África pré-colonial: África Central

Nesta subdivisão do continente encontramos os seguintes países: Chade, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Congo. Dentre os vários povos que habitaram esta região, destacaremos os povos de língua banto por se tratar de dois terços da população atual, e por sua relação com o Brasil na diáspora África-América.

Os Povos Bantos

O termo Banto se refere a um tronco linguístico no qual se encaixam entre 300 e 600 (LOPES, 1997, p. 269-77 apud MOREIRA, 2006, p. 40) línguas e povos diferentes, que ocupam uma superfície de aproximadamente nove milhões de quilômetros quadrados, que vai desde uma linha imaginária que divide o continente africano ao meio, da República dos Camarões, no Atlântico, à Tanzânia, no oceano Índico (LOPES, 1997, p. 269-77 apud MOREIRA, 2006, p. 40). É comum utilizar-se o termo banto hoje também para designar os povos que utilizam as línguas pertencentes ao tronco banto, que somam mais de 200 milhões de pessoas. 

Segundo a tese de alguns linguistas, as línguas bantas seriam derivadas de uma única língua comum, denominada por eles de protobanto. De acordo com os estudos destes linguistas é possível reconstruir um pouco do modo de vida dos primeiros povos bantos através do estudo de sua língua. Sabemos, por exemplo, que eram produtores de alimentos, pois possuíam palavras para designar o dendezeiro, legume, figueira, azeite, cogumelo, bode, cachorro, e até boi. O vocabulário de caça era pouco, e predominavam as palavras referentes a pesca, como anzol, canoa, remo. Tudo isto nos faz crer que tivessem um habitat que transitasse entre a savana, o cerrado e a floresta. 

Este tipo de território pode ser encontrado ao norte e ao sul da grande selva do Zaire. Pelos estudos linguísticos e arqueológicos, estamos diante, portanto, de pescadores, que praticavam a agricultura nas bordas da mata, coziam a cerâmica, teciam panos de ráfia e outras fibras vegetais, faziam cestos, estavam organizados em extensas famílias e conheciam certas formas de controle social difusas, baseadas no prestigio dos mais velhos. Suas crenças religiosas não apresentavam grande distância das que ainda hoje professam muitos de seus descendentes: acreditavam que tudo participa da harmonia cósmica, que cada coisa possui força espiritual e que há permanente troca de poder e apoio entre os vivos e os mortos da mesma linha de sangue.

À medida que aumentava o número populacional, os protobantos foram avançando para o leste e para o oeste, sempre seguindo os principais leitos de rios da região, como o Sanga e o Ubanqui até o leito do rio Zaire, e então subindo por seus afluentes: o Cuango, o Quilu, o Cassai e o Lulua. Conforme iam migrando, a língua ia se segmentando. Os grupos que se expandiram para o leste deram origem às línguas bantas orientais, e os que se deslocaram para o sul, ao ramo ocidental do banto. 

Por volta do século II, os bantos atingiram as regiões das serranias e montanhas do Quênia e do Rift Valley, como demonstram os exemplares das cerâmicas ali descobertas. Nos séculos III e IV, eles expandiram-se até o norte da África do Sul, descendo à costa de Moçambique, onde tiveram contato com a bananeira, o coqueiro e várias espécies de inhames de origem sul-asiática, trazidas à região de Madagascar pelos primeiros indonésios que ali chegaram através do Índico.

Mais tarde eles levariam estes produtos até o interior da África, do Zambeze até Senegal, fazendo com que a banana e o coqueiro passassem a fazer parte da paisagem africana, especialmente nos litorais atlântico e índico. Em algum momento de sua história, os bantos que viviam nas florestas do Zaire teriam conhecido o ferro. Segundo a arqueologia, foram encontrados vestígios do uso desta tecnologia em diferentes datas entre os vários povos bantos habitantes da África central, como por exemplo o século IV a.C. nos Camarões, Congo, Chaba e no centro da Zâmbia, entre VII e I a.C. no Gabão, e no século III a.C. na região de Kinshasa.

Após dominarem outras técnicas de obtenção de alimento, como o cultivo do sorgo e do milhete, e a criação das cabras, carneiros e bois, os bantos puderam então se afastar da vida próxima aos rios, córregos e lagos, e ocuparam as savanas e os planaltos da Zâmbia, do Zimbábue, Maláui, Zaire, Moçambique, Angola e leste da África do Sul. A maioria passou então a depender mais da caça e do gado do que da pesca, além da semeadura. 

