O que é Cultura?

Heitor H. Sayeg 

“Cultura é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, moral, direito, costume e outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade” 
Edward Tylor (1871) 

Ao trabalharmos com o conceito sociológico de cultura, é necessário definirmos exatamente no que consiste esta ideia. Erroneamente, associamos cultura ao acúmulo de saber e conhecimentos, pressupondo a existência de pessoas com “mais cultura”, ou cultas, que outras. 

Na realidade, o conceito de cultura refere-se à totalidade dos aspectos sociais de um determinado grupo, como a linguagem, os padrões estéticos, a culinária, suas bases econômicas e crenças religiosas. Desta maneira, todos os indivíduos de um determinado grupo são criados e socializados em um ambiente que impõe padrões, normas e códigos sociais visando a homogeneização dos comportamentos e crenças com o objetivo de gerar coesão social dentro deste grupo. Desde que nasce, o indivíduo é influenciado pelo meio social em que vive; não existem, portanto, pessoas com mais ou menos cultura que outras tampouco culturas superiores ou inferiores. 

A partir destas considerações, uma pergunta deve ser colocada: quando as sociedades humanas começaram a produzir cultura? Em seus primórdios, a espécie humana guiava-se basicamente de forma instintiva, buscando satisfazer exclusivamente suas necessidades biológicas. Contudo, com o passar dos anos, aprendeu a utilizar roupas, ferramentas e inovações que permitiram que sobressaísse em relação aos demais animais, a despeito de sua inferioridade física. Segundo o sociólogo Roque Laraia, o ser humano possuía um “equipamento físico muito pobre. Incapaz de correr como um antílope; sem a força de um tigre; sem a acuidade visual de um lince ou as dimensões de um elefante; mas, ao contrário de todos eles, dotado de um instrumental extraorgânico de adaptação, que ampliou a força de seus braços, a sua velocidade, a sua acuidade visual e auditiva etc”. Assim, o homem percebe que suas chances de sobrevivência aumentam consideravelmente ao agrupar-se com outros semelhantes, pois, inserido em um ambiente hostil, ao viver em grupo é possível que objetivos comuns sejam atingidos com maior facilidade. A cultura surge a partir da intervenção humana na natureza. 

Portanto, podemos associar a transmissão e conservação da maior parte dos preceitos sociais à cultura: o estabelecimento e respeito às regras e convenções sociais, atribuição de papéis sociais, hierarquização social, crenças religiosas, rituais de passagem ou reconhecimento social.Tomemos como exemplo a alimentação. Todos os povos, das mais diversas culturas, precisam alimentar-se. Porém, utilizam talheres, palitinhos ou comem com as mãos? Existem obrigações ou proibições em relação aos alimentos? Existe preocupação com “quilinhos supérfluos”? As respostas a estas perguntas serão diversas entre si de acordo com a cultura que se busca compreender. Além dos limites fisiológicos, elementos como resistência à dor, controle da respiração, ímpeto em realizar determinadas atividades são variáveis em relação à forma como a pressão social de uma determinada cultura se impõe ao indivíduo. É difícil imaginar um homem-bomba muçulmano realizando um ataque suicida caso estivesse inserido em outro contexto sócio-cultural. 

Para compreendermos e identificarmos determinadas culturas, alguns aspectos devem ser apontados: 1) é transmitida a partir da herança cultural de uma determinada sociedade, permitindo a continuidade da sociedade apesar da transitoriedade humana, 2) compreende a totalidade das criações humanas, incluindo seus aspectos materiais e imateriais (simbólicos, particulares a cada grupo) e 3) por ser a totalidade das criações humanas, também é uma característica exclusivamente humana. 

A partir da perspectiva sociológica, a manutenção da sociedade decorre não de elementos geneticamente programados (como no caso dos animais), mas das relações entre os homens e entre os homens e a natureza. Essas relações estão registradas nas normas, regras, imagens, mitos, ritos e discursos, elementos que podemos chamar de representações simbólicas. Todos esses elementos são socialmente construídos e relacionados à própria existência da sociedade. Assim, poderíamos dizer que a cultura possui simultaneamente os campos simbólico e material das atividades humanas: toda ação humana e, conseqüentemente, toda a vida social têm um conteúdo simbólico (mitos, ritos, representações) e um conteúdo material (objetos, gestos). 

Podemos perceber, portanto, que o conceito de cultura não diferencia realidade social e universo simbólico e, por isso, compreende as explicações míticas ou religiosas que os homens dão à sua realidade como elementos que interferem e explicam a produção dessa realidade, e não como distorções ou idéias falsas a seu respeito. Por exemplo, em uma determinada sociedade, a obediência a certas regras religiosas de estímulo ao trabalho e à poupança poderá ajudar a compreender a organização de sua economia; a forma como estes determinados grupos religiosos entendem o porquê da existência humana pode ajudar a compreender a relação de maior ou menor dedicação que os membros dessa sociedade estabelecem com o ato de trabalhar.
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