água doce da Terra, numa área de cerca de 5,9 milhões de km² em território brasileiro e 6,2 milhões de km² na América do Sul, correspondendo a 5% das terras emersas. É a maior bacia fluvial do mundo (Molinier et al., 1995), com 10 dos 20 maiores rios da Terra.

Essa grande bacia estende-se desde 5° de latitude norte até 20° de latitude sul, apresentando a norte o relevo do planalto das Guinas, a oeste a cadeia Andina, a sul o planalto Brasileiro e a leste a costa do Atlântico. Abrange terras de oito países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela), além de um território (Guiana Francesa). A desemboca-dura do curso principal no Oceano Atlântico dá-se nas proximidades da linha do Equador.

Bacias Hidrográficas

Vários fatores contribuem para a existência de tamanha rede hidrográfica. Um deles é a quantidade de chuvas que ocorrem na Região aliada à sua localização.

Cortada pela linha do Equador, acaba beneficiando-se do verão que ocorre rios dois hemisférios. Quando é verão no norte, os rios desse hemisfério (margem esquerda do rio Amazonas) é que ficam cheio devido ao aumento no índice de precipitação nesta estação. O mesmo ocorrerá ao sul quando for verão. Assim, ora os rios da margem direita estão cheios, ora os da margem esquerda.

Graças a essa distribuição dos rios em hemisférios diferentes, as, enchentes estão natural-mente em equilíbrio. Se não fosse assim, elas seriam catastróficas, e o ecossistema da várzea não existiria. Quando as chuvas do sul persistem durante muito tempo ou as do norte começam mais cedo, o que ocorre em média de 4 em 4 anos, as terras situadas acima do nível médio das enchentes são inundadas.

O nível das águas do seu grande rio sobe gradualmente de novembro a junho, quando começa a descer até fins de novembro. Nas regiões do médio e baixo Amazonas, as cheias ocorrem no mês de junho e julho. No alto Amazonas ou Solimões, o regime de cheias ocorre duas vezes ao ano. A cheia do rio Negro não ocorre ao mesmo tempo, uma vez que o período de chuvas em seu vale só começa no primeiro trimestre de cada ano.

A maior enchente foi registrada em 2012, quando em Manaus o nível das águas atingiu 29,87m (maio de 2012) acima do nível do mar. Outro fator que contribui, embora em menor escala, para alimentar a bacia hidrográfica Amazônica é o derretimento das geleiras existentes na Cordilheira dos Andes, constituindo o regime glacial de alimentação do rio principal e seus tributários, ao lado do regime pluvial.


O Rio Amazonas e suas características Considerado o principal da bacia Amazônica, o rio Amazonas, com 8.570km de extensão (IBGE), é o maior do mundo em extensão e em volume de água. Por isso, ele foi chamado pelo explorador espanhol Vicente Yánez Pinzon, quem primeiro o avistou, de “Rio Grande de La Mare Dulce”. Entretanto ele foi batizado por outro espanhol, Francisco Orellana (1541), que segundo se conta, observou em meio aos índios tapajós a existência de mulheres guerreiras nas linhas de frente, de grande combatividade, semelhante às mulheres guerreiras gregas, que extirpavam o seio direito para melhor manejar o arco. Originalmente, a palavra amazonas, criada pelos gregos, quer dizer sem seios.

Durante muito tempo, acreditou-se que o rio nascia da confluência dos rios Ucayalli e Marañon, na Cordilheira dos Andes, em território peruano. Porém isso constituía um erro de geografia. Com os recursos modernos e a partir de uma reavaliação e constatação de diversas expedições, passou-se a considerar a máxima extensão do rio, como determinam as convenções, portanto a nascente do Ucayalli, passando assim a ser o primeiro do mundo. 

Afluentes do Rio Amazonas

Observando o mapa da hidrografia, é possível notar a existência de inúmeros rios tributários do Amazonas. Em toda a extensão da bacia, chegam a aproximadamente 1.100 rios, formando um imenso labirinto, que deslumbra os visitantes em suas viagens. Alguns dos principais afluentes do rio Amazonas são:

Margem direita:
Javari: Este rio nasce na Serra da Contamana (400m de altitude) com o nome de Jaquirana.

Jutaí: Com sua nascente próximo à região banhada pelo Ipixuna, afluente do Juruá, possui passagens estreitas e águas barrentas.

Juruá:Nascendo no serro das Mercês (Serra da Contamana). Seu leito pode sofrer variações entre 8~16m no nível das águas, entre a vazante e a enchente.

Madeira:Com 3.240km, é o mais notável afluente do Amazonas, nascido da junção dos rios Mamoré e Guaporé, em frente à cachoeira “madeira”.

Purus:Com águas barrentas iguais às do Solimões .

Tefé:Surgindo das terras altas entre os rios Tapauá e Juruá, corre em direção nordeste, recebendo águas dos lagos e de inúmeros igarapés.

Coari:Durante a maior parte do ano, a navegação é intensa, embora em alguns momentos só trafeguem pequenas embarcações.

Margem esquerda

Içá:Sua nascente encontra-se nos contrafortes andinos, em território equatoriano.

Negro:Nasce nas regiões do Popaiã, mais precisamente na Serra do Junaí (Planalto Colombiano).

Japurá:Conhecido na Colômbia, onde nasce, pelo nome de Caquetá.

Nhamundã:Origina-se em terras altas, entre as cabeceiras do Uatumã e as do Trombetas. Apresenta, em determinados trechos, um azul profundo, estendendo-se por montes e espessa vegetação.

Urubu:Este rio se forma dos igarapés Mbiara, Caranay e Urubutinga, em terras altas, nas fronteiras da Guiana. Suas águas são pretas, sendo que na vazante parecem um melaço após a segunda cachoeira. Comunica-se com o Amazonas por diversos canais e igarapés.

* O texto faz parte da apostila do "Aprovar" (Ano 04, n.10) - Projeto desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas - UEA
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