Os grupos bantos se espalharam muito rapidamente pela África. Mas esta expansão não se dava através de exércitos, embora tivessem que se valer da força em alguns casos; mas em sua maioria eram colonos que se ocupavam territórios que lhes pareciam vazios, às vezes entrando em contato e até mesmo em conflito com pequenos grupos de caçadores e coletores errantes, como os coissãs e pigmeus. 

Como mostra o relato de Alberto da Costa e Silva, assim se dava a chegada de um grupo banto a uma nova região:

Eis que chega um grupo banto. Algumas famílias. Ou toda uma linhagem. Limpa o terreno. Corta árvores para fazer as casas. Arma-lhes as paredes como uma gaiola de varas e preenche os vazios com barro socado. Compõem-lhes o teto de sapé. E nessa nova aldeota, instalam-se. Abre, ali perto, por derruba e queimada, as suas roças. Faz os cercados para os animais domésticos: ovelhas, cabras, algumas vezes a vaca. Vai pescar no rio, no riacho, no lago, na lagoa. Com anzóis e arpões de ferro. Com armadilhas, redes e puçás. Volta muitas vezes da caça com grandes animais antílopes, búfalos, porcos selvagens que matam, graças à lança e à flecha de ponta de ferro, com menor dificuldade do que os vizinhos nômades, que mal pressentem. 

(...)Quando o solo começa a mostrar-se menos fértil ou a caça se torna mais difícil nas redondezas, o grupo segue adiante. E, quando o número dos que formam aumenta demasiadamente ou dentro dele surge a cizânia, seguem adiante, divididos. Ao mudar de paisagem e ao entrar em contato com culturas diferentes (...), alteram a alimentação, modificam hábitos, enriquecem o vocabulário e a sintaxe, trocam a forma de alguns de seus objetos e assimilam novos símbolos de fé e poder. (SILVA, 1996, p. 210-211).

Englobando uma infinidade de comunidades e povos de pouca ou nenhuma semelhança física, os bantos, uma classificação mais linguística do que étnica, ocupam atualmente cerca de dois terços do território africano. Estes grupos podem ser classificados de acordo com as influências que sofrem a partir do contato com outros povos, com os quais, durante sua expansão, dividem territórios, mestiçando-se ou repelindo-se. Algumas características se mantêm constantes, como a divisão sexual do trabalho, cabendo ás mulheres a agricultura e aos homens o pastoreio, e a organização familiar matrilinear, nos quais a mãe e irmãs do governante, chefe eletivo ou rei divinizado, exercem importante papel político. 

Hoje podemos dividir os grupos bantos em cinco grandes grupos, de acordo com suas características culturais e região geográfica. São eles:

- Os bantos da floresta tropical, como os mpongué e os bakotá (no Gabão), os kuelé, os birá e os bateké (no Congo), que vivem em tribos de reduzidas dimensões;
- Os bantos da savana atlântica, com destaque para os bacongos, do reino Manicongo (séc. XIII), os bavili, os umbundo, ovibundos e os hereros;
 -Os bantos do planalto central, com destaque para os shona, povo pertencente ao grande reino do Monomotapa;
- Os bantos meridionais, com pastores organizados em aldeias dispostas em torno de um curral comunitário, com destaque para os nguni e os sotho, que habitam regiões próximas a atual África do Sul;
-E os bantos orientais, incluindo os povos da federação Malawi, do atual Quênia e na região dos Grandes Lagos (Burundi e Ruanda) (MOREIRA, 2006, p. 42-43).

Muito ainda deve ser descoberto em relação ao modo de vida dos primeiros povos bantos. Mas o que sabemos é que graças à sua expansão pelo território africano, conhecimentos, objetos e técnicas puderam ser levados a vários povos diferentes do continente, como o uso do ferro, e técnicas de cultivo. Assim, expandindo-se, misturando-se, podem ampliar os seus conhecimentos nos contatos com outros povos, demonstrando como a cultura africana é rica e diversificada, mas sempre aberta ao contato com outros povos. 

Fonte: Projeto Abá - Estudos Africanos e Afro-Americanos - Para estudar a História da África - Universidade Estadual de Goiás
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