África pré-colonial: África Austral

Os países que fazem parte da África Austral são: Angola, Zâmbia, Moçambique, Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Suazilândia, Lesoto, África do Sul, Madagascar e as Ilhas Comores e Maurício.

O Grande Zimbábue e o Reino do Monomotapa Atualmente os países pertencentes à África Austral, numa perspectiva geográfica, são: Angola, Zâmbia, Moçambique, Zimbábue, Namíbia, Botsuana, Suazilândia, Lesoto, África do Sul, Madagascar, contando ainda com as diversas ilhas que pontuam a área de encontro dos Oceano Atlântico e Índico.


Por volta da metade do primeiro milênio, os povos bantos, provenientes da fusão entre a vaga oriental e a dispersão secundária a partir da África central, assentaram-se na região dos rios Zambeze e Limpopo. Eram povos oriundos da região do lago Tanganica, que haviam chegado à região por volta do ano de 850, descobrindo ouro, cobre, ferro e outros metais. Ao chegarem à região, a classe dominante erguera um santuário e outras edificações às quais deram o nome de Dzimbáhué. Traziam consigo a prática da agricultura, além de gado (búfalos, caprinos, zebras) e do conhecimento da metalurgia. Estas sociedades viveram em economias de subsistência assim mesmo devendo praticar um comércio local, sendo que este é atestado pela cerâmica refinada, testemunha de uma especialização do trabalho.

Segundo M'Bokolo,


Por volta do ano 1000, registrou-se uma renovação importante, identificada por uns com a chegada de um grupo novo da população, os Leopard's Kopje(...), por outros a uma aceleração do modo de mudança nas sociedades locais. (...) Numa segunda fase, datada dos séculos XIII XIV, a cultura material dos Leopard's Kopje voltou a enriquecer-se com o trabalho do algodão, o tratamento do ouro e do marfim, e as primeiras construções de paredes de pedra.(M'Bokolo, 2003)

No que concerne à “origem” do reino, os estudiosos não estão em consenso. Alguns atribuem um valor capital ao poder de agregação inerente à adoração de Muári, outros consideram que novos valores políticos foram acrescidos com a chegada de contingentes étnicos que não xonas. Alguns, ao contrário, creem que dinâmicas próprias, locais, tiveram como resultado a criação de sistemas políticos inéditos. Existem também aqueles que, ainda de acordo com M'Bokolo,


Poem em evidência o papel decisivo, aqui como em outras partes da África, do “comércio a longa distância” com parceiros estrangeiros. É certo que o comércio entre os árabes estabelecidos na costa do oceano Índico, em particular em Quíloa (Kilwa) e em menor volume, em Sofala, e as populações Xonas tinham alcançado um notável nível de desenvolvimento de que as fontes portuguesas nos finais do século XV e começos do século XVI dão bem conta.(M'Bokolo, 2003)


Assim, em meados do século XIV, o Grande Zimbábue devia ter uma população acima dos 10.000 habitantes. A sociedade devia, a partir de hipóteses sustentadas pelo material arqueológico, ser extremamente hierarquizada: acima de todos, o rei e sua parentela; logo abaixo os dignitários e os oficiais do Estado, seguidos pelos numerosos artesãos ferreiros, trabalhadores do artesanato têxtil, pedreiros, oleiros . Testemunho deste poder nas mãos do rei são as enormes construções de pedra que deram espaço para o desenvolvimento de diversas lendas acerca da população do Grande Zimbábue. 

Apesar de toda a hierarquia, e dividindo a atenção com o poderio real, uma instituição específica era considerada como primordial: a família. É o que atestam os achados materiais que indicam uma forte centralidade da atenção cotidiana para o meio familiar em detrimento ao espaço coletivo. Como deste modo os indivíduos tinham sua atenção voltada para a subsistência de sua família, ao que tudo indica o rei acabava por ser o único que poderia lucrar com o comércio em larga escala, pois só ele possuía os meios para mobilizá-lo. 

O território possuía jazidas de ouro, o que atraiu a atenção de comerciantes estrangeiros, os quais o trocavam por pérolas, tecidos, cerâmicas e miçangas. Como foi discutido acima, não se está em consenso sobre qual foi o papel que estes estrangeiros representaram na emergência do Estado. Todavia, seja marginal ou essencial, estes sem dúvida participaram efetivamente na sua constituição.

Monomotapa (que significa “senhor de tudo” ou “senhor dos vassalos submetidos pela guerra”) era o nome que recebia o rei dos povos Xonas (tronco banto), que habitavam na região entre os atuais Zimbábue e Moçambique.

M'Bokolo chama a atenção para alguns aspectos surpreendentes deste reino africano:


O rei, liberto das contrições da humanidade pelas suas próprias funções e por atos desumanos acompanhando a sua entronização, era encarado como representante até na sua virilidade e na sua constituição física da prosperidade do reino e do bem estar da sociedade no seu todo. Alguns chefes deviam até ter relações sexuais com um crocodilo vivo ou uma serpente. “Antigamente, costumavam os reis desta terra beber peçonha, com que se matavam, quando lhes sucedia algum desastre ou defeito natural em sua pessoa, como era serem impotentes ou doentes de alguma enfermidade contagiosa, ou quando lhes caíam os dentes dianteiros, com que ficassem feios, ou qualquer outra enfermidade ou aleijão. E para não terem estas faltas se matavam, dizendo que o rei não havia de ter defeito algum e, quando o tivesse, era mais honra sua que morresse logo e fosse à outra vida melhorar-se do que lhe faltava, pois lá tudo era perfeito”.(M'Bokolo, 2003)

Os Xonas eram guerreiros belicosos e grandes comerciantes. Seus chefes usavam capas de peles de animais selvagens, cujas caudas arrastavam pelo chão, como sinal de dignidade e autoridade. Suas espadas, levadas do lado esquerdo da cintura, eram orname
ntadas com muito ouro. Armavam-se também de flechas e lanças pontiagudas.

Tradições Religiosas

Para os Xonas, o mundo e todas as coisas são criações de um Ente Supremo, chamado Muári, também chamado de Mulungu, Ruwa ou Unkulunkulu. Ele personifica as forças da natureza e da sociedade. O Monomotapa governava em nome de Muári, acumulando poderes políticos e religiosos. Mas os grandes depositários e conhecedores das coisas que dizem respeito ao cotidiano da vida e à natureza são os Nganga. Eles devem ser consultados nas doenças e estados anormais, e utilizam dos muxongas (medicamentos e ervas), para determinar a causa do malefício e assim obter a cura.Os Mizimus, espíritos dos ancestrais, também desempenham um papel fundamental na religiosidade destes povos. Eles são espíritos familiares, aos quais devem ser feitas oferendas periódicas de pombe (cerveja), tabaco, mingau etc. Um Mizimu insatisfeito ou esquecido pode causar doenças e outros distúrbios em seus descendentes.


Fonte: Projeto Abá - Estudos Africanos e Afro-Americanos - Para estudar a História da África - Universidade Estadual de Goiás
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