A Revolta "Quebra Panelas" - Henry Ford

No final de 1930, Fordlândia parecia ter superado os principais óbices, a maior parte das instalações tinha sido concluída, a limpeza de novas áreas estava em andamento, estradas construídas e a plantação de mudas de seringueiras prosseguiam. No entanto os trabalhadores brasileiros não estavam satisfeitos com o regime espartano imposto pelos capatazes americanos o que provocava uma enorme rotatividade entre os trabalhadores. A pontualidade, a proibição da ingestão de bebidas alcoólicas no perímetro da empresa, a alimentação tipicamente norte-americana, e a sujeição a uma forma de gestão a que não estavam habituados, gerava conflitos e diminuía a produtividade. Os brasileiros acostumados a organizar sua jornada de trabalho, de acordo com o Sol e seguindo o ritmo determinado pelos períodos de chuva ou estiagem tinham dificuldade de se habituar aos horários ditados por uma estridente sirene e o controle rígido dos cartões de ponto. Em cada detalhe ficava clara a falta de compreensão entre os dois mundos. Os trabalhadores solteiros foram proibidos de sair da propriedade para frequentar bares e bordéis. Em Fordlândia era vedado o uso de bebidas alcoólicas, a “lei seca” fora exportada para a Amazônia. O jeitinho brasileiro incrementado pelo repentino influxo de dinheiro deu origem, ao estabelecimento, nas cercanias da cidade “americana”, de bares, casas de jogos e bordéis. Os solteiros de Fordlândia usavam de todo o tipo de artifício para contrabandear bebidas e dar uma “fugida” até a “ilha dos inocentes” onde encontravam bebidas e prostitutas vindas de Santarém e de Belém.

Não tardou para que a insatisfação com as normas americanas provocasse uma grande confusão. O conflito teve início no novo refeitório, uma estrutura de teto baixo, construída de metal, piche e amianto, mal ventilada que se assemelhava a um verdadeiro forno. Contrariando o acordado na ocasião do contrato os administradores decidiram que os operários teriam de pagar pelas refeições cuja dieta, estabelecida pelo próprio Ford, era constituída de farinha de aveia e pêssegos enlatados para o desjejum e espinafre enlatado, arroz e trigo integral para o jantar. A espera na fila era demorada tendo em vista que os funcionários do escritório tinham de registrar o número dos distintivos dos funcionários.

“Os cozinheiros tinham problemas para manter o fluxo de comida e os escriturários levavam tempo demais para anotar o número dos distintivos. Lá fora, os trabalhadores se empurravam, tentando entrar. Dentro, aqueles que esperavam pela comida se juntavam em torno dos atribulados servidores, que não conseguiam colocar o arroz com peixe nos pratos com rapidez suficiente. Foi então que Manuel Caetano de Jesus, um pedreiro de 35 anos do estado do Rio Grande do Norte, forçou sua entrada no refeitório e enfrentou. (...) Ostenfeld mandou Jesus voltar para a multidão e disse: ‘Tenho feito tudo por você; agora você pode fazer o resto’.

(...) A reação foi furiosa, lembrou um observador, como ‘atear fogo a gasolina’. O ‘terrível barulho’ de panelas, copos, pratos, pias, mesas, cadeiras sendo quebradas serviu de alarme, chamando mais homens para o refeitório, armados de facas, pedras, canos, martelos, facões e porretes. Ostenfeld, juntamente com Coleman, que havia presenciado a cena sem saber nada de português, pulou em um caminhão para fugir.

(...) Com Ostenfeld em fuga, a multidão ficou enlouquecida. Depois de demolir o refeitório, destruíram ‘tudo que pudesse ser quebrado que estivesse no seu caminho, o que os levou ao prédio do escritório, à usina de força, à serraria, à garagem, à estação de rádio e ao prédio da recepção’. Cortaram as luzes do resto da plantação, quebraram as janelas, atiraram uma carga de caminhão de carne no Rio e inutilizaram medidores de pressão. Um grupo de homens tentou arrancar os pilares do píer, enquanto outros atearam fogo à oficina, queimaram arquivos da empresa e saquearam o depósito. Em seguida, os desordeiros voltaram os olhos para as coisas mais intimamente associadas a Ford, destruindo todos os caminhões, tratores e carros da plantação. Pára-brisas e faróis foram espatifados, tanques de gasolina perfurados e pneus cortados. Vários caminhões foram empurrados para dentro de valas e pelo menos um foi jogado no Tapajós. Depois eles se voltaram para os relógios de ponto e os despedaçaram.

(...) Ladeado por soldados brasileiros armados, Kennedy reuniu os trabalhadores da plantação e lhes pagou ‘por todo o tempo até 22 de dezembro’. Em seguida demitiu toda a força de trabalho, com exceção de umas poucas centenas de homens.

Com a Fordlândia em ruínas e danos estimados em mais de 25 mil dólares, ele aguardou que Dearborn lhe dissesse o que fazer”. (GRANDIN)

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